<?xml version='1.0' encoding='UTF-8'?><?xml-stylesheet href="http://www.blogger.com/styles/atom.css" type="text/css"?><feed xmlns='http://www.w3.org/2005/Atom' xmlns:openSearch='http://a9.com/-/spec/opensearchrss/1.0/' xmlns:georss='http://www.georss.org/georss' xmlns:gd='http://schemas.google.com/g/2005' xmlns:thr='http://purl.org/syndication/thread/1.0'><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091</id><updated>2011-11-24T15:28:34.304-02:00</updated><title type='text'>mundosdevidro</title><subtitle type='html'>mundos de vidro é o título dado no Brasil à tradução do primeiro romance do escritor italiano Alessandro Baricco. este é um espaço literário-especulativo que criei para falar das coisas que me são caras e da vida que anima essas coisas. música, cinema, ciências humanas, filosofia, literatura e pessoas.</subtitle><link rel='http://schemas.google.com/g/2005#feed' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/posts/default'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default?max-results=100'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/'/><link rel='hub' href='http://pubsubhubbub.appspot.com/'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><generator version='7.00' uri='http://www.blogger.com'>Blogger</generator><openSearch:totalResults>84</openSearch:totalResults><openSearch:startIndex>1</openSearch:startIndex><openSearch:itemsPerPage>100</openSearch:itemsPerPage><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-9128455753321485213</id><published>2007-10-30T14:01:00.001-02:00</published><updated>2007-11-04T17:57:30.767-02:00</updated><title type='text'>PUTA QUE PARIU!!!</title><content type='html'>Aleluia!, Gloria a Deus. Louvados sejam Jesus, Maomé, Shiva, Gamesh (ô elefantinho fofo gente!), o Chacrinha e aquele velinho bacana que descobriu o chá do Daime na Amazônia (e que hoje faz a alegria de playboys "espiritualizados", hippies de shopping e maculelês diversos. Enfim, gente cheia de "boas vibrações" rs).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois bem: até que enfim a Companhia das Letras lançou a tradução brasileira de &lt;em&gt;Questa Storia&lt;/em&gt;, último romance de Alessandro Baricco. É que o mais vendido de seus romances (e, em minha opinião, o menos genial), Seda, foi filmado numa mega produção e deve estar chegando aos cinemas brasileiros. Pelo que conhecemos da Companhia das Letras, que não é besta nem nada, a editora deve pegar carona e relançar a obra toda. Além de &lt;em&gt;Esta história&lt;/em&gt; já saiu &lt;em&gt;Seda,&lt;/em&gt; (com nova tradução), ambos em edições lindíssimas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A maior parte de vocês não vai se impressionar muito com isso, mas quem me conhece sabe que eu to sorrindo pras paredes, abraçando inimigos, "beijando o português da padaria". Mal posso esperar pra pegar o meu exemplar da nova edição de &lt;em&gt;Mundos de Vidro&lt;/em&gt;.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fato é: faz cinco anos que eu leio e releio os livros do Baricco e não há nada em literatura contemporãnea que tenha me cativado tanto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nesses cinco anos fui me tornando cada vez mais íntimo de sua obra e de seus personagens. Não raro sinto saudade de um deles, daí vou num trecho específico, revejo uma cena (sim, porque Baricco é literatura pra se ver), releio algumas linhas ou páginas. Fecho o livro sorrindo satisfeito, como quem acaba de visitar alguém muito querido. Assim é com a belíssima Jun e o pirado Pekish, de &lt;em&gt;Mundos de Vidro&lt;/em&gt;; com a indescritível Elisewin, de &lt;em&gt;Oceano Mar&lt;/em&gt;, minha favorita (preciso de uma mulher que aceite ter uma filha com esse nome); com o menino Gould e Shtazy Shell ("nada a ver com o cara do posto de gasolina"). O piedoso (piedade no amor) Hervé Joncour de Seda me inspira profundo respeito, assim como o "casal" de &lt;em&gt;Sem Sangue&lt;/em&gt; (que nunca foi editado no Brasil) me surpreendeu em meio ao único romance de Baricco em que não se consegue dar uma só risada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Normalmente é assim: você está em meio às mais escrachadas gargalhadas quando, no meio da página seguinte, é pego por um trecho que te deixa mudo. Se for de seu temperamento os olhos se alagam antes mesmo que o sorriso tenha se desfeito por inteiro. Aliás, têm isso os livros do Baricco: não raro te fazem chorar sem desfazer o sorriso (e não importa, aqui, se se trata de chorar mesmo, com lágrimas nos olhos, ou de um daqueles incontáveis jeitos que, cada um de nós, a seu modo, encontra para fazer a coisa com alguma dignidade, quem sabe paz).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Qando conheci Baricco, através do filme de Giusepe Tornatore (baseado no monólogo, Novecentos) não encontrei ninguém que o conhecesse. Daí veio o orkut e pelo menos duas boas amizades vieram da comunidade que criei para o autor (e que hoje é "administrada" por uma iraniana que tem a palavra "soie" (seda, em italiano) tatuada no braço. O fato é que apresentei o Baricco pra mais de uma dúzia de pessoas que, pelo que ando sabendo, estão passando adiante. Somos proselitistas rs. As três ex-namoradas, por exemplo, leram todos os livros e amaram; só agora me ocorre que talvez Baricco não seja lá uma benção para relacionamentos estáveis rs.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, táí (pela enésima vez) a dica.&lt;br /&gt;Dispensável desejar boa leitura.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-9128455753321485213?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/9128455753321485213/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=9128455753321485213' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/9128455753321485213'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/9128455753321485213'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2007/10/puta-que-pariu_30.html' title='PUTA QUE PARIU!!!'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-511443099869556300</id><published>2007-09-20T00:01:00.000-02:00</published><updated>2007-10-05T16:49:10.037-02:00</updated><title type='text'>o abismo dos olhos</title><content type='html'>Disse-me que se destruiria de um modo belíssimo. E que eu veria fogos e luzes onde os outros encontrariam apenas mapas, lembranças, vozes e datas. Era fascinado por um relógio, pequeno, daqueles de bolso. Nessas horas tomava-o nas mãos fitando-o por minutos a fio. Meus pensamentos assumiam uma forma centrífuga e sempre acabavam num ponto, que se abria, se alargava e se tornava um fosso, mas não assustava. Sentávamos a sua borda e batíamos no fundo escuro a cinza de todos os cigarros. Batíamos ali todas as cinzas e, de repente, acabava. E não era exatamente uma paz aquilo, não seria esse o nome, caso houvesse um. Era um olho aberto. E houve uma época em que havia um espelho, cravado de olhos secos, finos como uma membrana.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vê-lo ruir de forma tão purulenta não doeu metade do que dói agora a imagem daquele relógio.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-511443099869556300?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/511443099869556300/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=511443099869556300' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/511443099869556300'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/511443099869556300'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2007/09/o-abismo-dos-olhos.html' title='o abismo dos olhos'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-3886631986775846743</id><published>2007-08-22T13:23:00.000-02:00</published><updated>2007-09-06T11:47:19.191-02:00</updated><title type='text'>Pequeno Tratado Sobre a Perplexidade e o Desespero Brando</title><content type='html'>&lt;div style="text-align: right;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;"Nenhuma razão para pena. Esteja ela onde estiver, tem o cabelo incandescente como uma torre, queimando-me de longe, fazendo-me em pedaços apenas por sua asuência."&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Julio Cortázar, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;O Jogo da Amarelinha.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;O telefone tocou e do outro lado aquela voz foi dizendo súbita, torrencial, “o tempo não pára, meu bem, o tempo não parou um só segundo desde a última vez, lembra?”. Aquela voz trêmula, embargada, eu a reconheceria de imediato, mesmo que entre nós houvesse décadas e não apenas os cinco meses entre aquele dia e a última vez em que havíamos nos falado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Eu sempre quis saber de você, sempre quis ter notícias suas, mas a verdade é que não importava, você entende, não importava e eu tinha de ser forte com a vida, você disse, era preciso aceitar o tempo e a morte, pra que a vida pudesse dar o melhor de si, foi você quem disse, e eu me lembro (...)”. Eu ouvia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi num amanhecer de domingo que eu a deixei, sentada numa calçada, seus dentes castigando os lábios que já sangravam e ela toda ruínas disse que eu a deixasse, que não havia nada mesmo a ser feito, que eu tivesse a coragem, uma vez na vida, de ser fiel à bendita força que eu sempre invocava sobre nossas misérias e que abandonasse esse ímpeto de Cristo que, ademais, era só um jeito de resolver minhas culpas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu sabia que era um preço justo, os meus olhos secos, minha mudez, a calma desolada com que virei as costas e parti, a ausência ferina que me abateu nos dias que se seguiram. E paguei. E quando digo “justo” não falo sobre uma suposta correspondência com as culpas todas, mas porque não sabia mais o que era injustiça, porque não me lembrava mais de onde começávamos e onde terminávamos. Ou porque nos lembrávamos, mas apenas vagamente, de um modo que não era possível narrar, faltavam tantas peças no enredo. Enfim, uma coisa, que se fosse pra ser reconstituída em detalhes levaria horas pra contar, mas o fato é que estávamos lá, daquele modo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre todas as incapacidades que, naquele tempo, faziam com que vivêssemos numa espécie de parasitismo mútuo, na mútua e cúmplice perdição que consistia aquele nosso culto de pequenas violências, entre todas, havia a incapacidade de nos condenarmos totalmente por aquilo que éramos, ou que havíamos nos tornado um para o outro. E isso nos doía. Mas era uma incapacidade, que nos parecia incontornável. Porque suspeitávamos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Suspeitávamos que alguma coisa havia de errado, que em algum lugar dessa história toda, a nossa história, talvez num ponto minúsculo, naquele lugar estaria claro, veríamos clara como cristal a razão pela qual, afinal, não somos os únicos reponsáveis pelo que nos tornamos. Essa suspeita, no entanto, nunca conseguimos comprovar um ao outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por isso, sim, pode-se dizer que havíamos cessado de nos consumir naquele mútuo e lento assassinato. Não havíamos nos matado um ao outro e por isso havia alegria naquela voz do outro lado da linha. E havia no meu silêncio, ela sabia. Eu ouvia, enquanto, ela seguia, dizendo o que lhe vinha à mente, sobre o dia, tinha sido um dia daqueles, uma quantidade monstruosa de trabalho no escritório, e achava uma coisa, sinceramente, que havia aprendido o holandês tão rápido por ter ido trabalhar num escritório, e não numa fábrica. Falava sobre o que quer que fosse e sabia que, naquele momento, eu não pensava no que ela dizia, mas em sua voz, no fato de que e dizia coisas, e de estava a milhas. Certamente sabia que eu pensava com calma, que não havia do lado de cá qualquer taquicardia ou algo do tipo. Uma coisa serena, se se quiser. Assim nos comunicávamos. E era lindíssimo, mas também doía. Porque éramos incapazes de nos inocentarmos totalmente pelo havíamos feito de nós. No fundo, tínhamos vergonha, de que aquele fosse o jeito possível de que houvesse, entre nós, alguma alegria.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A certa altura, interrompendo-a no momento em que falava que havia lido um livro dum cara da cidade e que era inacreditavelmente bom, eu perguntei:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Como você está, meu bem?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era sempre nessa parte que a coisa complicava pra ela. Fazia um ar que lembrava aquele de quem quer fazer parecer que não sabe do que se trata, mas era diferente. O seu tom queria dizer era o seguinte: você sabe que eu sei do que se trata e, e também sabe que isso é demais pra mim, assim. E não é que eu não ame cada centímetro disso tudo, você também sabe. Mas não consigo dessa forma. Esse tom de minha voz é o mais hábil, o mais engenhoso modo que encontrei de dizer que, dentro de segundos, vou desligar. Volto a ligar,quando dentro de mim você se mover, como hoje. Quando se mover feito o filho esperado e vivo, dentro da barriga da mãe. Concebido em amor e zelado por treze anjos, que em sua infância, montam guarda em torno de sua cama. Assim, quando você se mexer novamente dentro de mim desse modo, causando a surpresa, a alegria súbita e impiedosa, porque incompreensível, a alegria que trazem os filhos aguardados, enquanto são aguardados, parece patético, eu sei, mas é que isso será o melhor de você em mim, mesmo que, evidentemente, meu juízo seja suspeito, já que o melhor de você, pra mim, é aquilo que você me faz ver., então eu ligo. Eu te amo. Cuide-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas nenhuma dessas palavras chegava a dizer. Apenas ia amolecendo a voz, e era rápido, coisa de segundos. Eram duas ou três frases dispersas e desligava, despedindo-se apressadamente, dando sempre a entender que alguma exigência imediata à sua volta havia forçado-a a desligar. Tentando também deixar claro que isso não era verdade, o que, como ela evidentemente sabia, não me escapava. Nos entendíamos bem, no geral.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É que não conseguíamos nos condenar, tampouco nos perdoar. Já caminhando em direção à estante, naquela indecisão boa de ter que escolher, entre dois ou três, aquele livro que se começará a ler logo após ter acabado um outro; já com a mão direita sobre um e a mão esquerda sobre outro; ambos de pé na estante, e eu ora fitando a lombada de um, ora a de outro – haveria o momento de tirar ambos, foleá-los, ler de cada um o primeiro parágrafo, ainda enquanto apenas os tocava, bem, eu pensava que ela podia estar mesmo fodida na Holanda. Podia estar entupida de cocaína, embora não me parecesse típico do temperamento dela. Gostava mesmo era de encher a cara. Era possível que estivsse infelissíssima na Holanda. E já quando folheava um livro e lia seu primeiro parágrafo, mesmo naquele momento, havia claro em minha cabeça: éramos, um e outro, inconfessáveis. Podia ser também que estivesse bem, nada demais, quem sabe muito bem, cheia da grana ou rodeada por gente terna e honesta ou as duas coisas, embora pouco provável. De qualquer modo, assim como na vida nada havia nos matado ou salvado e nós, tampouco, havíamos feito tanto um pelo outro, assim também éramos inconfessáveis.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-3886631986775846743?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/3886631986775846743/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=3886631986775846743' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/3886631986775846743'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/3886631986775846743'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2007/08/pequeno-tratado-sobre-perplexidade-e-o.html' title='Pequeno Tratado Sobre a Perplexidade e o Desespero Brando'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-7338893933831724705</id><published>2007-08-08T13:14:00.000-02:00</published><updated>2007-08-18T18:15:24.010-02:00</updated><title type='text'>(       )</title><content type='html'>&lt;div style="TEXT-ALIGN: left" align="justify"&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://bp1.blogger.com/_IpA3B5U01mI/RrnlERqRrsI/AAAAAAAAAAM/NmmZl5XFH2A/s1600-h/anjo-thumb.jpg"&gt;&lt;img id="BLOGGER_PHOTO_ID_5096356314969386690" style="FLOAT: right; MARGIN: 0pt 0pt 10px 10px; CURSOR: pointer" alt="" src="http://bp1.blogger.com/_IpA3B5U01mI/RrnlERqRrsI/AAAAAAAAAAM/NmmZl5XFH2A/s320/anjo-thumb.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Não foram necessários mais que os primeiros minutos para sentir: havia algo &lt;?xml:namespace prefix = st1 /&gt;&lt;st1:personname productid="em suspenso. Era" st="on"&gt;em suspenso. Era&lt;/st1:personname&gt; manhã ensolarada e conhecia-o bem, esse algo. Em dias assim achava vagamente elegante crer nos astros: um desenho qualquer que lhe regesse os passos, um consolo estético, pensava. E dispunha ritualisticamente a mesa para o café-da-manhã que tomaria sozinha. Não cria em quase nada, mas conhecia bem dias como esse e sabia que era preciso se calar, tanto quanto possível, era urgente cessar a voz, em toda parte de si abrandar o verbo, ousar o silêncio mesmo sabendo-o escuro. É possível que não voltasse, sem sinais pelo caminho, o silêncio demanda coragem. &lt;/div&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: left" align="justify"&gt;&lt;br /&gt; &lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify" align="left"&gt;&lt;span style="font-size:0;"&gt;&lt;/span&gt;Partiu uma fruta em quatro partes, aspirou-lhe o aroma com reverência. Um rito aquilo? Um culto, talvez. – os objetos de sua vida não mais que despojos de uma guerra antiqüíssima e, talvez daí, a perene sensação de ter nascido devastada. Não, isso não lhe roubava mais a paz. Olhos fechados mordeu a fruta e sorveu um longo gole de leite, puro e gelado. Em breve acenderia um cigarro.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify" align="left"&gt;&lt;span style="font-size:0;"&gt;&lt;/span&gt;Na guerra, pensou, a sede enlouquecia os homens, disse baixinho: a fome enlouquecia os homens.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify" align="left"&gt;&lt;span style="font-size:0;"&gt;&lt;/span&gt;Sabia como proceder. Lenta e branca levantou-se e, ficando a mesa como estava, abriu bem a janela recebendo forte no rosto o bafo do monstro sempre arquejante: a cidade diabo-velho sopra vento e ruído, todos os barulhos do mundo, que importava? O silêncio que cultivava não temia ruídos, antes sobre ele erguia-se, florescia como uma blasfêmia. Porém cristalina - que isso não costumam ser as blasfêmias. Tinha carinho pela cidade, saudava-a cúmplice: ambas tão doentes. Fechou a janela, acendeu o cigarro.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify" align="left"&gt;&lt;span style="font-size:0;"&gt;&lt;/span&gt;Na guerra, pensou, erguiam-se trincheiras, o que devia ser muito sábio, afinal, evidência de uma grande e antiga sabedoria, erguer trincheiras.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify" align="left"&gt;&lt;span style="font-size:0;"&gt;&lt;/span&gt;Foi quando na cozinha entraram três soldados, dois deles carregando o terceiro, e deitaram-no sobre o piso branco, derrubando no caminho a torradeira e três copos sujos de sobre a mesa. Havia vidro e sangue pelo chão quando o mais alto e velho disse, fitando-a ajoelhado sobre o ferido: proteja seus pés há vidro e sangue pelo chão. Então foi até a sala, calçou a sandália e ligou o som.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify" align="left"&gt;Queria a música que contivesse mais silêncios, que existisse como contraponto de si mesma. Queria ouvir, entre as notas e os acordes, as pausas. Era sempre a mesma música, espalhada em todas as outras e, em dias assim, sempre a encontrava e a ouvia repetidas vezes, até não escutar mais nada.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify" align="left"&gt;Nessas horas costumava se dirigir ao fogão, como agora. Preparava um chá que nunca bebia. Gostava apenas do cheiro se espalhando pela casa, preparava-o enchendo os pulmões, depois o deixava por alguns minutos no fogão, até esfriar, e então jogava fora. O chão da cozinha estava agora branco e límpido como sempre. &lt;span style="font-size:0;"&gt;&lt;/span&gt;Sorriu antiga e acendeu outro cigarro: não tardaria a chegar a noite e, com ela, o sono, o silêncio, a claridade.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify" align="left"&gt;&lt;span style="font-size:0;"&gt;&lt;/span&gt;À porta que ligava a cozinha ao corredor apareceu o soldado, o mesmo que zelara por seus pés, e perguntou quanta ajuda ela poderia fornecer. Ao que respondeu: nenhuma. E claro estava que não era tanto uma questão de poder quanto de querer. Passou pelo soldado sem dele fazer caso e dirigiu-se ao quarto – começava a enfadar-se, o que era um desequilíbrio num dia como aquele. Sobre a cama, em silêncio, o ferido arquejava, tomava um punhado de lençol com as mãos trêmulas e depois o soltava, arranhava novamente o colchão, tornava a agarrar o lençol. Ela, sentindo como uma agulha o tédio lhe tocar, respirou fundo e, das costas do outro soldado, o mais moço e assustado, arrancou o que parecia ser um fuzil. Com ar cansado enfiou-lhe boca adentro do ferido o cano e disparou. Sem ruídos. Era uma casa de silêncios, aquela, em dias como esse.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify" align="left"&gt;&lt;span style="font-size:0;"&gt;&lt;/span&gt;Então começaram a dançar, os dois soldado. Ela, achando-os ligeiramente engraçados, desajeitados, depositou a arma sobre o que morrera e retornou à cozinha. Sentada à mesa, anuviada, lembrou que de uma outra vez houve um anjo. Lembrou com ternura de como o tinha posto sentado numa antiga cadeira elétrica, aprumando-o bem, sem jamais deixar de olhá-lo nos olhos. Havia muita cumplicidade entre ambos quando ela, abrindo a portinhola de metal na parede ao lado da geladeira, pensou contente que mataria um anjo – e que aquilo era cafonérrimo. Puxou a alavanca do meio – a da esquerda desligava a energia do chuveiro, a da direita deixava o apartamento às escuras –, &lt;span style="font-size:0;"&gt;&lt;/span&gt;enquanto pensava: eu vou matar um anjo. A luz da cozinha, se tornava fraca até quase apagar-se, por causa da descarga elétrica, toda vez que descia a alavanca. E ela retribuía com o olhar encantado. O anjo se contorcendo.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify" align="left"&gt;Preferia-o aos soldados, mas nunca era possível escolher. Emtão tirou a sandália e, voltando à sala, pensou: talvez seja uma questão de música, talvez seja preciso uma música ainda mais leve para quando a noite chegar.&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify" align="left"&gt;&lt;span style="font-size:0;"&gt;&lt;/span&gt;O dia seguia em silêncio.&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify" align="left"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify" align="left"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify" align="left"&gt;&lt;span style="FONT-STYLE: italic"&gt;Esse texto é duplamente devedor de bandas que ouço sempre: o título é o mesmo de um disco do Sigur Rós e não consegui pensar em nada que ilustrasse tão bem a narrativa. É também uma pequena homenagem, já que devo uma parte de mim a essa banda. A imagem do anjo eletrocutado, por sua vez, foi inspirada numa frase de uma música do Silver Mt. Zion que diz : "they put angels in the eletric chair, straight up angels in the eletric chair". Sempre quis cunhar um "retrato verbal" dessa imagem, e cá está.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="font-size:0;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-7338893933831724705?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/7338893933831724705/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=7338893933831724705' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/7338893933831724705'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/7338893933831724705'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2007/08/blog-post.html' title='(       )'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><media:thumbnail xmlns:media='http://search.yahoo.com/mrss/' url='http://bp1.blogger.com/_IpA3B5U01mI/RrnlERqRrsI/AAAAAAAAAAM/NmmZl5XFH2A/s72-c/anjo-thumb.jpg' height='72' width='72'/><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-8132459639664807881</id><published>2007-08-03T10:13:00.000-02:00</published><updated>2007-08-18T17:40:50.642-02:00</updated><title type='text'>O Jardim*</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;“Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite e aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria. Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. (...) E quase paro de sentir fome”&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Caio Fernando Abreu, &lt;em&gt;Pequenas Epifanias&lt;/em&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em meu apartamento quase não há móveis. É que minhas economias são rigorosamente gastas em livros, comida, bebidas e cigarros. Com saúde apenas vez ou outra, que milagrosamente as coisas não vão de todo mal com esse meu corpinho sedentário e envenenado de nicotina. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Estive pensando: muita vida passou por aqui nesses quase dois anos. Há espalhadas nas cinco prateleiras de minha estante quatro gerações de amores, abrangendo os últimos oito anos de minha vida. Assim também meu ap está infestado de marcas e vultos. Não apenas das namoradas e não apenas lembranças tristes, mas muita coisa amada deixou por aqui suas marcas. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Não que tenham sido fáceis, os meus dias aqui. Foram por demais intensos, tingidos com gravidade, como quase tudo em mim – os olhos, o problema são os olhos! Foram, por vezes, mesquinhos até à exaustão. Mas, não raro, surpreendentemente nobres, generosos, deliciosamente fraternos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Em breve, por razões diversas, talvez eu precise de alguém para dividir isso aqui – há alguém que neste momento está em algum lugar sobre a América, voando pra Seattle, e que deveria estar aqui. Mas, por ora, apenas me ocorre que, daqui não muito tempo, talvez menos do que os dias que já passei aqui, eu devo partir. Não sei exatamente pra onde, e pode ser mesmo que eu esteja enganado, mas creio que não: eu devo ir embora.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E tem estado cada vez mais claro pra mim que, em grande medida, é disso que se trata a vida: de ir embora. Há também as nossas indispensáveis apostas de permanência, em lugares, em pessoas, em partes de nós mesmos – porque também é preciso saber ir embora de si –, apostas sem as quais não viveríamos. Mas algo tem estado cada vez mais claro em mim, e isso aprendi com Nietzsche, com Walter Benjamin; com Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector; com o tempo, antes de mais nada: é preciso saber partir, assim como é necessário aceitar “a continuidade da vida e das pessoas” (o bravo Caio). Dá vergonha dizer – não me confundam com o oceano de merda que é toda essa literatura de auto-ajuda – mas é nesses termos que tenho pensado: é preciso saber morrer um pouco a cada dia e entender que isso é viver. E que pode ser algo belíssimo ou não, mas irremediável sempre. A vida não faz acordos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Andei relendo Nietzsche. Muito me espanta que com ele tanta gente aprenda a ser estúpida e vaidosa. Em sua obra vejo, entre outras coisas que reprovo (sua teoria política, principalmente), muita generosidade e lealdade para com a vida. Trata-se de não mais ver o tempo e a morte como inimigos, mas sim chamá-los para si, aceita-los na carne e no espírito, o que não é fácil. Com Nietzsche, parece-me, aprendemos mais que qualquer coisa a ser fortes, com uma força perigosa, precária, improvável, que talvez guarde alguma semelhança com aquela “frágil força messiânica” sobre a qual falava Walter Benjamin. Tanto em Benjamin quanto em Nietzsche há uma espécie de religiosidade sem Deus. Trata-se de um vitalismo e tem a ver com aquilo que alguns chamaram de &lt;em&gt;Teologia Negativa&lt;/em&gt;.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Eu mesmo, que tampouco creio no Altíssimo (não me é dado ver nada além desse mundo e dessa vida), estou cada vez mais convicto: o cerne da vida é um fogo cultual e todas as questões vitais são, em última instância, questões religiosas. Apenas é preciso ter em mente o ligeiro imprevisto de que, até prova em contrário – prova essa que não chegará jamais, sabemos bem – estamos sós. O céu está vazio, ou melhor: nossos olhos jamais enxergam os céus. Somos auto-deserdados e sobre isso, como sempre teve claro o piedoso Wittgenstein, não é bom se estender: “O místico existe e é inexprimível”, ou ainda seu clássico aforismo, já no fim do Tractatus Lógico-Philosophicus: “Sobre aquilo que não se pode falar, deve-se calar”.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Enfim, deveria haver em meu apartamento agora um daqueles ventos que seguem brandos as coisas que se vão. Porque uma ausência há, firme e delicada – além de tantas outras. Vento não há. É que toda poesia disponível na matéria de minha casa é dura, é áspera, tem os olhos arregalados como os de um animal em fuga, e eu aceito: uma terra assim é que a beleza revolve com destroçadas mãos de santa.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E não suponham aqui mais bravura do que realmente há: é claro que tenho medo, todo o tempo. Mas com isso aprende-se a conviver, afinal, qual a alternativa? Nem mesmo os olhos de Deus sobre mim, nem mesmo aquele sol incessante, aquele calor incendiário, nem mesmo Ele me curaria do pavor. Em seu íntimo, parece-me, foram sempre apavorados os espíritos mais piedosos. Mesmo os profetas, ou principalmente eles. Pois a terra não é lugar de redenções. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Assim é que agora, sentindo claramente a ausência de quem aprendi a chamar de Flor, fito quieto em minha imaginação os instrumentos de jardinagem. E lembro-me, mais uma vez, de Nietzsche: “E não esqueçam o jardim, o jardim com grades douradas! E tenham pessoas à sua volta, que sejam como um jardim – ou como música sobre as águas, à hora do entardecer, quando o dia já se torna lembrança: – escolham a boa solidão, a solidão livre, animosa e leve, que também lhes dá direito de continuar bons em algum sentido!” Deveria eu fazer alguma coisa? Ainda não sei, creio que não. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;É que nunca fui muito bom com jardins, tampouco com solidões, embora ache ambos belíssimos. Acabo deixando intocados na imaginação os instrumentos de jardinagem: um pequeno rastelo, uma pazinha qualquer com cabo verde fluorescente – comprada em algum shoping, no mesmo dia que um livro da Hilda Hilst – e o simpático regador azul no qual há, adesivada, uma frase outrora concebida em amor (como se diz dos recém-nascidos): “Até o céu, sempre!”. E essa frase ecoa, como um bramido do mar, como o murmúrio de alguma fera infinitamente sagrada e adorada, milenar: “Até o céu, sempre! Até o céu, sempre!”.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Sorrio um sorriso singelo, pequeno – sorriso “rs” como ela o apelidou – e reconheço satisfeito em meio à tristeza branda: não há amargura. Apenas saudade e gratidão infinita. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E a certeza de que devo fazer um adesivo com aquela frase que um dia, vinda sabe-se lá de ontem, caiu em minha cabeça feito pedra e nunca mais se foi. Quero-a gravada em minha lápide, assim: &lt;strong&gt;Ternura é força. &lt;/strong&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Por ora vou colocá-la na guitarra.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até o céu, claro.&lt;br /&gt;Para todo o sempre.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;* Este texto é dedicado a uma pá de gente querida que, de um modo ou de outro, constitui uma boa parte daquilo que sou.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Aos de casa: minha avó, que se foi, e minha mãe, que é imensa. Também ao Batista, que sempre facilitou as coisas. Obrigado.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;À Luciana, Paulo André, Josias, Luiz Felipe, Balta e Polyana, meus amores. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ao Marcelo e à Maressa (o melhor de mim). Com eles tenho um pacto: como queria Clarice Lispector, nos prometemos não morrer jamais. São pessoas que sabem dizer amém. Ninguém duvide que conseguiremos.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Aos seres actêmicos (particularmente ao Reginaldo), com quem me fiz música.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ao Onésimo, pela honestidade de nunca ter sabido o que fazer comigo. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;À Suene, que sempre foi, em mim, um silêncio. Hoje compreendo: era um eco, nem por isso menos convincente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;À Pespia, que se foi (sem ressentimentos, fico feliz por ti), e à Ká, que tá vindo qualquer hora dessas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Ao Sérgio, mestre excêntrico que me ensinou coisas que apenas tempos depois fui entender. (E não falo de teoria). A ele todo meu respeito e admiração.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;E, por último, mas principalmente, à Lyanna (Frô), que nunca acreditou poder chamar-se felicidade esse lento e vigoroso desvanecer.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Queria ser capaz de inventar para ela o Deus em quem não creio (embora anseie em diligente recusa) e cuja falta nos queima. Somente para que fossem incessantemente guardados os seus passos que, por ora, não sei aonde vão. Para que, ao fim, fosse ela toda luz. Mas devo desculpar-me, isso não sei fazer. Não há quem saiba. O que sei é desejar, com todas as minhas forças, com toda a fúria do meu amor, que ela seja clara e leve, viva como a falta que faz. Bem-vinda será sempre.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;São esses, em sua maioria, aqueles que melhor conhecem os ares e as sombras de mim ou de minha casa. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Quando, no futuro, me lembrar desse apartamento e desses dias, seus rostos me serão claros. Assim como quando chegar a dor que cessa palavras e se fizer noite e não houver para onde ir. De um modo ou de outro, me serão sempre claros.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;br /&gt;A eles força, graça e amor. E uma morte serena. &lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-8132459639664807881?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/8132459639664807881/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=8132459639664807881' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/8132459639664807881'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/8132459639664807881'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2007/08/o-jardim.html' title='O Jardim*'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-1199630895695751036</id><published>2007-07-31T17:20:00.000-02:00</published><updated>2007-07-31T23:51:24.880-02:00</updated><title type='text'>O Silêncio Monstruoso</title><content type='html'>&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;Para a Flor,&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;com todo amor:&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;"Até o céu, sempre."&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="left"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;"E tal entrega é o único ultrapassamento que não me exclui. Eu estava agora tão maior que já não me via mais. Tão grande como uma paisagem ao longe. Eu era ao longe."&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;Clarice Lispector, "&lt;em&gt;A Paixão segundo G.H."&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="right"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;p align="justify"&gt;&lt;br /&gt;Não que seja hora de muitas palavras: o centro disso tudo é um silêncio monstruoso, o coração de um Deus cuja existência não nos é dada - embora nos possa ser tomada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em seu &lt;em&gt;Ficções &lt;/em&gt;há um conto de Borges chamado "As Ruínas Circulares". Nele há alguém que pretende sonhar um homem: "&lt;em&gt;Quería&lt;/em&gt; &lt;em&gt;soñar un hombre: quería soñarlo con integridad minuciosa e imponerlo a la realidad.&lt;/em&gt;" &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Talvez seja possível, nesses termos, sonhar a Deus. Parece-me um dom de poucos. Certamente não o meu. E não é que eu lamente, não chega a tanto. Acontece que a imersão no sagrado tem um alto preço, que eu não saberia como pagar. Vislumbrar o que há por trás da dimensão meramente comunicativa da linguagem, ousar, ainda que por um instante, pousar os olhos sobre a profundidade inesgotável do nome próprio, já é uma claridade que cega.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Também a religiosidade profana que agora me queima tem um alto preço: uma porção irrevogável de silêncio e solidão que tem, como sua outra face de Janos, a nossa ambígua relação com a linguagem: passaremos a vida a dizer coisas e, ao final, claro, teremos alcançado no máximo o sucesso de uma débil metáfora, cunhada com o melhor de nosso espírito, com o mais escuro e abundante sangue. Não nos é dado esbanjar vitórias. Por outro lado, se tivermos sorte ou sabedoria o bastante, forjaremos uma liturgia qualquer feita de concreto e sêmem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O preço, eu me referia ao preço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que sei é que minha vida tem os joelhos dobrados, o rosto em terra, como os antigos profetas diante do Altíssimo. Eu, que não posso crer em Deus porque tenho fé na palavra - talvez não tanto por escolha, mas porque tudo em mim conspira para isso - e que vejo na prece um total absurdo - diante do Absoluto, é óbvio, só caberia um total silêncio -, sinto-me cada vez mais reverente diante da vida. E, em certo sentido, cada vez mais desapegado dela.&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Não é de plenitude que se trata, pelo contrário: é a assunção radical da precariedade que, paradoxalmente, faz insinuar-se uma calma oceânica: no inferno, um silêncio monstruoso. Trata-se daquilo que Walter Benjamin, na improvável - e trágica - união de romantismo alemão, cabala, surrealismo e marxismo, chamou de "o Ser indefinível da verdade". &lt;/p&gt;&lt;p align="justify"&gt;Na nossa literatura parece ter sido Clarice Lispector quem melhor entendeu isso. Talvez por essa razão um de seus melhores livros termine de forma tão solene: "E então adoro". &lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-1199630895695751036?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/1199630895695751036/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=1199630895695751036' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/1199630895695751036'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/1199630895695751036'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2007/07/o-silncio-monstruoso.html' title='O Silêncio Monstruoso'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-4870361567045126849</id><published>2007-06-30T17:37:00.000-02:00</published><updated>2007-07-12T21:20:40.101-02:00</updated><title type='text'>Pra voltar: sobre Caio Fernando Abreu.</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Eu devia estar fazendo a faxina do meu ap. Minha mãe chega amanhã - Deus do céu, que saudade! - e eu deveria dar o melhor de mim hoje pra, amanhã cedinho, quando abrir a porta, ouvir enternecido sua queixa mais tradicional: "esse apartamento está um lixo". Sempre que minha mãe avisa "vou tal dia" eu limpo o ap pra deixa-lo no ponto ideal a partir do qual... ela começará a faxina dela! Acho fantástico.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;No entanto, estou aqui, numa lan house, com um copão de coca-cola e um livro do Caio Fernando Abreu à minha frente. É que ontem, depois de horas sem conseguir largar o livro, noite adentro, senti com clareza cristalina aquilo que já vinha resmungando para alguns amigos: tô tão cansado de não escrever...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;A data do meu último post indica que há três meses não publico nada aqui, porque meu pc esturricou e, como sempre, eu torrei toda minha grana com comida, livros e cerveja. Uma beleza. O fato é que não pude esperar até a semana que vem, quando minha geringonça voltará do concerto e cá estou, no ambiente menos literário possível, menos propício ao essa tentativa de se desafogar - "desabrochar", dizia Clarice - que a escrita sempre representa para aqueles que dela dependem. Difícil é imaginar ambiente menos rico em &lt;em&gt;potencialidades liíricas - &lt;/em&gt;o sujeito ao meu lado está no bate-papo do uol com o nick "homem sedutor 34", bisbilhotei sem querer antes de me sentar. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Mas isso aprende-se com Walter Benjamin, e com o Caio: do extremo, arrancar o seu oposto. E ontem deixei de lado algumas coisas bastante interessantes e urgentes sobre Romantismo, estética, Filosofia da História, etc, para passar a noite colhendo os cacos com que Caio Fernando Abreu se faz e se desfaz, chegando sempre a um mosaico lindo, lindo de doer, que mal você o fitou por um instante, já se desmanchou de novo. Depois disso, evidentemente, o que era um acúmulo de dias, transbordou. E cá estou eu.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;É que há no Caio uma coisa que me pega pelo pescoço. Aliás, há várias, mas não conheço autor brasileiro que tenha posto tão a nu o desconforto amorfo, tipicamente moderno, de quem, em meio a um mundo que vive sob a ditadura do " sempre novo" e tem a auto-destruição como seu modo característico de auto-contrução, sente na pele o caráter fugidio de toda experiência, a precariedade intrínsceca a tudo em quê se pode por os olhos. Caio exacerba essa dialética no interior da qual o homem se deslumbra, se encanta com o movimento, a plasticidade, o ludismo da vida moderna, mas também sente na carne se implacável poder de desagregação. E há, principalmebte, a lucidez triste e cortante de quem já descobriu o óbvio, que se pode constatar em toda a produção cultural do século XIX e XX, culminando no tipo de autocrítica do Ocidente que costumou-se chamar de "pós-moderna": essa coisa, essa que buscamos sem cessar em meio ao trubilhão, sem nunca alcançá-la, essa coisa não tem mesmo nome, embora sobre ela debrucem sempre essa ou aquela palavra - Deus, felicidade, plenitude - como uma toalha sobre um objeto que, embaixo dela, mantem sua forma original, sempre ali.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E o que há de moderno não é propriamente essa fissura, essa fome - basta lembrar do entediado autor do Livro de Eclesiastes, o Rei Salomão, dizem, que no mais profundo cansaço dizia que felizes eram os que não haviam nascido. O que há de essencialmente moderno é a resignação com que se assume, até as últimas consequências, que a melhor forma de entender essa fome não é pensando-a em termos de "uma fome de", mas simplesmente como Fome, nome próprio, que aponta sempre pra si mesmo e se resolve em si mesmo.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;É que nós não temos saída, clichê por clichê, fiquemos com esse: ninguém nos curará de nós - e tem aquela grana que você tem gastado com seu psicanalista...&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Por hora o que me ecoa na cabeça é aquele trecho no qual diz o Caio: "A única coisa que posso fazer é escrever - essa é a certeza que te envio, se conseguir passar essa carta para além dos muros. Escuta bem, vou repetir no teu ouvido, muitas vezes: a única coisa que posso fazer é escrever, a única coisa que posso fazer é escrever".&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Caio parecia ter uma constante preocupação de que sua obra não soasse afetada, o que ele sabia ser um risco real. Mas disso soube cuidar bem, e o que se vê é um tratamento delicado, elegante, muitas vezes desesperado, porém não ressentido. Terno ao extremo, porém não piegas. Ou melhor: sofisticado e lúcido, até quando piegas.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Sua literatura tem um acento &lt;em&gt;pop&lt;/em&gt;, mas nada a ver com a pseudo transgressão de gente como Nick Hornby e toda essa laia pueril que pretende ser ultra-pós-tudo não passando, porém, de uma chatice estéril e superficial: literatura de brinquedo. Caio não. Caio é sério, até as últimas consequências. Purpurinado, escandaloso - "não sei ser se não pessoal, impudico" - de um humor envenenado, ora vociferando contra a vida, ferido, cançado; ora reverente, agradecido com uma gratidão religiosa, embora despida da presença de Deus. Acima de tudo grave, grave, grave.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E a maior gravidade de sua obra, em minha opinião, está na disciplina com que ele molda o próprio olhar, aquele olhar saturnino, melancólico, sempre frustrado e encantado ao mesmo tempo. Sua auto-disciplina no olhar parece coisa de quem tem em mente o versículo no qual Jesus diz que "se forem bons os teus olhos, todo teu corpo será luminoso". Porque se prestarmos atenção lá no fundo veremos a cidade inteira, sua sujeira, suas sub-culturas mutuamente hostis, as tensões do sub-mundo gay e a hipersensibilidade de um romântico extemporãneo. Mas veremos também cores para além do cinza urbano - por exemplo, o amarelo imperioso dos &lt;em&gt;ajoncs,&lt;/em&gt; flores que ladeavam a estrada numa de suas viagens pela França, encantando-o - e, principalmente, a disciplina com que ele forjava uma aquarela capenga feito um quarto de hotel fodido.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;De tudo, talvez o que mais me impressione seja isso: a disciplina na busca da ternura - "não se tornar uma Naja" -, a graça com que se entregou à vida sabendo que isso era uma morte, mas que o resto não valia a pena ou, pra ser mais honesto, que não saberia fazer diferente.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Enfim, haveria muito mais a dizer, principalmente se levarmos em conta que tenho visto Caio Fernando Abreu um pouco à luz de Walter Benjamin, com quem tenho andado bastante ocupado. Disso deve sair um artigo ou coisa que o valha, e eu coloco aqui.&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Por hora o que eu queria era deixar vazar, de qualquer jeito, a saudade de escrever, essa administração precária de si, que é um caminho no escuro, que é um jeito de digerir o mundo e que se dá na correria da cidade, entre cigarros, comida gordurosa e mil tarefas e pepinos sempre por se resolver - nada demais, nada de muito grandiloquente, mas que faz uma falta dos diabos. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Entre a doçura e a violência que há nisso tudo mal cabe a ponta de um dedo que, diga-se, tem exatamente a dimensão de uma tecla. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt; &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Disso Caio Fernando Abreu sabia como ninguém, e eu lhe sou grato.&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-4870361567045126849?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/4870361567045126849/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=4870361567045126849' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/4870361567045126849'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/4870361567045126849'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2007/06/pra-voltar-sobre-caio-fernando-abreu.html' title='Pra voltar: sobre Caio Fernando Abreu.'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-5745388821671841506</id><published>2007-03-29T11:22:00.000-02:00</published><updated>2007-07-10T13:45:21.185-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="FONT-WEIGHT: bold; LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: left"&gt;&lt;span style="FONT-WEIGHT: normal; FONT-STYLE: italic"&gt;Meses atrás publiquei separadamente os quatros fragmentos que compõem esse conto. Recentemente voltei a trabalhar neles e cá estão em sua forma final (?). Trata-se de um naufrágio. Não há mar, barcos ou navios. Somente pessoas. E deve bastar.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="FONT-WEIGHT: bold; LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: center"&gt;&lt;br /&gt;O Juízo&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%"&gt;&lt;b&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;I.&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;?xml:namespace prefix = o /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Não era raro: entrava no apartamento, batia a porta atrás de si e, sem acender as luzes, ia até o antiquísimo guarda-roupas preto. Na última gaveta achava-se o vestido bege que a mãe costumava vestir para ficar em casa. Era coberto de minúsculas rosas vermelhas. Fitava-o por alguns instantes e então, trazendo-o junto ao peito, deitava-se por horas e horas, desperta, olhos arregalados como os de um animal em fuga.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;span style="font-size:0;"&gt;&lt;/span&gt;Um dia estancou à entrada do quarto, tinha onze anos e viu a mãe nua, de costas, o rosto entre as mãos. Estava sentada na cama, trêmula por causa do choro compulsivo. Ficou quieta. Tinha os olhos cravados naquela cena e assim permaneceu até que aquela agonia se convertesse em silêncio e a mãe, como quem junta todas as forças de que dispõe, se levantasse como uma enferma e a encontrasse ali, apoiada na maçaneta, com um par de olhos que nada perguntavam, nada temiam, apenas mediam, avaliavam, como quem se pergunta até onde se pode chegar com uma dor que não se vai nunca. Era já impiedosa, ainda criança. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Não que desejasse fazê-la sofrer, mas, naqueles momentos, não lhe poupava do peso obsceno e da violência singular de que são capazes um olhar de criança. Acompanhava todos os dias aquele inferno e sabia que a mãe ouvia de seu silêncio uma pergunta perene, uma só, simples e clara: “Até quando? Até quando vai aguentar, Mãe?” E devia mesmo ter um quê de crueldade naquilo, a pequena com aqueles olhos diáfanos, nos quais não se via vestígio de solidariedade e, para ser exato, nem mesmo de acusação. Era naquela indiferença que a mãe via o juízo impiedoso de um criança nova demais pra entender do que se tratava, mas já lúcida o bastante para perceber que era um naufrágio aquilo. Estava afundando, isso não era difícil perceber do alto de sua autoridade infantil – milhares daqueles choros contemplados. Estava afundando, a mãe, e a infante assistia àquela derrota de camarote. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify"&gt;Às vezes acontecia de a mãe trancar a porta, quando queria chorar quieta e livre do juízo da filha. Mas tão somente se recompunha e abria a porta, econtrava-a de pé bem ali, sem uma palavra. Ela que não era mais tímida que o normal, que não temia estranhos nem era dada a grandes silêncios mas que, ali, diante da mãe, apenas olhava, e deixava bem claro que sabia: estava afundando feito um barco velho. E isso, isso não era papel de uma mãe, nisso viria a crer. Não é coisa de mãe, perder-se quando a cria, ainda infante, carece da orientação que não pode criar para si. Que não fosse por mal, mas a alguém essa culpa deveria cobrir. Que repousasse sobre ela então, o juízo e o estigma: DESERTORA. Traria junto ao corpo essa marca, como gado queimado em brasa, e para sempre sua memória seria julgada, para sempre sentenciada, a fraca, a egoísta, a infame, a desertora, para sempre derrotada, sob os olhos de todos humilhada e desistida de si. Disso a infante não esqueceria – e por isso, no fundo, não se perdoaria: assistira a decadência e o fim da mãe, que sucumbiu com um par de olhos que trazia sempre aquele pedido miserável, aquela rastejante suplica por perdão.&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;b&gt;II.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify"&gt;Era uma enferma, tal qual a mãe o fora. E sabia disso. Se insistia acrescentando nós à corrente de sua história – que sentia como parte de uma teia outrora despedaçada –&lt;span style="font-size:0;"&gt; &lt;/span&gt;era tão somente pela recusa de deixar-se afogar no oceano de vergonha que o nome de sua mãe lhe sugeria. A mãe que, ao fim, rastejava como um animal ferido, como se tivesse sido adestrada para ser outra coisa que não uma&lt;span style="font-size:0;"&gt; &lt;/span&gt;mulher, em outro lugar que não o mundo – como que educada para a morte, com o sádico rigor de mãos onipotentes, sabotada por um destino com o nome de Deus. &lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify"&gt;Esses pensamentos trazia envergada sob a égide de sua religiosidade confusa: o Deus a quem ofertava preces de auto-humilhação devia ser um porco, um infame, mil vezes imundo. Mas uma imundice onipotente. A certa altura, no entanto, suas palavras perdiam a força e seus insultos se tranformavam em súplicas de perdão e de esclarecimento: por quê deixara sucumbir daquele modo um mulher que só queria viver? Sem muito mais, no fundo era só disso que se tratava, de não enlouquecer, instante após instante era isso que carregava em suas preces. Que humor doentio achou que valesse a pena criar um mundo de criaturas perdidas a se devorar umas as outras com a sacrossanta missão de manter-se capazes de louvar o nome do Deus altíssimo enquanto a derrota lhes escorria pelas pernas, ensopandom meias, sapatos, umidecendo colchões e desmanchando sorrisos antes que estes se mostrassem por inteiro? &lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify"&gt;Mas eram preces curtas essas. Logo se mostravam um excesso. Logo sua linguagem se mostrava tola e cheia de afetações denunciadoras de sua fraqueza de espírito. Terminava por concluir que até diante de Deus era preciso ter certo estilo, certa elegância no sofrer.&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="font-size:0;"&gt;&lt;/span&gt;Acima de tudo, em confronto com os seus limites, queria saber se aqueles olhos, os últimos olhos de sua mãe, se eram uma profecia ou uma exortação. Perguntava-se a que distância estava daquela imagem patética e agonizante, do supremo fracasso que fora aquela que lhe trouxera ao mundo. Não haveria de ter sido apenas para a perpetuação do horror. Queria ter a certeza de que seria ela a por fim àquele mal; sentia como um imperativo inegociável a missão de frear a marcha altiva e furiosa daquela morte, talvez guardada no sangue da família, gravada nos genes dos derrotados que achavam-se galhos acima em sua árvore genealógica. Da mãe ouvira que a avó era uma morta-viva, chorando pelos cantos a viuvez e a perda do primogênito, morto de febre antes mesmo de falar.&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span style="font-size:0;"&gt;&lt;/span&gt;Que a visão de um mundo de concreto a lhe envolver, com luzes inebriantes e promessas infinitas de gozo, guerra e ternura, com olhos infinitos e infinitas mãos, que se insinuam e se recolhem, que um mundo assim, no qual um olhar apressado vê o rosto moribundo de tudo aquilo que se pretendia &lt;i&gt;história&lt;/i&gt;, que justamente esse cenário pulsantemente febril seja o &lt;i&gt;habitat&lt;/i&gt; de um espírito atormentado por fantasmas familiares, sempre a temer do espelho que este seja um portal para o inferno, soa como um anacronismo. Mas um ouvido atento que, colado ao asfalto da rua onde ela escreveu os primeiros passos, espere por estáticas indecifráveis em meio ao silêncio noturno, será recompensado para além de qualquer expectativa. Porque ali, e em cada centímetro da cidade arquejante, há um emaranhado de vozes murmurantes que, se dissecadas com minúncia, hão de revelar o espírito assustado com que essa festa de concreto teme, até a medula, os espíritos mal esconjurados que assombraram seus antepassados. O mal do trabalho incessante do relógio, no entanto, é que seu ruído regular traz não apenas esses antigos pavores, nem sempre perceptíveis a olhar apressadol: há também o rosto de nossos pais, que de olhos arregalados pedem-nos sabe-se lá que providência, que justiça, que consolo afinal. E aquele que for fraco o bastante para enxergar tanto, deve necessariamente enterrar juntos todos os fantasmas – os de ontem e os de hoje – sob pena de fazer-se em tantos pedaços que nem o Todo-Poderoso poderia contar em sua eternidade misericordiosa. &lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify"&gt;Tudo isso pensava enquanto buscava livrar-se do peso daqueles olhos, os últimos olhos de sua mãe, que a fitavam dia e noite. Que a redenção viesse trajada de preto, que fosse uma cegueira, mas que a livrasse daquele olhar de louca moribunda com o qual sua mãe havia lhe cravado. Que a fizesse para sempre orfã e bastarda, mas aninhada na doce ignorância de sua história. Um milagre! Que Deus honrasse uma vez na vida seu supremo lugar no cosmos e estendesse sua mão salvadora e tocasse seus olhaos e a tornase cega! Tu, oh Deus altíssimo, dai cegueira aos que vêem, dai-nos a paz de suportar tua ausência infinita sem que tenhamos que contemplar o horror! Cega-nos, Deus, cega-nos! E dizia amém repetidas vezes, numa voz sussurante, os olhos arregalados, o vestido florido apertado contra o peito.&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;b&gt;III.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify"&gt;Nada a ver com destreza, isso descobrira. Nada a ver com a habilidade em manusear os pedaços de mundo que lhe caiam nas mãos. O que faltava era gênio, uma forma fabulosa de conectar dois ou três pedaços da vida de um jeito tal que alguém diria: “como diabos essa menina fez isso”? Queria compensar todo o desarranjo com a criação de uma beleza irrevogável, resistente à tudo, e que a tudo infectasse, uma beleza que fosse violência e vingança, o último lastro de dignidade para quem foi feita em pedaços.&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Porque isso eu já sei: estou feita aos pedaços e apenas meus olhos permanecem inteiros. Com eles vejo os cacos de todos e encontro minha paz. A paz modesta de quem aquietou um monsto dentro de si. Aquelas canções que minha mãe ofertava-me no seu culto de mãe, enquanto me olhando nos olhos esquecia que o mundo era mundo, aquelas canções que se grudaram dentro de mim como uma profecia indecifrável – profecia de quê Deus meu? –, elas me salvaram quando eu, o fôlego ausente, pus-me a cantar como quem se despede. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;E eis que se cumpria a profecia &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;e tudo se revelava certo entre o caos &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;aquele monsto lentamente se aninhando&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;dentro de mim &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;sentindo nas patas o chão da minha &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;alma &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;adormecendo enfim exausto. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Depois de tudo, só restavam os meus olhos, que lentamente se fechavam sob a voz onipotente de minha mãe. Os meus olhos ainda inteiros, novamente sobreviventes, e aquela voz que me abençoava o sono e me garantia, mesmo sem poder, que não havia nada no mundo maior que aquele amor. Ela acabava por me salvar, mesmo eu sabendo que tanto amor era ela a se salvar também.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Mas esse sentimento que me cerca é a culpa por não ter sido fiel à vida até as últimas consequências? Pois quem foi que me incutiu na alma essa culpa por buscar a calma de que preciso? E quem me convenceu de que isso era ser infiel? Essa vaidade é o monstro que ei de embalar com as velhas canções de minha mãe quando, recém-desperta do sono que se avizinha, me achar novamente inquieta e convicta de que é uma questão de gênio: sobreviver a mim mesma e extrair do ventre profundo da vida a seiva e o ouro que tornam possível o humano. Isso serei eu desperta: os olhos abertos e aquelas canções a me correr pelo corpo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Porque eu, que me protejo do infinito cultivando esse coração laico, ouço vir de algum lugar de mim uma palavra que, surpreendentemente, se mostra insubstituível, e a verto em santidade:&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;amém.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;b&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;IV.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/b&gt;&lt;/p&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="LINE-HEIGHT: 150%; TEXT-ALIGN: justify"&gt;Se me contassem, não acreditaria, tamanha a obviedade. Porque para além da angústia, da estupidez, da pobreza dessa cena, há, antes de tudo e em cada detalhe, uma obviedade desconcertante. Cada fôlego é um clichê e é com profunda vergonha que me percebo imersa nesses pensamentos. E talvez seja esse o único elemento sempre novo, sempre renovado e inédito: a vergonha que dissimulo em mil outras formas. Porque para cada constrangimento que me acomete sem que as pessoas a minha volta possam notar, tenho uma expressão correspondente, um sorriso, um gesto, um franzir de testa. Tudo absolutamente falso e de uma eficácia à toda prova. E se outrora esse dom me pareceu um desvio de caráter hoje me orgulho dele, alegrando-me no fato de que aprendi a esconder-me um pouco do mundo, na medida certa – aprendi o tempo, o tempo certo do meu recolher. Não costuma falhar e quando falha corro em meu próprio socorro, deslizo os dedos sobre meu semblante inacreditavelmente jovem – foi um piscar de olhos o tempo, foi uma dança rápida, e ninguém poderá nos culpar por não nos termos atentado às exortações daquela gente cheia de cicatrizes – deslizo os dedos por meu próprio rosto e me perdôo. E quando o perdão não vem, quando não consigo fabricá-lo em mim, aquieto-me e espero o tempo passar. Assim deitada, vendo-o ir – o tempo feito um pilão que ela erguia vigorosa todo fim-de-tarde – lembro-me dela, Senhora, segura em seus ditados, força erigida com a montanha dos anos, sabedoria, sabedoria, sabedoria, mesmo quando equivocada, por causa da beleza daquelas rugas e daqueles olhos pequenos e casados, estaria sempre certa, mesmo contra todo o mundo, e me dizia pra não me deixar levar assim, pra não deixar o coração em paz quando começasse a bater devagar. Dizia “é preciso anima-lo meu bem, é preciso ensiná-lo a não dormir, porque, não se engane meu bem, um coração que dorme não acorda jamais”. E quando é que eu vou entender como ela pôde acreditar que seu coração permaneceu sempre desperto? O que sabia ela sobre o sono? Monumentos não dormem. No fundo eu sabia, era sobre minha mãe que falava. Aquele coração que adormecera exausto. E apenas porque não há agora desespero nem nada, porque me deito para ver o tempo passar e prometo-me levantar – apenas me deixem reposuar sim?, por Deus, um minuto –, porque não há agora nada que me mova, sonharei com calma um ritmo adequado para os meus pés, ritmo que não desfaça o coração sonolento, que não desmantele os mecanismos de proteção que inventei para minhas noites, um ritmo que não me faça esquecer as mentiras que inventei para proteger-me da solidão e da vergonha. Assim, sobre mim pesa apenas o pecado de caricaturizar o indizível, essa blasfêmia logocêntrica. Mas não há quem me condene. Estão todos zonzos demais e eu posso sorrir em paz vendo essa dor que se vai como veio: do nada. Tudo de uma obviedade constrangedora.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-5745388821671841506?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/5745388821671841506/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=5745388821671841506' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/5745388821671841506'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/5745388821671841506'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2007/03/meses-atrs-publiquei-separadamente-os.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-5025542942811216703</id><published>2007-03-27T20:49:00.000-02:00</published><updated>2007-05-19T23:05:21.058-02:00</updated><title type='text'>Cessar-fogo.</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt; line-height: 150%;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;Queríamos agora um acordo, uma trégua, porque ao fim, é isso o que acontece: os soldados não se lembram mais da razão pela qual foram parar ali. Sabem apenas que é uma questão de tempo, e que o tempo virá, e que é preciso ser forte, forte até as últimas consequências e agora. Ter um corpo tão rígido que despedace tudo aquilo em que tocar. E porque não há corpo que seja assim é que a loucura chega com o cessar-fogo. &lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 36pt; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;Creio haver aqueles que enlouquecem ao som da primeiríssima explosão, enquanto verificavam pela última vez o carregamento de munição. Assim, de uma vez: o primeiro som de uma explosão, bem ali ao lado, e o pânico que lhes envolve como uma mão fria e se assenta no mais íntimo de seus seres e não se vai nunca, nunca mais. Mesmo quando retornam vivos, mesmo quando estão à mesa de jantar com suas esposas e filhos. Não conhecem outra forma de sentir o mundo e a si mesmos: o pânico é o demônio que lhes roubou espírito e olhos.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 36pt; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt; Mas há também a loucura mansa que pousa sobre exércitos inteiros, mas que não os impede de voltar às suas cidades, às suas esposas e filhos, não os impede sequer de receber as honrarias todas, as medalhas, aplausos e tudo aquilo que o mundo os oferece como indenização pelo que é sabido de todos: estão para sempre enlouquecidos.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="text-indent: 36pt; line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;A essa loucura poderia se chamar apenas: calma. A resignação oceânica que faz com que vivam a vida incapazes de se aterrorizar com a idéia de perdê-la: fizeram as pazes com o pânico e a morte, lá, no centro mais escuro da vida e de si, onde não podiam parar nem um instante, mesmo quando o medo fazia a urina lhes correr pelas pernas. Sentiram de perto o cheiro de sangue e fezes, e disso fizeram a calma com que observam sorridentes nossa implacável sede de vida.&lt;br /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-5025542942811216703?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/5025542942811216703/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=5025542942811216703' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/5025542942811216703'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/5025542942811216703'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2007/03/cessar-fogo.html' title='Cessar-fogo.'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-4656885845535358412</id><published>2007-03-25T18:49:00.000-02:00</published><updated>2007-03-31T13:14:12.814-02:00</updated><title type='text'>Fiat Lux</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;Havia muita coisa que não sabíamos, naquele tempo. E não é que a vida tenha se feito clara agora, mas aprendemos a distinguir com tamanha precisão alguns dos vultos que rondavam aqueles instantes que, por vezes, nos damos ao luxo de cerrar os olhos enquanto o vento corre alucinado pela casa, desfazendo as formas de tantas coisas que outrora tememos tanto, trazendo aos nossos pés, como que virgens, fios de tear a muito esquecidos. Nós, que por vezes descremos do vento e da força e da nobreza, quando nossas palavras explodiam como cristais estilhaçados por ondas sonoras, agora ousamos fechar os olhos com o mundo a nossa volta &lt;/p&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Minha avó, com sua língua pesada de estrangeira, tomava-me no colo e susurrava uma canção numa língua que já se perdia no sangue da família. Eu mal respirava. Ouvia, e via, e então ela tocava minha testa com os lábios e sussurava: ata tihi'e hazak. Eu não procurava entender. Apenas gostava do estrangeirismo daquelas palavras, de como soavam solenes, como a invocação de um encantamento. E aguçava os sentidos na expectativa de saber qual magia elas desencadeariam. Traziam consigo a gravidade da vida e da morte, eu viria saber. Então&lt;span style="font-size:0;"&gt; &lt;/span&gt;retomava a mesma canção, agora num tom vivaz, quase alegre, uma alegria tão difícil, aquela. E ainda surpreende-me que naquele tempo não me confundisse a soma de seu sorriso com os olhos marejados. Cantava, e cantava, e cantava, até que eu mesmo estivesse a pular pelo quintal, os braços como asas sobre a cabeça, e eu entendia, hoje sei que, de algum modo, eu entendia a força daquele coração. E entendia que, nele, amor e morte haviam se prometido fidelidade. Foi ela, minha avó, quem me ensinou que era preciso ter coração amplo e desafiado e que era preciso saber descer ao mais escuro de si quando não há luz que que se possa ver com facilidade. Em lugar algum vi tantos medos dormindo como naqueles olhos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal" style="line-height: 150%; text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Pois bem. Desde então foram os seus olhos os únicos capazes de trazer de volta aquela sensação de iluminação. Você, ainda tão despida dos anos, tão leve em seus movimentos e em cujas mãos não havia, ainda, os rios profundos que nas mãos de minha avó teciam caminhos nos quais eu me perdia por horas, a ponta do dedo seguindo o curso impreciso, avançando cautelosa, oscilando numa bifurcação, até que o sono pusesse fim à minha incursão. Não é, portanto, coisa que se explique, o que havia no bojo de nossas primeiras palavras, na chuva que te banhava enquanto você recuava para recolher a sandália que havia se desprendido do pé. Já naqueles anos eu pensava no clichê em que se resumia toda aquela cena. E já me sabia indefeso, jovialmente indefeso ao mundo que via em você.&lt;br /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;Agora que seus olhos se foram é a lembrança dessa luz o que permanece gravado a fogo no centro de mim. Quando se foram, seus olhos, meus faróis, tudo se fez escuro, mas chegou um tempo em que vi brotar de mim fagulhas de luz que reconheci de imediato: eram os restos de você em mim. Que essa luz, essa fagulha que apenas somada a outras tantas, de fontes tão diversas, pode lançar uma claridade modesta sobre os meus passos, que essa luz seja algo de precário não é tanto coisa que constranja. Quando você partiu, e levou consigo os seus olhos, acabei por reaprender a última lição que tomei de minha avó, ela já quieta, coberta de flores no último dia. Têm disso os olhos: a certa altura, fecham-se.&lt;br /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;O que tive que lembrar é que luz e beleza armazenam-se.  &lt;/span&gt;E porque o fiz é que digo agora como ainda te carrego no corpo; como devo a ti parte da claridade que há em mim. &lt;span lang="PT-BR"&gt;Porque o fiz te conto agora o que seus ouvidos não ouvem mais.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-4656885845535358412?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/4656885845535358412/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=4656885845535358412' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/4656885845535358412'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/4656885845535358412'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2007/03/fiat-lux.html' title='Fiat Lux'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-6363941787212825086</id><published>2007-03-22T03:13:00.000-02:00</published><updated>2007-03-23T18:54:48.561-02:00</updated><title type='text'>"He has left us alone but sometimes shafts of light grace the corners of our rooms"</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;São abismos, aqueles segundos. Mas, de margem a margem, um silêncio diz o tempo. Aquele silêncio que já é o tempo que passou veloz e, agora sabemos, não parará. E destruirá em seu ventre tudo o que fomos e sonhamos; ou fará de nossa boca terra fértil, seio de Deusa, toque de Santo.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;&lt;br /&gt;Outrora precipitaram-se em abismos tão escuros que, agora, quando se fez dia por um instante, nâo restam dúvidas: é luz aquilo que vêem e que ficará queimado na memória como a única fonte possível de salvação.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;        &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;Nossa reverência não será um clarear de palavras, um desnudar da verdade. Será a assunção radical do silêncio cristalino que vimos – aquela vida que tremula diante de nossos olhos como um feixe de forças.&lt;!--[endif]--&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;E se chamará coragem cada fôlego que vier.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; line-height: 150%;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"  style="font-size:100%;"&gt;E virá.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;A isso chamam graça, os cristãos. E nós ainda não encontramos palavra melhor.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-6363941787212825086?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/6363941787212825086/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=6363941787212825086' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/6363941787212825086'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/6363941787212825086'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2007/03/he-has-felft-us-alone-but-sometimes.html' title='&quot;He has left us alone but sometimes shafts of light grace the corners of our rooms&quot;'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-483731305483932925</id><published>2007-02-26T11:35:00.000-02:00</published><updated>2007-02-26T11:49:54.713-02:00</updated><title type='text'>a precariedade elegante</title><content type='html'>Os leitores desse blog já ouviram falar de Polyana Christina, minha grande amiga. Bem, ela é linda, brilhante, competente e tudo o mais que você puder imaginar e não, eu não sou apaixonado por ela - ela me proibiu bem no começo da amizade rs. O fato é que a moça tem utilizado o espaço de auto-apresentação no orkut para publicar pequenas pérolas. Aqui vai uma das últimas que passaram por lá:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt; Sobre como não se autodestruir na frente de um (outro) bípede. Em três lições:&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;1. SER interessante, gentil e agradável é mto legal. Mas não basta, anjinho, tente PARECER. Não temos a vida toda p/ supor ou desvendar virtudes alheias, se vc não se assemelhar a alguém interessante, gentil e agradável, é provável que não te tomem assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;2. Há coisas que só vc pode fazer por si mesmo. Não espere que o outro sugira a vc seu lugar (atitudes) óbvio na relação. Aceite-o, assuma-o e desempenhe-o eficazmente. Antes que, além de sugestões, venham indiretas, diretas, desenhos, apelos com os olhos, tentativa de telepatia, mímica, teatro, sapato, cinto, punhos, enfim... colabore.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;3. Mais rápido e fácil que importunar os dotes interpretativos alheios é a exatidão de sentido. Assim óh: qdo quiser dizer não, diga: não. Qdo quiser consentir, diga: sim. Qdo não gostar, diga: não gostei. Qdo não souber, diga: não sei. Qdo estiver triste, diga: estou triste. Qdo houver motivo p/ a tristeza, diga: estou triste por ‘isso’. Qdo não quiser dizer o motivo da tristeza, diga: estou triste, e não quero esclarecer o motivo p/ vc. Qdo quiser ficar em casa, diga: não quero sair, e sim ficar em casa. Qdo quiser sair, diga: não quero ficar em casa, quero sair... ... Olha a dica: p/ não ter erro, antes de responder, pense nas palavras que usaria se tivesse que oferecer resposta escrita. E, então, diga-as.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-483731305483932925?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/483731305483932925/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=483731305483932925' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/483731305483932925'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/483731305483932925'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2007/02/precariedade-elegante.html' title='a precariedade elegante'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-117060995403933935</id><published>2007-02-04T15:19:00.000-02:00</published><updated>2007-02-04T16:11:13.920-02:00</updated><title type='text'>Caio Fernando Abreu</title><content type='html'>Depois de ler conto &lt;em&gt;Sem Ana Blues&lt;/em&gt;, pus-me a perguntar se há na literatura brasileira alguém que tenha trabalhado de forma tão, tão, tão... (genial, profunda, humana, dura, verdadeira?) o sentimento de luto, no sentido mais profundo, psicanalítico, do termo. Esse &lt;em&gt;Vai Passar&lt;/em&gt; me fez suspeitar ainda mais que a resposta é não. Mas isso os anos dirão, já que a literatura brasileira ainda me reserva tantos caminhos ainda não percorridos. Por hora fico lendo e relendo isso aqui, ao som de &lt;em&gt;Sem Aviso&lt;/em&gt;, da Maria Rita, impressionado com isso de uma música e um texto se casarem de forma tão precisa, como se tivessem sido feitos um pro outro. Tão aí, o conto e a letra da música:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Vai Passar&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai passar, tu sabes que vai passar. Talvez não amanhã, mas dentro de uma semana, um mês ou dois, quem sabe? O verão está ai, haverá sol quase todos os dias, e sempre resta essa coisa chamada "impulso vital". Pois esse impulso às vezes cruel, porque não permite que nenhuma dor insista por muito tempo, te empurrará quem sabe para o sol, para o mar, para uma nova estrada qualquer e, de repente, no meio de uma frase ou de um movimento te supreenderás pensando algo como "estou contente outra vez". Ou simplesmente "continuo", porque já não temos mais idade para, dramaticamente, usarmos palavras grandiloqüentes como "sempre" ou "nunca". Ninguém sabe como, mas aos poucos fomos aprendendo sobre a continuidade da vida, das pessoas e das coisas. Já não tentamos o suicidio nem cometemos gestos tresloucados. Alguns, sim - nós, não. Contidamente, continuamos. E substituimos expressões fatais como "não resistirei" por outras mais mansas, como "sei que vai passar". Esse o nosso jeito de continuar, o mais eficiente e também o mais cômodo, porque não implica em decisões, apenas em paciência.Claro que no começo não terás sono ou dormirás demais. Fumarás muito, também, e talvez até mesmo te permitas tomar alguns desses comprimidos para disfarçar a dor. Claro que no começo, pouco depois de acordar, olhando à tua volta a paisagem de todo dia, sentirás atravessada não sabes se na garganta ou no peito ou na mente - e não importa - essa coisa que chamarás com cuidado, de "uma ausência". E haverá momentos em que esse osso duro se transformará numa espécie de coroa de arame farpado sobre tua cabeça, em garras, ratoeira e tenazes no teu coração. Atravessarás o dia fazendo coisas como tirar a poeira de livros antigos e velhos discos, como se não houvesse nada mais importante a fazer. E caminharás devagar pela casa, molhando as plantas e abrindo janelas para que sopre esse vento que deve levar embora memórias e cansaços.Contarás nos dedos os dias que faltam para que termine o ano, não são muitos, pensarás com alívio. E morbidamente talvez enumeres todas as vezes que a loucura, a morte, a fome, a doença, a violência e o desespero roçaram teus ombros e os de teus amigos. Serão tantas que desistirás de contar. Então fingirás - aplicadamente, fingirás acreditar que no próximo ano tudo será diferente, que as coisas sempre se renovam. Embora saibas que há perdas realmente irreparáveis e que um braço amputado jamais se reconstituirá sozinho. Achando graça, pensarás com inveja na largatixa, regenerando sua própria cauda cortada. Mas no espelho cru, os teus olhos já não acham graça.Tão longe ficou o tempo, esse, e pensarás, no tempo, naquele, e sentirás uma vontade absurda de tomar atitudes como voltar para a casa de teus avós ou teus pais ou tomar um trem para um lugar desconhecido ou telefonar para um número qualquer (e contar, contar, contar) ou escrever uma carta tão desesperada que alguém se compadeça de ti e corra a te socorrer com chás e bolos, ajeitando as cobertas à tua volta e limpando o suor frio de tua testa.Já não é tempo de desesperos. Refreias quase seguro as vontades impossíveis. Depois repetes, muitas vezes, como quem masca, ruminas uma frase escrita faz algum tempo. Qualquer coisa assim:- ... mastiga a ameixa frouxa. Mastiga , mastiga, mastiga: inventa o gosto insípido na boca seca ...&lt;br /&gt;A personagem está sentada numa escrivaninha. A escrivaninha é muito velha, tem madeira lascada, riscada, manchada de muitas tintas. Falta a gaveta de cima. Pelo vão pode-se ver o que há no interior da segunda gaveta: uma garrafa de Pepsi-Cola vazia e um pedaço de sanduíche de queijo ou/e mortadela. Sobre o tampo, um maço de Hollywood pela metade e muito amassado, uma caixa de fósforos e um pires de cafezinho como cinzeiro. A personagem Lê um livro – de onde não consigo ler o título. A personagem usa tênis brancos (foram brancos), calças de brim azul, desbotado e sujo, um suéter amarelo de lã, esgarçado nos cotovelos. A personagem não olha em volta. Em volta, muitos moças &amp; rapazes com pastas, falando alto (pode-se ouvir, nitidamente, a palavra “dialética”), supõe-se que sejam estudantes. Nas paredes vários cartazes. Num deles, pode-se ler claramente “Cultivar as Almas – ciclo de palestras filosóficas”. Em outro “Você na prévia”. E também: “Pela prática da Liberdade”. Por todos esse detalhes, se supõe que o cenário onde está sentada a personagem seja o diretório do centro acadêmico de alguma faculdade (mas de onde estou não consigo ver claramente). Há uma porta grande de vidro, semi aberta. Lá fora, às vezes chove, às vezes faz sol. Secas e molhadas, as pessoas que entram não param nem falam com a personagem. A personagem está vendendo alguma coisa. De onde estou não consigo ter certeza do que se trata. Mas parecem entradas, dessas para o teatro, cinema, música ou coisa assim. Ninguém pára. Todos falam entre si (pode-se ouvir, nitidamente, a expressão “contradição do sistema”), mas ninguém com a personagem. A personagem pára de ler e olha em volta para ver se está sendo observada. Lentamente. Depois introduz rápida o braço no vão da primeira gaveta (disfarçando com o livro) e, no fundo da segunda, apanha o resto do sanduíche (queijo? Mortadela?). Não vê que eu vejo. Então morde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;strong&gt;Sem Aviso&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;(Composição: Francisco Bosco / Fred Martins)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Anda&lt;br /&gt;tira essa dor do peito, anda&lt;br /&gt;despe essa roupa preta e manda&lt;br /&gt;seu corpo deslembrar&lt;br /&gt;Cantavira dor pelo avesso&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Canta&lt;br /&gt;larga essa vida assim as tontas&lt;br /&gt;Deixa esse desenganar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Calma&lt;br /&gt;Dê o tempo ao tempo, calma&lt;br /&gt;alma&lt;br /&gt;Põe cada coisa em seu lugar&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E o dia virá, algum dia virá&lt;br /&gt;Sem aviso&lt;br /&gt;então...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-117060995403933935?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/117060995403933935/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=117060995403933935' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/117060995403933935'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/117060995403933935'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2007/02/caio-fernando-abreu.html' title='Caio Fernando Abreu'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-116992075909971285</id><published>2007-01-27T15:52:00.000-02:00</published><updated>2007-03-30T20:58:27.377-02:00</updated><title type='text'>o avesso dos anos</title><content type='html'>Era um caderno de capa marrom, pequeno, sem linhas ou margens. Nele Dona Laura escrevia pequenos aforismos aos quais, evidentemente, não chamava assim. Honrava a tradição que reza serem os idosos entes privilegiados, capazes de sintetizar verdades universais em uma ou duas linhas, na forma de um ditado ou de um dizer como que oracular, com finalidades mágicas, preventivas e/ou preditivas. A isso chamam alguns sabedoria e ele, do alto de seu ceticismo, das cicatrizes de tantas leituras, embora tivesse clareza de que, do ponto de vista estritamente racional, essa reverência dedicada aos velhos constituía uma completa tolice, uma espécie de covardia do intelecto ante o tempo e a vida, ante o agora, um conservadorismo grosseiro, vulgar mesmo, embora pensasse tudo isso, era sempre tomado por um sentimento de sacralidade quando via Dona Laura, a cabeça heróicamente resistindo ao branco dos anos, sentada na mesa da cozinha ou no banco de madeira no fundo do quintal, o lápis em punho, desenhando sobre a folha branca alguma constatação ou assombramento, alguma concordância em relação a uma suspeita antiga ou, talvez, a ratificação tardia de algum grave engano.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que o passar dos anos produza sabedoria, ou mesmo alguma expansão do espírito, algum adestramento do ser, não era idéia que o encantava – o equívoco, pensava, é a elevação dessa impressão ao posto de norma. Um velho pode ser a materialização de uma derrota inenarrável, tanto mais estúpida quanto maior o número de seus anos. Há, evidentemente, quem tenha aproveitado cada gota de tempo para se imbecilizar, se degradar, se corromper cada vez mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não, o fascínio não estava no número dos anos, mas em sua combinação com o movimento dos olhos. Eram castanhos os de Dona Laura, de um castanho quase negro, como os cabelos. Tinham o tom de uma noz envelhecida sob a chuva, repousada na terra úmida, e se moviam lentamente. Com o tempo, haviam tornado-se opacos, como um espelho mergulhado meio metro num rio de águas calmas. Poderia-se curvar até o ponto de tocar a água com o nariz: impossível obter a nitidez do próprio reflexo. Um espírito mais determinado – ou mais carente de si – poderia ainda mergulhar a cabeça dentro d’água; não teria maior sucesso – notaria, porém, a audição corrompida. A água é um mundo, e o que está submerso estará sempre um pouco perdido, mesmo que ao alcançe das mãos. No limite, pode-se enfiar os braços n’água e erguer o espelho diante de si num gesto vitorioso, como o de quem vence a natureza, e com ela a morte, e com ela a si mesmo. Ainda assim não é certo que a isso possa-se chamar vitória. Não raro, os espelhos tomados desse modo são lançados com repulsa de volta ao rio e àquela água chama-se maldita, chama-se outra, chama-se de tantos nomes até que se possa esquecer seu nome verdadeiro. Um truque infeliz, se pensármos bem, visto que, cedo ou tarde, recorda-se: não era primordialmente uma questão de palavras. Há uma contra-partida: um espelho abriga imagens e, somente dentro delas, palavras. O que é apenas outro modo de dizer que uma imagem está grávida de outra – ou com o ventre repleto de uma outra que devorou, já que no ser é obscura a dialética entre o devorar e o dar-à-luz – e assim por diante &lt;em&gt;ad infinitum&lt;/em&gt;. Nisso consiste boa parte do risco de evelhecer: mesmo com a benção do esquecimento, reverentemente louvada por Nietzsche – de um modo ou de outro sempre voltamos à Nietzsche – envelhecer é acumular imagens, dentro das quais palavras, dentro das quais imagens...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fascínio estava, portanto, na imagem do ser que se debruça daquela forma sobre si renunciando, ao mesmo tempo, uma porção do saber. Interessava-lhe, antes de mais nada, o mecanismo interno daquela renúncia, a fórmula daquela ausência de desespero – usava essa expressão negativa na falta de um termo positivo que lhe parecesse adequado. Calma, serenidade, paz, mostravam-se excessivos. Talvez brandura fosse adequado. Gostava da sonoridade modesta, quase doce. Mas não tinha certeza. Por isso preferia a objetividade desse ausência de desespero. Enfim, queria saber como se envelhece sem enlouquecer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que é necessário, se perguntava, para manter o intelecto íntegro e as emoções com as bordas aparadas como as garras de um felino de zoológico? A jaula?. Ela, que compunha um par indissociável com a tentativa sistemática de debilitação da força alheia, de toda capacidade de ferir e, portanto, de parte da possibilidade de se defender. Aquela quietude, aquele fluir manso de um rio de águas turvas, aquele fogo brando a crepitar mesmo sob a chuva, aquela série de portas trancadas, ou às vezes apenas escoradas dentro de si – esquecidas, porém, e era isso que importava: portas deixadas para trás. E não supunha ser um processo totalmente consciente. Não era difícil imaginar que a dor era o tempero primordial daquela finesse do intelecto. Porque havia algo de bom-gosto naquilo, isso é certo. Uma certa discrição, uma ausência de gula no viver, porém sem qualquer traço de esnobismo. Apenas uma consciência estupidamente burguesa poderia negar certa elegância na economia de gestos com que Dona Laura se debruçava sobre a vida. Ou eram seus olhos que, vislumbrando um futuro no qual o parkinson seria o menor dos males, deitavam-se admirados sobre a intrepidez daquelas mãos?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Queria aprender a viver assim, com um paladar modesto, mais apto a degustar, mais fiel aos sabores; estava farto de comilanças desenfreadas, de banquetes hedonistas, embora voltasse sempre a eles, de onde o dedo na garganta, o exorcismo dos excessos – espíritos que sempre voltam –, o re-conhecimento, nos restos de comida dentro do vaso, o reconhecimento de si, um vaticínio profano milimetricamente cultivado para ofender o senso de sacralidade que trazia cravado no peito. Como o brado de um traído, de um desabrigado, de quem não consegue se livrar das promessas que cada sensação de beleza, de fidelidade, de força, lhe faziam ressurgir. Deus é um imortal, pensava consigo. Que seja esse morto-vivo que murmura promessas de redenção em meu ouvido, com a voz de um embriagado, ou aquele pronunciar lento e aveludado, que ouço quando meu corpo está em paz, ou tão castigado que torno-me a vítima fácil da esperança; que seja na forma de uma tortura incompreensível: Deus não se deixa morrer, e agoniza dentro de mim. Havia compreendido que era Ele o que temia nos olhos de Dona Laura, era Ele a quem reverenciava quando Dona Laura murmurava encantamentos com o polegar junto à sua testa, quando designava um santo para cuidar de cada aspecto de sua vida; quando doente um, quando triste outro, quando em perigo ainda outro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De todos seus encantamentos, minha velha querida, de todas as suas santas bruxices não houve uma, não houve uma que jamais me livrasse do medo último, da fraqueza e da dignidade últimas. Não houve unguento, com suas sacras folhas, não houve benção que me curasse. E porque levei tanto tempo pra entender, minha velha querida, que você não tentava me salvar? Que não tentava salvar sequer a si mesma. Que não há, afinal, salvação possível que não comece por desistir um pouco da idéia de uma benção absoluta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não sei, meu bem, mas é que tivemos que renunciar tanta coisa pelo caminho... E agora sua imagem me atinge e, embora não me liberte, me traz calma. Seria tolice te supor mais plena que qualquer um de nós, e também tolice a inveja que sentem os intelectuais frustrados ante aquelas pessoas de alma simples, cujos ombros seguem desprovidos do fardo dos conceitos - que para nós, também é luz, essa luz focal, dirigida. Eu não subestimo sua dor. Mas gosto de ver-te, Dona Laura, porque és um mundo que eu nunca habitarei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Jamais sentira vontade de ler aquele caderno. Já lhe bastava a pele, os olhos, os gestos, a dança sempre tão regular na qual Dona Laura inseria seus ritos, na qual hava feito caber seus amores, suas feridas, e aquele cuidado com o qual tocava com o polegar sua testa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Deus te dê luz, e te faça leve o coração.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-116992075909971285?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/116992075909971285/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=116992075909971285' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/116992075909971285'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/116992075909971285'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2007/01/era-um-caderno-de-capa-marrom-pequeno.html' title='o avesso dos anos'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-116863492451252663</id><published>2007-01-12T18:46:00.000-02:00</published><updated>2007-02-14T14:38:17.300-02:00</updated><title type='text'>As aventuras e desventuras do roqueiro-da-triste-figura numa micareta inesperada - Pt 4: "a ressureição" ou "visões de um novo mundo".</title><content type='html'>Não sei quanto tempo fiquei naquele estado, fora do ar. Mas me lembro de que de longe fez-se ouvir uma voz, dizendo algo que não pude compreender a princípio, mas que foi se aproximando, cada vez mais, eu ainda afundado na escuridão da incosciência, e aquela voz, cada vez mais próxima, mais próxima, mais alta, muito alta, até retumbar em meus ouvidos e me fazer despertar subitamente, arregalando os olhos de sobresalto. Continuei deitado, como estava, no asfalto; mas próximo a mim havia um rosto conhecido, um sujeito agachado diante de mim com expressão amigável. Andando atrás dele, de um lado pro outro, impaciente, o dono da voz retumbante dizia “mas não é possível, eu bebo e vocês ficam loucos? Não tão vendo que o menino tá apagado aqui? Querem que morra engasgado com o próprio vômito ou o quê? Será possível que ninguém vê uma coisa dessas?”. Não parava de se mover e balançava os braços acima da cabeça, indignado, como se alguma tragédia houvesse acontecido. Apertei os olhos e o reconheci: era Pablo Kossa. E não é que gritasse, entendam. Falava no seu tom de voz habitual, e não havia som que lhe encobrisse.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O conhecido me ajudou a sentar, passou-me um copo plástico com água e disse:&lt;br /&gt;– Barbarizou, hein rapaz?&lt;br /&gt;Nas mãos tinha uma garrafa ainda com dois dedos de catuaba.&lt;br /&gt;– Suponho que você não vai querer ver isso aqui tão cedo, certo? A sua eu ainda consegui salvar, estava quase pela metade, mas você, preferi deixar como estava.&lt;br /&gt;– Eu desmaiei.&lt;br /&gt;– Sim, mas logo que caiu ainda tentou lamber o chão pra não desperdiçar a catuaba que derramou. Felizmente apagou rápido, e achei que faria bem te deixar descansar um tempo. O Pablo é muito desesperado, eu sabia que tu ia ficar bem.&lt;br /&gt;É quando me pergunto o que diabos aquele cara tava fazendo ali. Figura mais que carimbada da cena goianiense, presente em tudo que é show, o que tinha vindo fazer no carnaval de Caldas?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando pergunto, ele responde:&lt;br /&gt;– Ué, o mesmo que você e todo o resto. Tava todo mundo meio saturado de Goiânia, certo? Achei que havia sido mesmo uma boa idéia do povo da Fósforo fazer esse carna-rock aqui em Caldas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Além do mais, tava cansado daquela vida, d enão ter meu direito ao anonimato, de ser um dos poucos naquela comunidade que escreve com pontos e vírgulas (quando quero), e de ter sempre alguém nos shows olhando pra mim e perguntando "será que é ele?, será que é ele”? Eu sabia que não ia dar pra sustentar aquilo por muito tempo, por isso, agora dou o ar de minha graça apenas em aparições muito oportunas. E, você há de reconhecer, aquela comunidade não tem a mesma graça desde que me distanciei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu, ainda mei passado por causa do porre tento juntar uma coisa com a outra, mas não tenho certeza, não é possível, não assim, tento articular uma pergunta:&lt;br /&gt;– Você tá querendo dizer que.. que é o... que é&lt;br /&gt;– Sim, o Pereba, em carne e osso. Não vou dizer “prazer” porque tu ja me conhece. – e cai na risada: – Me diz: o abadá não ficou mal, fala sério.&lt;br /&gt;Firmo os olhos na blusa e leio: “sou rolinchameiro, e daí?”&lt;br /&gt;Ele, acho que notando minha cara de quem não tava entendo nada diz:&lt;br /&gt;– Vamo, levanta. Cê perdeu o show deles mas ainda tá em tempo de ver a atração principal.&lt;br /&gt;Enquanto me levanto sofregamente com seu auxílio, pergunto pelo Vovô, se havia vindo também. – Sim, veio, mas tombou antes da primeira banda. Tá lá atrás do palco.&lt;br /&gt;E quando abro a boca pra articular um “que porra é essa?”, ergo os olhos e vejo, boquiaberto, a cena toda diante de mim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fal em cima do trio elétrico dizendo “vamos lá meninos, vamos lá, bebamos com juízo, a noite é de muito rock and roll e queremos agradecer os nosso patrocinadores!”. Me lembro de ter visto aquela simpática vovó no PMW em Palmas e no último Gyn Noise e, mesmo sem entender lhufas do que tá acontecendo, olho pro Pereba e não consigo conter a satisfação. Dou-lhe um abraço enquanto enxugo uma lágrima de alívio em ver todos aqueles rostos conhecidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Geórgia passando com um colete de imprensa, com a logo da Mitocôndria e uma câmera na mão; Barbosa esbravejando alguma coisa pro Eduardo Mesquita que, com cara de sujeito boa-praça, lasca nele um abraço do tipo “deixa disso rapá”; Guga com as bochechas rosadas e um moicano absolutamente ridículo, atendendo duas alunas que dizem “nossa professor, como você tem coragem?”; Akio que pára diante de nós, de quimono e faixa na cabeça, dizendo “cadê o Segundo?, é hoje que acerto as contas com ele”, e o Pereba apontando logo adiante, onde Ruy e Segundo desfilam, cada qual com seu par de loiras esculturais, espremidas em mini-shorts de tirar o fôlego; os meninos do Violins sentados num canto enquanto o Pierre murmura “eu tô velho demais pra isso gente, alguém me dá uma aspirina”; Bacural falando pro cara da mesa “se passar do tempo, tu corta o som, é pra cortar o som!”; Carlos Zema, com um cabelo exalando um suave aroma de shampoo e condicionador, autografando CD's prumas gurias histéricas (algum macho resentido grita: ELE É O ANDRÉ MATOS DO CERRADO!!!); Eline, completamente bêbada, jogando botons e CD's da Monstro pra galera; Pedrim, ainda mais bêbado que a Eline, gritando "eu vou ser o novo vocalista do Libertines!!!; Mika sentado numa Harley explicando pra uma morena linda, “veja baby, isso é um metrônomo, funciona pra...” e, de novo, o Pablo andando de um lado pro outro, aflito: “mas será que esse povo vai levar quanto tempo pra entrar no palco? Se levarem todo o tempo que levaram pra voltar à ativa, só daqui dez carnavais! Cadê a porra do João Lucas?!!!”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Algum palhaço grita “morreu”, mas ele surge em cima do trio elétrico, num shortinho jeans, com uma encharpe rosa cheia de plumas e diz: “meus amores, é com muito prazer que anuncio...”, e quando vejo o Hanna sentando na bateria e o Rodrigo Baiochi ligando o baixo sinto um gelo na espinha, viro pro Pereba e tento balbuciar um “mas, mas, eles...”, ao que ele responde “sim meu caro, eles voltaram...”, e o João continua, “eles, a maior banda da história dessa porra de Estado, eles, a mais fuderosa, a mais desgraçenta, a mais infernal de todas as bandas Goianas de todos os tempos ever and ever: MANDATOOOOORYYYYY SUUUUUIIIICIIIIIIIIIDEEEE!!!”. E quando ouço os primeiros acordes de &lt;em&gt;Shout to The Crowd&lt;/em&gt;, já não contenho as lágrimas. Marceleza, do Old Studio, acena pra mim da mesa de som, e eu mal consigo corresponder com um erguer de mão. Estou paralisado. Então, enquanto o Homero berra feito uma jaguatirica empalada (com uma camiseta escrito "Marcão Adrenalina R.I.P."), e Nobre e Leo Bigode pulam abraçados no camarote, eu, claro, sigo meu instinto mais elementar: mal-tratar o pescoço feito um demente. Porque headbanger que é headbanger tem o cérebro solto de tanto bater cabeça. E é quando sinto a mão firme de Tio Geraldo me segurando o braço.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Quieto menino! Endoidou? Num chega o susto que tu me fez passar lá na pista? Vai arrancar o soro do teu braço, ora essa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olho a minha volta e vejo que estou num hospital. Uma enfermeira me fita assustada À minha direita um pastor (reconheço pela Bíblia na mão e pela camiseta do Mortification sob a camisa branca e transparente) e um padre, que tinha na batina um broche do Eterna; à esquerda um hare krishna todo tatuado (esses straight edge são onipresentes) vestindo uma camiseta do Shelter, e uma loirinha linda que, soube depois, era uma das seguidoras do Inri Cristo na cidade. Tio Geraldo, desesperado, provavelmente pensando em como dar à minha mãe a notícia de que seu filho achava-se, sob sua responsabilidade, em coma alcóolico num hospital em Caldas, pediu à enfermeira que trouxesse ao quarto toda essa gente que visita os enfermos pra fazer orações as mais diversas. Ali os credos eram diferentes – na porta do quarto, barrado por um segurança, um sujeito com uma camiseta do Burzum gritava “eu também tenho direito de fazer minhas preces por ele, eu também tenho o direito!” –, mas numa coisa todos concordavam: as orações haviam surtido efeito&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agradeci a todos e pedi que me deixassem a sós com Tio Geraldo. Disse: – Tio, preciso te fazer uma pergunta, e é muito importante.&lt;br /&gt;– Diga menino. Mas tu não pode falar muito, tem que descansar, a médica disse que...&lt;br /&gt;– Tio, eu preciso saber se joguei a mãozinha pro alto.&lt;br /&gt;– Como?&lt;br /&gt;E eu, apesar da palidez ocasionada pelo porre, sinti-me enrrubescer, mas repiti:&lt;br /&gt;Preciso saber se joguei a mãozinha pro alto,lá na pista. Se dancei com a mãozinha pra cima, sabe? Como todo mundo tava fazendo lá.&lt;br /&gt;– E tu não lembra de nada?&lt;br /&gt;– Nada.&lt;br /&gt;– Então escora aí que vou te contar tudo, hehehehehe. É uma longa história, e vamos ter que falar baixo, porque se a médica me pega proseando contigo me passa um pito dos quinhentos, porque tu devia tá dormindo. E ele começa a contar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Até hoje custo crer que passei por uma dessas e saí ileso. De qualquer modo, Tio Geraldo, quando nos visita traz consigo um tabuleiro de damas que faz a alegria de nossas noites. De carnaval, nunca mais quis saber.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Se eu joguei as mãozinhas pro alto?&lt;br /&gt;Ora essa, isso lá é pergunta que se faça? Por acaso te pergunto que músicas você ouve quando ninguém tá por perto?&lt;br /&gt;É cada figura inconveniente que eu vou te contar um negócio viu...&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-116863492451252663?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/116863492451252663/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=116863492451252663' title='20 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/116863492451252663'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/116863492451252663'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2007/01/as-aventuras-e-desventuras_116863492451252663.html' title='As aventuras e desventuras do roqueiro-da-triste-figura numa micareta inesperada - Pt 4: &quot;a ressureição&quot; ou &quot;visões de um novo mundo&quot;.'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>20</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-116861079341313978</id><published>2007-01-12T11:57:00.001-02:00</published><updated>2007-01-13T00:48:45.600-02:00</updated><title type='text'>As aventuras e desventuras do roqueiro-da-triste-figura numa micareta inesperada - Pt 3: a crucificação</title><content type='html'>Virei num gole um copo de Hi-Fi que havia preparado no quarto e senti o corpo começando a ficar mais leve. Embaixo do abadá duas camisetas pra dar sorte. Uma do Ratos, que o Guga me deu antes da viagem, "pra dar sorte", segundo ele, e outra da Hocus Pocus, claro. Se existe isso de “universo astral”,”energias espirituais” ou o escambau, uma coisa deve ser certa: um roqueiro sob as bençãos do Junim tá melhor que um roqueiro por conta própria. Segui.Quando estávamos a cerca de dez metros da entrada da zona do trio ainda pensei que podia ter ligado pro Beto. Ele é culto, sensível, iteligente e, principalmente: é comprometido e pop star ao mesmo tempo. A carreira no Violins lhe conferiu a habilidade do raciocínio veloz. Sempre tem que pensar rápido pra escapar do assédio das fans e deixar a Dani orgulhosa (com razão, diga-se) do homem sério que possui. Mas eu já estava rendido. Além do quê, o Beto é isso tudo que eu falei mas, como todo mundo sabe, também é uma bicha. No final ia acabar dizendo preu ouvir meus sentimentos e seguir meu coração, ou algo assim. Ou diria que num Estado liberal eu sou um indivíduo autônomo e capaz de gerir meu destino dentro das normas instituídas por lei, o que não me ajudaria muito. Enfim, eu era uma ovelha – ainda que negra – sendo levada pro matadouro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então pensei: era melhor acabar com aquilo logo. Tomei meu tio pelo braço e acelerei o passo. Queria cruzar logo aquela fronteira, me atirar logo naquele inferno, como se isso pudesse fazer o tempo passar mais rápido, como se pudesse ameninzar o efeito devastador dos “vamo lá, eu quero ouvir”, que já chegavam impiedosos aos meus ouvidos. Fechei os olhos, acelerei ainda mais o passo e, enquanto arrastava meu tio pelo braço ele dizia “eeeeeeta fiote! Calma lá que as muié não vão fugi não, nem o mé! Êta energia!”. E tudo que eu queria era energia. A energia de um raio certeiro sobre a cabine daquele trio elétrico ou, pelo menos, na minha cabeça. Sinto o meu corpo se chocar ao dos foliões, protego-me com o braço diante do rosto, meu tio grita coisas ininteligíveis atrás de mim em meio a risadas enquanto o puxo e avanço, avanço, avanço... até me chocar com algo. Sinto que diante de mim há uma superfície, na qual me apoio ofegante antes de abrir os olhos. E quando os abro, lá esta ela. Linda! Resplandecente! Com seus traços perfeitos, suas curvas exatas, e todas aquelas marquinhas que eu poderia reconhecer com a ponta dos dedos mesmo na mais plena escuridão. A CATUABA! O balcão era de uma dessas barracas que vendem bebida e, por Deus, ELES VENDIAM CATUABA!Arranquei afoito uma nota amassada de dois reais do bolso, pedi uma sem sequer saber quanto custava, paguei e virei as costas sem saber se havia sobrado troco ou se tinha ficado devendo algo. Tio Geraldo dançava animado, logo a minha frente, e toda menina que passava ele soltava um “ô saúde!” ou um “ê fartura!”. Não dizia gostosa nem qualquer obscenidade. Era preciso saber elogiar as meninas com respeito, era o que pensava. E mais uma vez eu me lembrei do Ruy. Decerto concordaria, claro.Virei metade da catuaba de uma vez, respirei um instante e matei a outra metade. Pronto. Somando a dose de vodka com suco de laranja tomada lá no quarto e a catuaba virada no gargalo, o leitor deve supor que eu já me encontrava consideravelmente tonto. Ou “tontinho” como dirão outros dotados de maior tolerância alcóolica. O fato é que, à essa altura, o leitor também já deve ter imaginado qual era o plano: ora, se ali vendia catuaba eu estava salvo, havia uma saída, o sofrimento teria fim! Eu podia simplesmente APAGAR!O detalhe é: se você conhece catuaba sabe que não é tão fácil apagar com aquilo. Porque embora seja uma bebida forte, seus componentes são estimulantes, deixam o metabolismo a mil, e te impedem de dormir. O resultado é que o porre de catuaba é um inferno por que você não consegue apagar, mas à certa altura, também não consegue mais andar, ou falar, ou , sequer, raciocinar direito. Daí fica no chão feito uma ilustração da Divina Comédida de Dante, tentando agarras as pernas de quem passa, grunhindo expressões de socooro ou impropérios ininteligíveis (essa sacada é do Pierre, do Violins – querido, receba essa homenagem como um pedido de desculpas tardio pelo vômino na sala do seu AP, e o estenda à Bianca, ok?). Na hora eu, claro, não pensei nisso. Não era só uma questão de ficar bêbado. Tinha que ser catuaba! Era mais que uma bebida, era um ser ali comigo, entendem? Com ela eu não estava só! Ela me entendia. Rumei então, com passos rápidos, para a barraca de bebidas quando aconteceu, pela primeira vez, o que eu tanto temia: com zilhões de watts de potência o primeiro “TIRA O PÉÉÉÉ DO CHÃÃÃÃÃÃÃÃÃOOOO” me pegou de costas. Uma pancada bem no meio da espinha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quem tivesse visto suporia que eu havia tomado um tiro. Tio Geraldo, felizmente, achava-se entretido com duas moças. Por um instante desacelerei o passo, olhei para os lados meio atônito, os lábios trêmulos, rodei uma, talvez duaz vezes em torno do meu próprio eixo, a visão nublada. Abaixei, apoiei-me sobre os joelhos ofegante e esperei, não sei quanto tempo. Talvez dois ou três minutos. Não sei como, consegui chegar por fim à barraca de bebidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Cerveja?&lt;br /&gt;– Outra Catuaba, por favor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enquanto me afastava da barraca sorvendo aquele líquido furta-cor, dessa vez em goles lentos, de acordo com o estado de choque em que me achava, pensei na saída que onze entre dez machos encontrariam para a solução. As mulheres, claro. Só havia um jeito de redimir essa situação. Pegando o maior número de chicleteiras possível! E parti para o ataque. Mas era tarde demais. A catuaba começava a agir e a comunicação estava se tornando uma missão delicada pra mim. Não que nesses ambientes você tenha que se comunicar bem. Normalmente não dá pra escutar muito o que as pessoas falam, e quando você escuta preferia ser surdo. O problema é que quando fico muito bêbado começo a falar cuspindo. Me aproximei de duas meninas, que se mostraram até gentis. Estavam abundantemente maquiadas – note: só uma chicleteira é capaz de rivalizar com uma indie ou uma gótica no quesito maquiagem, e eu não arriscaria dizer quem sairia vencedora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Elas brilhavam, mesmo, tinham sombras verdes nos ólhos e seu lábios pareciam os de quem acaba de comer um pastel de rodoviária, cintilavam por causa do gloss (thanks Vivis, pelo auxílio na nomeclatura rs). Era visível que tentavam dar continuidade à “conversa”, mas seus olhos estavam entre-abertos, pra se proteger das partículas de saliva que eu lançava ao ar. E eu falava, falava, falava. Não tenho a mais vaga lembrança do que dizia, mas acho que falava pra que elas não tivesse a oportunidade de abrir a boca. Enfim, se afastaram sorrindo sem-graça, e eu sequer pude ter a sensação de perda. Era um arruinado, havia descido no mais fundo de mim, estava atolado num charco de indignidade. Lembrei das camisetas que trazia sob o abadá e pus-me a passar a mão sobre elas ansiosamnete, os olhos fechados, voltados para o céu. A imagem de um demente, que não se lembrava de ser tão resistente à catuaba e que só queria o milagre da inconsciência. Segui de olhos meio fechados o caminho que já havia decorado, rumo à barraca de bebidas, e foi quando eu voltava de lá, com a aquela que, eu ainda não sabia, seria a última catuaba da noite, que a temeridade me acometeu pela segunda vez. Como uma lança, como uma paulada, como mil flechas cravadas no meu peito (e o volume parecia cada vez mais alto!) eu recebi o tiro de misericórdia: SAAAAAAIIIIIII DO CHÃO CAAAAAALLLLLLDAAAAAAAS! E enquanto o povo vibrava ensandecido eu parei, cambaleando feito um animal ferido, ergui sofregamente os braços ao céu como o Cristo na cruz (caro leitor, câmera em tomada superior, por favor) e soltei um brado de desespero, um urro que foi tragado pelo barulho ensurdecedor da multião que respondia em massa ao apelo do cantor. Um relâmpago cortou o céu, fez-se um segundo de claridade sobre o fundo escuro dos meus olhos que já nada enxergavam, e a última imagem que consigo ter é a da catuaba tombada no asfalto, ao lado do meu rosto. Consegui ainda tocar com a língua o fio escuro daquele líquido que escorria em minha direção. Senti na boca a aspereza do asfalato. E apaguei.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(continua)&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-116861079341313978?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/116861079341313978/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=116861079341313978' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/116861079341313978'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/116861079341313978'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2007/01/as-aventuras-e-desventuras_116861079341313978.html' title='As aventuras e desventuras do roqueiro-da-triste-figura numa micareta inesperada - Pt 3: a crucificação'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-116855274507261433</id><published>2007-01-11T19:57:00.000-02:00</published><updated>2007-01-12T21:56:02.396-02:00</updated><title type='text'>As aventuras e desventuras do roqueiro-da-triste-figura numa micareta inesperada - Pt 2: rumo ao calvário.</title><content type='html'>Já na estrada passamos por um outdoor imenso que dizia &lt;em&gt;Nerildo e Nerivan, SUCESSO EM TODO BRASIL.&lt;/em&gt; E eu penso, que estranho, ninguém nunca viu esses caras, num show, na tv, no rádio, um fã, nada! Você já viu um fã de Nerildo e Nerivan? Pois é, mas o outdoor diz que eles fazem sucesso em todo o Brasil. Estranho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Paramos pra abastecer e tive um nova idéia. Corro pro orelhão ao lado da loja de conveniência enquanto o frentista enche o tanque e meu tio compra um punhado de long necks.&lt;br /&gt;– Alô, Mika?&lt;br /&gt;– Putz, bom cê ligar! Tenho que te contar uma coisa.&lt;br /&gt;– Beleza cara, mas vai ter que ficar pra depois, tô precisando de um favor seu e tenho pouco tempo pra falar.&lt;br /&gt;– Não, cê tem que saber, é sobre o Luciano. Eu fiquei sabendo que...&lt;br /&gt;– Ah não Mika, esse papo de zoofilia de novo não. Eu sei, é engraçado, mas agora não dá. Tô precisando da sua ajuda, me escuta.&lt;br /&gt;– Mas é que...&lt;br /&gt;– Mika, eu sei que tu conhece um monte de músicos profisisonais. Preciso que você entre em contato com alguém da organização de um bloco de carnaval de Caldas. Você deve conhecer alguém. Tem que ser uma pessoa que saiba dos detalhes, entende? Porque meu tio vai querer se certificar.&lt;br /&gt;E, pela primeira vez, parece que ele tá me ouvindo.&lt;br /&gt;– Seu tio?&lt;br /&gt;– Sim, é uma longa história. Preciso que você faça alguém da organização desse bloco ligar pra ele dizendo que aconteceu alguma coisa, sei lá, inventa, mas que o bloco não vai poder entrar na festa, pifou, morreu alguém, não sei, pensaê.&lt;br /&gt;Sim, eu tava pirando. Claro que meu tio ia querer ser ressarcido e que ia descobrir a coisa toda. Mas na hora não pensei nisso. E nem tive tempo de cair em mim, porque, do outro lado da linha, o Mika já se acabava de rir.&lt;br /&gt;– Então quer dizer que cê tá indo pro carnaval de Caldas? Hhahahahahahaha. Eu não acredito. E o Metallica que é poser, né? Hahahahahahahaha.&lt;br /&gt;– Mika, é serio. Eu já tô na estrada e preciso desligar. Dá pra fazer isso pra mim?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Com uma voz ainda meio risonha, ele diz: – Nao dá cara, não conheço ninguém da organização. Mas vai ser bom pra você ver alguns músicos profissionais, muito competentes por sinal, melhores que essas porcarias HC que você escuta! – E dá-lhe o Mika se desmanchando de rir novamente. Ele nunca conseguiu entender como eu podia gostar de Dream Theater e D.R.I. ou Madball ao mesmo tempo. E não é que eu tivesse problemas com isso mas, ali, naquela hora, enquanto via meu tio acomodar long necks na caixa de isopor no banco de trás, enquanto me sentia acuado feito um animal em fuga, fui acometido de um desespero que assumiu a forma da violência. Eu precisava descarregar em alguém. E quem tava ali, do outro lado da linha, era o Mika, portanto, segurou o rojão:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Quer saber, Mika? Vai pro inferno, cara! FUI EU QUEM POSTOU AQUELE POST ANÔNIMO DIZENDO QUE VOCÊ USA PERUCA!&lt;br /&gt;Era mentira, claro. Eu sabia da história, mas nunca tinha comentado com niguém. Mas estava puto, muito puto, possesso mesmo, e não ia parar. Segui mentindo só pra me vingar, não exatamente dele, mas da situação absurda na qual tinha entrado.&lt;br /&gt;– Eu sei que, nos anos 80, quando você descobriu o Van Halen, fez uma química sinistra no cabelo pra ficar parecendo o Dave Lee Roth e amanheceu careca no dia seguinte. E mais: sei que tu é o Ranulfo também! (fake da comunidade Goiânia Rock City no orkut) – Mas isso até minha mãe sabia.&lt;br /&gt;Desligo o telefone sabendo que me arrependeria do que disse, que teria que pedir desculpas a ele depois. Mas naquela hora era o que eu precisava, por isso, entro no carro mais aliviado e abro a longe neck que Tio Geraldo me passa.&lt;br /&gt;– Vi pelos seus gestos que a conversa tava tensa.&lt;br /&gt;Eu guardo silêncio e ele me dá a deixa de que preciso:&lt;br /&gt;– Mulher, né? Mulher é fogo.&lt;br /&gt;– É... é fogo.&lt;br /&gt;– Mas vâmo que vâmo que tem muita farra esperando a gente. Tu não vai ficar nessa tristeza não porque o sistema hoje é bruto!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Meu tio passa a mão nos meus cabelos pra, logo em seguida, fazer o sinal de “metaaaal” com a mão direita. Que figura, penso eu, que figura.&lt;br /&gt;Chegando no hotel jogamos as coisas sobre a cama e meu tio diz: deixa tudo aí, pega só sua sunga e bora tomar uma cerveja na piscina de água quente!&lt;br /&gt;Sunga? Tento explicar a ele porque não uso sunga, de um modo que não denigra minha imagem de homem viril. Mas ele não percebe meu constrangimento e arremata: – Ah, mas quando eu era da tua idade também era seco feito um palito, olha só no que deu! – E bate na barriga farta, todo orgulhoso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois bem, cervejas em punho entramos na piscina morna. Mas eu, já completamente tomado pela paranóia, começando a perder minha sanidade, não consegui me sentir à vontade porque tinha a impressão de que todo mundo havia mijado na água. Então, já que tinha entregue meu destino aos céus – ou ao inferno – achei que o melhor era tirar sarro da cara do capeta. Pedi pro meu tio contar uma piada. Pra quê. Se sóbrio já fazia um estrago enorme, bêbado ficou impossível. E dá-lhe nós dois rindo feito dementes, chamando a atenção de todo mundo, sem darmos a mínima importância. No fim da tarde eu, que já começava a sentir as cólicas do riso, pedi clemência quando ele contou “a do pintinho doido”.&lt;br /&gt;– Sabe a do pintinho doido?&lt;br /&gt;Eu ainda enxugando os olhos da última: – Não, não sei.&lt;br /&gt;Ele: – Miaaaaaauuuuuuuu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi o meu fim. Contando assim você pode até não achar graça. Mas eu sofria de tanto rir. Porra, tem coisa mais lunática que um pintinho que mia? Tinha que ter pirado mesmo. E, pelo jeito, não só ele.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sugeri que comêssemos alguma coisa e dormíssimeos um pouco, “pra nos preparar pro show da noite”. É claro que não vou mencionar o nome da banda que iria tocar. Já chega a humilhação que foi até aqui. Basta vocês saberem – e isso não é difícil de deduzir –&lt;br /&gt;que era uma banda de axé.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eu tinha um plano desde a metade da tarde. A idéia era: embebedar meu tio –&lt;br /&gt;e eu junto com ele, claro – de forma que, deitando pra um “cochilo”, por volta das oito, ele só acordasse no dia seguinte. Com essa esperança, adormeci, já meio bêbado e com o estômago forrado por churrasquinhos que havíamos comido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por volta das onze acordo com uma luz verde na minha cara e penso: pronto, acabou; o capeta me livrou, em nome dos meus vários anos de devoção ao Slayer, ao Immortal e ao Mayhen, e me levou direto pro inferno, sem precisar fazer escala nos trio-elétricos. Agora vamos ser eu e o Dimebag Darrel tomando uísque com umas diabinhas gostosas por toda a eternidade ao som de &lt;em&gt;Walk&lt;/em&gt; (ou de &lt;em&gt;Cowboys from Hell&lt;/em&gt;, pra não contrariar o clichê) – e o Ruy acrescentaria: sapecando um nervo e dando uns pega nas demônia!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas não era o capeta, e sim Tio Geraldo, com uma daquelas lanterninhas coloridas que há muito tempo se usava em raves - era pedir demais que estivesse atualizado, né? Quando tira a lanterna da minha cara e acende a luz do quarto posso vê-lo de pé, no centro do quarto e – veja bem, você não precisa continuar lendo isso aqui, eu até agradeceria se parasse, ok? –, vocês devem imaginar, estava por assim dizer, digamos... enfim, estava de abadá. Jogou na minha cara meu abadá e minha lanterna. Liguei e fiquei olhando hipnotizado pra luz vermelha.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Eu de verde, você de vermelho! É o fluminense na night!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Havia me esquecido. Tio Geraldo é tricolor. Na infância tínhamos rusgas homéricas discutindo a paixão pelos times. (Sou vascaíno com orgulho!) E eu nunca pensei que um dia fosse achar seu amor pelo Fluminense o melhor de seus defeitos. Preferiria mil vezes sentar do seu lado, num Maracanã lotado, e ficar mudo de tanto gritar “vai, tricolor!”, do que encarar o destino que me esperava. Mas não era mais hora de fugir. Por um instante pensei em “passar mal”, simular um desmaio, diarréia, crise de epilepsia – teria soado suspeito, não há casos na família –, qualquer coisa. Mas os olhos vivazes de Tio Geraldo, sua expectativa, e a certeza que parecia ter de que estava me proporcionando os dias mais divertidos da minha vida, me impediram. Pensei que era justo assim. Ele me dava suas piadas, que eu não encontraria em lugar nenhum do mundo e eu, como forma de gratidão (mas, por Deus, não haveria outro jeito de demonstrar gratidão?), vestia o abadá. E foi assim. Acreditem, não é fácil confessar isso desse modo, mas a verdade é que... eu vesti o abadá. É isso aí, vesti mesmo. Você pode se acabar de rir aí enquanto lê isso, mas eu não tinha alternativa. Vesti e pronto. E pra alimentar a diversão cruel de vocês eu conto: era rosa. Rosa fluorescente. Nas costas uma marca de cerveja e, na frente, o nome do bloco, que eu não contaria aqui “nem que vocês me amarrassem à uma ogiva nuclear e me lançassem sobre uma ilha japonesa”.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fechei a porta do quarto como quem fecha atrás de si a última porta da esperança (passar a noite assistindo antigos programas do Sílvio seria a glória) e, de longe, já pude ouvir o fusuê do trio-elétrico. Então olhei pro céu, era noite sem nuvens, um negrume límpido e abundante pairava no céu sobre minha cabeça quando, de cabeça baixa, como que numa prece, fiz um pacto comigo mesmo: “Ok, você vestiu um abadá. Você tirou foto com seu tio, ambos fazendo ‘metal’ com os dedos, e agora tem nas mãos uma lanterna de luz vermelha – meu Deus, pra quê?. Mas seja honesto consigo mesmo, não se engane, se ‘jogar a mãozinha pro alto’, vai ter que se matar”. Eu sabia que não conseguiria olhar meu rosto no espelho no dia seguinte se fizesse uma coisa dessas. Em nome da &lt;em&gt;flying-v&lt;/em&gt; de Randy Roads, em nome de Ozzy comendo morcegos e do Kiss esmagando pintinhos, em nome do vocal furioso do Phil Anselmo, da bateria vulcânica do Dave Lombardo e da demência do Mike Patton; em nome do baixo cavalgado do Steve Harris e do &lt;em&gt;alarme anti-incêndio&lt;/em&gt; que era a voz do Bruce Dickinson, por favor: jogar a mãozinha pro alto, NÃO! Prometido isso a mim mesmo, acendi minha lanterninha e segui Tio Geraldo, que insistia: íamos “tocar o terror”. Poucos passos no separavam do trio elétrico e o fluxo de pessoas era intenso. Todas animadíssimas, claro. Você deve supor, era o início do fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;(continua...)&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Obrigado Daniel, pela revisão.&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-116855274507261433?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/116855274507261433/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=116855274507261433' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/116855274507261433'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/116855274507261433'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2007/01/as-aventuras-e-desventuras-do-roqueiro_11.html' title='As aventuras e desventuras do roqueiro-da-triste-figura numa micareta inesperada - Pt 2: rumo ao calvário.'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-116849073329423902</id><published>2007-01-11T02:38:00.000-02:00</published><updated>2007-01-13T01:25:05.096-02:00</updated><title type='text'>As aventuras e desventuras do roqueiro-da-triste-figura numa micareta inesperada - Pt 1: o início da queda.</title><content type='html'>&lt;div align="justify"&gt;Férias, período sem shows, sem nada pra fazer em Goiânia, e eu digo que faria qualquer coisa pra sair daquela rotina monótona. Não sabia a besteira que estava dizendo. No fim de janeiro recebo com certa surpresa a notícia: “meu filho, seu tio vem passar uns dias aqui em casa”. Peraê, que tio? “O Geraldo", diz ela. O Tio Geraldo? Aquele que eu vi pela última vez há uns nove anos atrás, quando ele veio a Goiânia comprar não sei o quê pras lojas dele? “Uhum, ele mesmo”. Embegeci.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Bem, vocês precisam saber, o tio Geraldo sempre foi o mais distante dos três irmãos da minha mãe. Na infância me lembro dele com a barba abundante me pegando no colo e contando piadas que, na época, eu, com meus cinco ou seis anos, já achava sem-graça. Acontece que eu era novo demais pra entender aquelas piadas. O tempo passou e as coisas mudaram um pouco: pouco tempo depois ele se mudou pro interior de Rondônia e nos visitou após uns quatro anos. Eu, por volta dos onze, entendi perfeitamente cada uma de suas piadas, e não as achei exatamente sem-graça. Era mais que isso. Eram simplesmente terríveis! Inacreditavelmente ruins! As piores de todos os tempos! A bem da verdade, em certo sentido, nem eram exatamente piadas. Não havia as escutado de ninguém. Ele as inventava todas! Querendo, poderia se dizer que era um procedimento literário. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Eu, bem, eu me acabava de rir. Mas ria de passar mal, de encher os olhos d’água, de olhar pra minha mãe, que fingia assistir a novela – não se conseguia escutar nada da TV, é claro – com um olhar de quem pede misericórdia. Eu estava sendo massacrado pelo humor non-sense de Tio Geraldo, e não conseguia parar de rir. Não pelas piadas em si, claro. Mas por ter sido pego de surpresa pela imagem de um sujeito que conta as piores piadas que você já ouviu na vida, e começa a engasgar com o próprio riso antes mesmo que elas tenham chegado ao final. E nós perdíamos (perdíamos?) horas e horas nessa brincadeira. Ele bebendo e contando piadas, eu rindo até precisar do auxílio da minha mãe que, convencida de que aquilo não devia estar fazendo bem à minha saúde, me arrastava pro quarto com um discreto “tá na hora de dormir, meu filho”. E eu ia, ainda degustando os últimos fiapos de risada, com uma mão na barriga que doía, castigada pelo efeito cômico da noite, e a outra acenando pro tio que dizia “boa-noite” e piscava pra mim como quem diz “amanhã tem mais”. Havia um clima bom, de satisfação, em casa naqueles dias. E foi a última vez que vi o Tio Geraldo, até aquele carnaval. Porque, vocês devem se lembrar, o Tio Geraldo tava chegando pra passar uns dias.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E chegou na manhã do dia primeiro de fevereiro, com uma mala modesta e uma roupa amarrotada, como se não fosse o endinheirado que era. Tio Geraldo havia tomado uns investimentos que tinha guardado e comprou a franquia de uma rede de lojas de eletro-eletrônicos, instalando-se no interior de Rondônia. E por uma dessas situações que ninguém sabe explicar, o negócio deu certo e parece que, desde então, Tio Geraldo vivia com certa grana. Mas não havia mudado nada, percebi logo que cruzou a porta da sala. Cumprimentou minha mãe, minha avó, fazendo um barulho dos quinhentos e, por último, cumprimentou a mim. Me ergueu do chão como se eu ainda tivesse os onze ou doze anos da última vez em que nos vimos. Mas eu havia acabado de cruzar a casa dos vinte.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O dia estava ótimo. Aquele tipo de alegria fácil que os sentimentos familiares de uma família ligada por laços sinceros são capazes de despertar. Quando, de súbito, Tio Geraldo solta a notícia, como se jogasse uma cascavel em cima da mesa. Mas não a cobra inteira de uma vez: primeiro a cabeça, depois o corpo e, por fim, a calda. Parecia balançar o chocalho a um centímetro do meu nariz.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;– Fico até o fim do mês, se não for incômodo a essa família fabulosa! Mas a semana de carnaval vou passar em Caldas Novas.&lt;br /&gt;E eu teria me limitado a um pensamento tipo “cada doido com sua mania”, não fosse o detalhe de ele ter acrescentado, passando a mão sobre minha cabeça amistosamente e me descabelando: – Vamos eu e esse meu sobrinho, porque temos muitas risadas atrasadas para por em dia!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Minha mãe teve uma daquelas engasgadas homéricas e se retirou subitamente da mesa, enquanto Tio Geraldo me fitava com um sorrisão no meio daquela mata negra que tinha no rosto, como que esperando minha expressão de contentamento. Então acrescentou: – Não vai ter que pagar nada, já comprei os abadás! Não é uma quente, filhote? Há, hã? Quentura! – E me dava tapas no ombro enquanto, lá de dentro, eu ouvia a gargalhada abafada de minha mãe, que havia se trancado no banheiro para rir de minha desgraça. Ela sabia que eu estava numa enrrascada.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Primeiro veio o pânico, os olhos de meu tio sobre mim, aguardando minha reação, e eu com um puta branco na cabeça, sem ter idéia do que dizer, até que disparei a frase mais inacreditável que já proferi – e uma das quais mais me arrependi até hoje: Poxa tio, que legal! – E dá-lhe um sorriso amarelo na cara e Tio Geraldo me espremendo num abraço de quebrar costelas. A barba me roçando o rosto como que num prenúncio de que o pior ainda estava por vir. Claro que estava.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Depois veio a reflexão sistemática. Eu andando de um lado pro outro no quarto, olhando pros meus poster do Pantera, do AC/DC, do Nevermore, e suplicando. Vamos Phil, eu comprei todos os seus discos originais, não me deixe na mão agora, sim? O que eu faço. Nos discos do Pantera o desgraçado urra feito um animal mas, naquela hora, no início da minha Via Crucix – e, meu Deus, eu seria crucificado de abadá? – não dizia nem uma palavrinha sequer.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Por fim veio a fase da calma. Aquela calma que só os desesperados conseguem ter – os que vêem sua casa pegando fogo, os que recebem uma sentença de morte, os que vêem o time do coração levar um gol de frango, aos quarenta e quatro do segundo tempo, quando precisava de um empate pra ir pra prorrogação. Eu, que nada podia fazer, aceitei meu destino tentando dissimular alguma dignidade e sentei na cama após ligar o som no talo. Enquanto o Max urrava “waaaaaar for territoooooory” no meu ouvido, eu adquiria, cada vez com mais clareza, a certeza de que estava condenado: contrariar Tio Geraldo estava fora de cogitação.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Minha mãe era cruel. Uma vez pegou uma camiseta minha, dobrou as mangas e encostou-a em meu peito, como fazem as costureiras para ter certeza das medidas da peça. Disse: – Vai ficar uma graça de abadá! – E ia pra cozinha dando fartas gargalhadas. Você sabe, por mais que sua banda favorita seja o Morbid Angel, ou até o Deicide, não se pode mandar a mãe tomar no cú, certo? Eu me resignava. Doutra vez atendeu um telefonema enquanto eu estava no banho. Adorava os meus amigos. Se alguém me visitava uma vez ela te servia alguma coisa, pedia desculpas pela modéstia do lanche e não se importava com os coturnos, com os cabelos ressecados, ou com as camisetas pretas, esbranquiçadas de tão velhas. E se vc ligasse ela perguntaria pela saúde, pela família e diria Deus te abençoe antes de me passar o telefone. Uma graça, ela, você pode pensar, e teria certa razão. Mas nem tanto. Também era de um sadismo que deixaria o próprio Sade estarrecido.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Naquele dia era Larissa no telefone. Menina linda que eu havia conhecido num show no DCE-UFG. Do banheiro eu ouvi minha mãe gritar: – Meu filho, é a Larissa. Quer saber onde você vai passar o carnaval. Digo pra ela ligar depois ou falo que você vai com o seu tio pra... - E antes dela terminar a frase eu estava arrancando o telefone de suas mãos, de toalha e todo ensaboado, deixando um rasto de água atrás de mim. E dá-lhe minha mãe rindo casa adentro... Uma víbora.&lt;br /&gt;Foi nesse mesmo dia que tive meu último ímpeto de salvação, minha última tentativa de fuga. O Segundo, claro! Tinha que ligar pro Segundo! Ele era a única pessoa capaz de entender a nós dois, a mim e ao Tio Geraldo, ao mesmo tempo! Ele gosta de rock, como eu, e tem um humor completamente non-sense, como meu tio! Tinha que ter uma solução.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;– Alô, Segundo? Cara, tô ligando porque tô num apuro... Não, não, não é nada grave. Quer dizer, é sim, mas não é problema com grana nem com mulher. Sim, minha mãe também tá boa, Segundo, me escuta. O problema é meu tio, meu Tio Geraldo, você não conhece ele. Chegou pra passar uns dias com a gente aqui e quer que eu vá passar o carnaval com ele, com tudo por conta.&lt;br /&gt;O Segundo, como era de se esperar: – Porra, e esse é o teu problema? Eu levei uma ré monstra num show da Two Beers semana passada e vou ter que passar o carnaval tomando catuaba com o Junim no fundo da Hocus Pocus, porque ninguém nessa cidade dá a mínima pro underground! Deixa eu ir no teu lugar então!&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;– Segundo, cê não tá entendendo. O problema é o lugar onde ele quer me levar. E eu não posso contrariá-lo! É uma pessoa querida, tá crente que tá me agradando. Pra você ter uma idéia, me perguntou se eu não achava o esquema “quentura”, Segundo. Quentura, pode?&lt;br /&gt;Ele me pergunta qual seria o lugar. Eu, respiro fundo e digo.&lt;br /&gt;– Caldas Novas.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;E escuto quando ele cai na gargalhada. Ele tenta dizer alguma coisa, mas não consegue, parece estar perdendo o fôlego de tanto rir. Tenta articular alguma palavra mas só sai um “ai ai ai”. E eu, como um homem que afunda na própria miséira, acrescento, antes de desligar o telefone: e de abadá. Clique.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;O Segundo tava tentando não morrer de rir naquele exato momento, portanto, não podia me ajudar. Definitivamente, eu tava fodido.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Passei os dias seguintes dispensando convites de amigos. Encontrei uma mesma desculpa pra dar a todos, pra não soar iverossímel: iria passar o carnaval na fazenda de um primo chegado que sofrera um acidente e não poderia ir pra farra nenhuma até se recuperar. Os primos e os amigos mais próximos haviam decidido ir pra fazenda da mãe do cara pra dar uma força, não deixar ele morrendo de tédio sozinho, e bebericar uma cerveja. Pronto. Bastante convincente Limados os malas que tinha coragem de dizer “então eu vou também” – o povo sempre querendo beber de graça – agora era aguardar o fim chegar.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Na véspera do primeiro dia de carnaval, enquanto arrumava minha mala, meu tio bateu à porta e abriu-a um pouco, apenas o bastante para aparecer seu rosto grande, o sorriso abundante: – Estamos prontos marinheiro? Prontos para navegar no mar da diversão, hã?&lt;br /&gt;Eu repeti comigo mesmo pron-tos-pa-ra-na-ve-gar-no-mar-da-di-ver-são. E acrescentei num sussuro: socorro. Mas não havia ninguém me ouvindo, então...&lt;br /&gt;– Claro tio! Vamos bombar!&lt;br /&gt;Meu Deus, o que tava acontecendo comigo? Alguém me dá uma catuaba?&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Manhã do dia seguinte, jogo a mala no bagageiro e entro no carro. Ponho os óculos escuros pra que minha mãe não veja minha cara de cachorro-que-caiu-da-mudança. Mas ela é impiedosa. Enquanto meu tio entra no carro, após se despedir de minha vó, ela dá a volta e toma meu rosto entre as mãos através da janela e diz: – Divirta-se meu bem, tome muita água. Lembre-se, dançar sem beber água pode te desidratar, sim? – E meu tio arremata: pode deixar, o garoto tá vendendo saúde, pra ele e pro mulheril todo lá de Caldas! – E eu me ponho a pensar naquelas meninas com três quilos de maquiagem na cara e a blusinha do abadá amarrada pouco acima do umbigo. Devidamente assediadas por moçoilos de braços fartos e óculos escuros sobre os cabelos cheios de gel. Definitivamente, eu precisava de uma catuaba.&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;Quando dobramos a primeira esquina meu tio diz: – Ontem comprei um CD de rock pra ouvirmos na estrada. – E antes que o disco comece a tocar, consigo ler o nome do ábum. É &lt;em&gt;Música para Acampamento&lt;/em&gt;, do Legião. Tem horas na vida, meu amigo, que o que resta é abraçar o capeta. Ele me passa um cigarro, com ar de quem faz a maior das travessuras, e levanta o punho com o indicador e o dedo mínimo erguidos. Sim, meu tio é metal, morram de inveja – e que venha o abadá. &lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;(continua...)&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div align="justify"&gt;&lt;em&gt;Thanks ao Homero pela ajuda na revisão ortográfica.&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-116849073329423902?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/116849073329423902/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=116849073329423902' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/116849073329423902'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/116849073329423902'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2007/01/as-aventuras-e-desventuras-do-roqueiro.html' title='As aventuras e desventuras do roqueiro-da-triste-figura numa micareta inesperada - Pt 1: o início da queda.'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-116646510894515748</id><published>2006-12-18T15:53:00.000-02:00</published><updated>2007-02-26T18:20:02.678-02:00</updated><title type='text'>A Montanha</title><content type='html'>Abriu sem bater a porta do pequeno quarto no fundo do quintal e desabou sobre a cadeira que, juntamente com a cama e a escrivania, compunha toda a mobília do aposento. Vestia calça jeans e uma regata branca, que exibia os contornos dos braços e pousava sobre os seios médios e firmes. Ele achava-se sentado ao pé da cama.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esperou que ela recobrasse a regularidade do fôlego, que se abrandasse o primeiro turbilhão de lágrimas. Agora era deixar aquela fraqueza escorrer pelos olhos, voltados pro teto, a cabeça tombada pra trás sobre o encosto da cadeira, a boca entreaberta. Depois viriam as primeiras palavras, ele sabia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Começou quando ela era criança e ele já havia abandonado a casa velha pra recolher-se no quarto dos fundos. Fizera-o em paz, sem problemas com a filha ou o genro. Um dia dissera que estava velho e que precisava ficar só pra ter o coração no lugar quando chegasse a hora de morrer. No começo tentaram dissuadi-lo, mas logo perceberam que a coisa era séria. E que não sofria, pelo menos não parecia sofrer. Deixaram-no. Visitavam-no dia sim, dia não, ora o genro, ora a filha, levando comida e, às vezes, algum livro cujo desejo havia lhes comunicado. Eram sempre recebidos com ternura. Com o tempo somou à mobília uma pequena geladeira e um fogão. Traziam os mantimentos semanalmente e passou a cozinhar pra si. As visitas diminuíram, duas, três por semana, mas não por descaso. Perceberam que gostava de estar só. Tudo na mais perfeita paz.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Saiu uma única vez, três anos depois. Cruzou o quintal, passou pela velha mangueira que plantara vinte anos antes e adentrou à casa velha pela porta dos fundos. Os cabelos já quase totalmente brancos, cuidadosamente penteados. Na pequena sala de classe média-baixa todos interromperam o falatório – a filha, o genro, os amigos e parentes. Fitavam-no com reverência. Não é que botasse medo, não era isso. Mas achavam-no uma excentricidade, uma coisa inexplicável, sagrada, talvez, enfim, ninguém entendia como era possível viver dentro de um quarto sem ser louco. E louco não o achavam. Tinha nos olhos uma ternura lúcida demais, não era loucura aquilo.&lt;br /&gt;– Já íamos levá-la pro senhor ver, pai. Acabamos de chegar – disse a filha, mal contendo a surpresa de ver o pai fora da sua guarida.&lt;br /&gt;–Tudo bem. Eu quis me antecipar – disse sorrindo pequeno. Vestia uma camisa de passeio. Ela se aproximou, tomando-lhe as mãos. &lt;br /&gt; – Lembra quando te contei que estava grávida, lembra o que o senhor disse? O senhor disse que desejava que ela fosse clara. O senhor parecia tão feliz, pai. Por isso chama-se Clara.&lt;br /&gt; A recém-nascida achava-se no colo do pai, não chorava, não dormia. Movia os olhos sem direção, em busca de uma coisa qualquer. Tornariam-se mais escuros com o tempo, não menos inquietos.&lt;br /&gt;– Posso? – disse ao genro, e este a entregou. Tomou-a um instante como se toma um recém-nascido, ainda sabia como fazê-lo.&lt;br /&gt;Fitou-a e seus olhos se cruzaram. Sorriu um sorriso de lábios, com olhos vivazes e semi-cerrados, como se estivesse diante de uma aparição da Virgem, mas como se fosse muito íntimo dela. Tinha uma calma secular.&lt;br /&gt;Então, para o susto de todos – uma amiga da família chegou a soltar um “meu Deus!” abafado com as mãos – ergueu-a diante de si, os olhos marejados, o semblante vigoroso:&lt;br /&gt;– Sê forte, Clara! Sê forte e bela! – e devolveu-a ao genro despedindo-se de todos com um “boa noite”. Beijou a filha na testa e saiu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Agora ela achava-se ali, desabada na cadeira velha, chorando calada. Tinha os olhos cravados no teto. Os dele oscilavam do chão pra ela, dela pro chão. Nas mãos um cigarro que rodava sem parar. Tomou um isqueiro e passou-lhe ambos. Ela acendeu, deu uma baforada e olhou-o nos olhos pela primeira vez.&lt;br /&gt;–Tá tudo escuro, vô. Tudo tão escuro.&lt;br /&gt;Começou quando era criança.&lt;br /&gt;Visitava-o sempre, cada época de um modo. Bem novinha ia quase todos os dias, conversava, conversava, contava um sem-número de coisas. Sentia-se como uma mensageira do mundo lá fora. E achava desagradavelmente extravagantes os velhos que caminhavam e faziam exercícios no parque, com poses de atleta. Achava-se superior às outras crianças da escola, porque tinha um avô que vivia noutro mundo. Isso tinha claro: a porta do quarto dos fundos era a passagem pra outro mundo. E fazia perguntas, sempre, inúmeras. Mas o fazia com calma, não era uma criança afoita. O avô ouvia, arrazoava com ela o sentindo de algumas questões mais obscuras, pensavam juntos. Acontecia mesmo de deixarem de lado uma ou outra questão por chegarem ao consenso de que era complicada demais para ambos. Mas quando ele respondia, ela guardava a resposta como um segredo. E quando era ele a perguntar, a pequena tomava a questão como uma chave e experimentava nas várias portas que tinha dentro de si. Tinha ouvido isso dele, isso, de que as pessoas têm portas e andam a procura de chaves. Se a pergunta era simples logo a chave rodava no buraco de uma das primeiras portas. Se, ao contrário, era complicada, ia embora e prometia trazer a resposta no dia seguinte. Experimentava, experimentava, forçava fechadura e, às vezes, ia dormir tarde, exausta, sem conseguir abrir porta alguma. No dia seguinte a visita era mais tarde, passava o dia se contorcendo, ocupada com chaves e maçanetas e, às vezes, dava-se por vencida. Entrava no quarto dos fundos inconformada e devolvia a pergunta, áspera, não raro em meio a soluços.&lt;br /&gt;– Porque eu quis que os meus amigos morressem, vô? Eu não sei! E não quero mais! Se eles morrerem eu vou chorar tanto, mas tanto!&lt;br /&gt;Em geral não dizia nada. Acolhia-a no colo até o choro passar, tomava seu rosto nas mãos e dizia: – Você é Clara, meu bem.&lt;br /&gt;E certa vez disse que ia lhe contar uma coisa que precisava não esquecer.&lt;br /&gt;– Há chaves cujas portas nunca encontramos, isso você precisa entender. E é preciso saber viver com portas trancadas dentro de si. Você é uma casa, Clara, entende? É como se fosse uma casa. E não dá pra ir em todos os cômodos que tem dentro de si, não há quem consiga. E não adianta tentar arrombar a porta, meu bem. Há quem passe a vida inteira batendo com os punhos contra as portas fechadas que traz dentro de si, e isso dói, Clara, às vezes dói de enlouquecer. Sabe, de enlouquecer?&lt;br /&gt;– Hum.&lt;br /&gt;– Enlouquecer é, entre outras coisas, quando nenhuma chave serve em porta alguma. Isso acho que dá pra você entender, certo?&lt;br /&gt;– Certo.&lt;br /&gt;– Ou quando o sujeito esquece o que diabos seja uma chave e uma porta, certo?&lt;br /&gt;– Certo.&lt;br /&gt;– Bom.&lt;br /&gt;– E o sujeito pode ser tanto um menino como uma menina, certo?&lt;br /&gt;– Certo.&lt;br /&gt;Foi crescendo e as visitas se tornaram mais breves nos dias de semana. Ela sempre atarefada com as coisas da escola, começando a trabalhar, arrumando namorados, depois a faculdade. Mas passava quase todos os dias no quarto dos fundos e às vezes encontrava-o dormindo. Era breve, um beijo na testa, como está meu bem?&lt;br /&gt;– Você está meio bêbada, han? Quem é o traste da vez? – e ela achava graça dele simular ciúmes naquele jogo tão terno.&lt;br /&gt;– Um sujeito metido a intelectual, mas já saquei que não leu metade do que diz. E trepa com os pudores de um cientista ante uma amostra de bactérias.&lt;br /&gt;– Que lástima.&lt;br /&gt;E ela lhe beijava na testa.&lt;br /&gt;– Durma bem, meu bem.&lt;br /&gt;– Durma bem, meu bem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Deu outro trago e repetiu, a fumaça saindo ao mesmo tempo pelo nariz e pela boca, cotovelos sobre os joelhos, mãos pendendo entre as pernas:&lt;br /&gt;– Tudo escuro, vô, tudo escuro.&lt;br /&gt;As mãos cobertas de penugem branca pousam firmes sobre seus ombros, testa contra testa:&lt;br /&gt;– Respira meu bem, respira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;– Dá pra entender tudo, vô?&lt;br /&gt;– Não, Clara, não dá.&lt;br /&gt;– E tudo que a gente fala?&lt;br /&gt;– Você entende tudo que fala?&lt;br /&gt;– Não.&lt;br /&gt;– Então.&lt;br /&gt;– Hum.&lt;br /&gt;–  ...&lt;br /&gt;– E o senhor, entende tudo que fala?  &lt;br /&gt;&lt;br /&gt;*****&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele, nonagenário, havia se isolado há tanto tempo... e o tempo tardara, e viera ela. E crescera. E agora o mundo invadia os limites de sua guarida cravado feito dardos nas costas de Clara, que lhe batia nas costas com os punhos cerrados, molhando-lhe a camisa naquela explosão de lágrimas. Não entendiam nada, mas apenas ele sabia estar em paz com a ignorância, com o tempo e a vida. Apenas ele entendia que era pleno de compreensão. Têm isso de interessante, os velhos: são pessoas para quem, se se quiser, e por mais paradoxal que pareça, o tempo perde a força de sua linearidade. Se tão somente quiserem, e se tiverem vigor e imaginação pra tanto, têm-no como num mosaico. Recortam-no, sobrepõem instantes, misturam lembranças e nomes, e tudo se diz respeito, e tudo se apaga e se redime e se confunde na calmaria dos últimos cansaços. Ou não. E são um inferno os últimos ruídos do relógio, o peso dos anos descendo do teto contra o peito, roubando o fôlego, cada amor ultrajado, cada infâmia, cada fúria não abrandada, cada fogo não extinguido, tudo comprimindo o cérebro banhado de sangue.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele era dos que estavam em paz. Tinha o tempo como um quebra-cabeças e dispunha as peças como lhe convinha o humor do dia. Mas hoje era um dia no qual não se podia ver muita coisa, e tinha em suas mãos, contra o peito, desabada de joelhos entre suas pernas, uma peça que não se encaixava por nada: Clara e seus olhos agora tão escuros.&lt;br /&gt;  &lt;br /&gt;Ela afastou-se um pouco, ainda de joelhos, os cabelos colados à face por causa das lágrimas. Tentava controlar os soluços enquanto limpava inutilmente a face sempre inundada.&lt;br /&gt;– O senhor me disse, vô, muito tempo atrás, que era enlouquecer isso, quando não há chave que sirva em porta alguma. Porra, vô! Isso tá acabando comigo, percebe? Não dá pra levar mais muito tempo, simplesmente não dá!&lt;br /&gt;– ...&lt;br /&gt;– E não é que eu queira parar, mas tô com tanto medo, vô. Tô com tanto medo de não conseguir mais, de não conseguir ir muito longe agora. Eu não enxergo mais nada! E eu não queria parar, vô, eu não queria ter que parar, juro, mas tá doendo demais.&lt;br /&gt;Não era tolo, não é que havia pensado estar incólume ao mundo ocultando-se num quarto, no fundo de um quintal, no meio do qual, há cerca de cinqüenta anos, uma frondosa mangueira não passa um ano sequer sem forrar o chão com seus frutos amarelos. Quando entrava novembro, Clara punha-se atenta. Queria ser a primeira a colher do chão o primeiro fruto. Não pegando do pé, com pau ou pedra. Era do chão que pegava, porque certa vez o avô usara a mangueira para ilustrar por que os filhos, a certa altura, saem de casa. Em geral, era simples com ela. Ela é quem complicava as coisas.&lt;br /&gt;– Mas tem manga que cai verde, não tá pronta pra comer!&lt;br /&gt;– Pois é. Algumas dessas não ficam boas nunca. Ou ficam com um gosto ruim.&lt;br /&gt;– Gosto de quê?&lt;br /&gt;– Ainda é gosto de manga, mas é diferente.&lt;br /&gt;– Hum.&lt;br /&gt;– Amargo, Clara. Ficam com um gosto meio amargo.&lt;br /&gt;A notícia chegou cinco dias depois. Na noite anterior, ela havia passado pelo quarto pra desejar-lhe boa noite. Estava muito abatida, a voz fraca.&lt;br /&gt;– Vim dar boa noite, meu bem.&lt;br /&gt;– Boa noite, querida. Vai ficar bem?&lt;br /&gt;Ela sorriu um segundo, olhou no fundo dos olhos, ele achava-se já deitado.&lt;br /&gt;– Vamos ficar todos bem, vô. De um modo ou de outro, decerto no final ficamos todos bem. Eu estou calma.&lt;br /&gt;Foi o genro quem veio lhe dizer. Clara estava no hospital. Os médicos diziam que era grave, mas havia chances. Ninguém sabia explicar direito o que houve. Havia tomado um monte de remédios, tinham encontrado uma pequena carta no bolso. Mas era preciso ter fé, Clara precisa muito da fé do senhor agora, vamos ter que ser fortes.&lt;br /&gt;Morreu na mesma noite e na manhã seguinte o genro veio lhe dar a notícia. Perguntou se queria ver a carta e acompanhar o velório. Tomou a carta nas mãos, não tremiam, os olhos estavam secos. Apenas mordia o lábio inferior enquanto lia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Queridos,&lt;br /&gt;Creio que não seja hora de tentar explicar as coisas. Isso aprendi com o vô. É preciso saber desistir de algumas perguntas. E isso caberá a vocês, porque a mim simplesmente faltam forças. Não me tomem por ingrata. Se houver memória após essa vida, o amor de vocês estará gravado em mim. Sempre me amaram como sou; tentem amar-me agora, derrotada, e me perdoarão. Pai, mãe, é com vocês que mais me preocupo. O vô parece o mais frágil aí, mas é quem melhor entende de engolir as birras da vida. Olhem bem pra calma dele, e não tentem entender. Tentem apenas se consolar. A ele, devo quase tudo que conseguir ver de belo com esses meus olhos agora tão negross. Se houver lembrança, vô, a mais cara será o peso terno de suas mãos. E aqui não há mais palavras que bastem. Eu aprendi, vô: vou me calar.&lt;br /&gt;Tentem viver com beleza. E tentem não se culpar se não conseguirem. O que será quase impossível, eu sei. A culpa não nos deixa jamais.&lt;br /&gt;A  vida segue imensa! Apenas não tenho mais nada a ver com isso.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Beijo terno da Clara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Perguntou se podia ficar com a carta, o genro respondeu que sim, claro – a mãe não suportara a idéia de tocar naquele pedaço de papel. Dobrou-a, abriu uma gaveta da escrivania e depositou-a bem no fundo. Disse que não iria ao velório e pediu que o deixasse sozinho. Os dias seguintes seguiram brandos. Um cansaço imenso pairava sobre a casa, sobre o quintal, até o quarto dos fundos. Mas era no quarto de casal, lá dentro, onde achavam-se os ombros mais frágeis. A mãe não conseguira retomar a vida. Duas semanas depois voltou ao trabalho, era visível que tentava, mas os colegas diziam que tinha sempre os olhos rasos. Um dia chegou em casa, deitou-se e não levantou mais. Morrera dormindo, disseram os médicos. O coração sucumbira, sem palavras de despedida, sem solenidades. Exatamente vinte e cinco dias após a filha. O exato número dos anos de Clara. Recebeu a notícia pela manhã, deitado, e assim permaneceu por dois dias. Depois levantou-se, lavou-se e seguiu a vida no quarto dos fundos, entre livros, café e comidas. Ao velório e ao enterro não foi, como não fora aos de Clara.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Daí em diante era ele e o genro, que passou a visitá-lo com mais frequência, talvez pra se aliviar da solidão da casa velha, agora quase que totalmente vazia, a não ser, evidentemente, pela sua própria presença. E, é de se entender, havia se tornado um sujeito melancólico, sorumbático. Não se julgava boa companhia para si mesmo. Então, às vezes, chegava do trabalho e ficava no quarto dos fundos até que o vô dissesse que o deixasse dormir. Mas dizia com ternura, ninguém se constrangia. Deram pra jogar dama, discutir política, preparar requintados almoços no pequeno fogão do vô. Eles, que nunca tinham sido lá muito íntimos – embora não houvessem cultivado qualquer atrito –, tornaram-se bons amigos nos três anos que se seguiram. O genro não arrumara outra mulher e sobre Clara e a mãe nunca falavam. Apenas uma vez tentou obter do vô algumas palavras, dissera:&lt;br /&gt;– Se tivéssemos tido como impedi-la, no momento exato, será que estaria aqui ainda? E com ela a mãe, e tudo como antes?&lt;br /&gt;– É possível, vá saber. É bem possível.&lt;br /&gt;E nunca mais tocaram no assunto.&lt;br /&gt;Um dia o genro, ao chegar do trabalho, colocou a pasta sobre a mesa e, enquanto servia-se dum copo d’água, viu o inusitado pela janela: o vô, achava-se no quintal, sentado na cadeira velha que tinha no quarto. Estava sentado debaixo da mangueira. Saiu com o copo em mãos, a boca aberta, perplexo, aproximou-se e viu nas mãos do vô um fruto, completamente maduro. A cabeça achava-se tombada para trás, como a de Clara no dia em que entrara feito um tufão e desabara na mesma velha cadeira, os olhos cravados no teto, as lágrimas a lhe banhar o rosto. Estava aprumado, penteado, tinha os braços sobre as pernas, apenas a cabeça estava tombada pra trás. E não respirava mais.&lt;br /&gt;O genro agaichou-se, fitando-o bem de perto, o copo d’água numa das mãos, e disse:&lt;br /&gt;– Parece uma montanha.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-116646510894515748?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/116646510894515748/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=116646510894515748' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/116646510894515748'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/116646510894515748'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/12/o-quarto-dos-fundos.html' title='A Montanha'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-116559772750618546</id><published>2006-12-08T14:46:00.000-02:00</published><updated>2006-12-11T23:51:31.696-02:00</updated><title type='text'>não apenas duas, certamente</title><content type='html'>Acabou de me ocorrer uma coisa.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Há pessoas que estão sempre debruçadas sobre si, tentando decifrar coisas, se orientar, conferir o mínimo de ordem ao caos das subjetividades. Sempre fui assim. Às vezes até o limite da insanidade. Mas com o tempo se aprende muita coisa. Aprende-se, por exemplo, que a fome insaciavel de ordem, coesão, inteireza, pode matar. Não há mesmo como se salvar por inteiro. A isso é preciso renunciar, ou se enlouquece.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fato é que nos debruçamos sobre nós como se o fizéssemos sobre uma miríade de papéis avulsos, de todos os tamanhos e cores, escritos com letras de todos os tipos. E obtemos alguns progressos. Conhecemos algumas coisas, reconhecemos outras, memorizamos as que aparecem vivas demais para ser ignoradas e impenetráveis demais para ser entendidas. Os papéis "decifrados" são assinalados com um X, e sobre eles colocamos um peso qualquer para que o vento da nossa confusão não os leve. Pra mim, esse peso é sempre uma música, um livro ou a mão de alguém. Verdade é que as mãos tem a não muito conveniente característica de se moverem por conta própria. Daí vamos nós, com apenas duas, na ponta dos pés, tentando estabanadamente salvar papéis que voam pelos ares feito libélulas. Não é coisa das mais confortáveis, acredite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quantas mãos é preciso ter pra viver?&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-116559772750618546?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/116559772750618546/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=116559772750618546' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/116559772750618546'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/116559772750618546'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/12/no-apenas-duas-certamente.html' title='não apenas duas, certamente'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-116555773115200220</id><published>2006-12-08T03:00:00.000-02:00</published><updated>2006-12-08T11:04:33.356-02:00</updated><title type='text'>Sobre Amós Oz, Israel, os que se perdem e os profetas. E sobre literatura.</title><content type='html'>Amós Oz é um autor israelense, de quem gosto muito. Li dois de seus livros e estou lendo o terceiro, &lt;em&gt;Meu Michel.&lt;/em&gt; Meu favorito é &lt;em&gt;A Caixa Preta.&lt;/em&gt; Sempre achei o título um grande achado: trata-se da história de um amor fracassado. Segue o meu trecho favorito, parte de uma carta de Ilana ao seu marido Michael Sommo, à qual ela assina como &lt;em&gt;Sua Mãe.&lt;/em&gt; Ela sabia que a maternidade, a paternidade e mesmo a orfandade, são dimensões presentes numa relação erótica.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Algum brincalhão disfarçado infiltrou-se e nos fez detestar o que tínhamos descoberto. Destruiu o que era precioso, e que não voltará. Nos atraiu com um fogo-fátuo, até que atolamos num pântano e a escuridão desceu sobre nós. Você lembrará de mim em suas orações? Por favor, diga em meu nome que esperamos misericórdia. Diga em suas orações que a solidão, o desejo e a saudade são mais do que conseguimos suportar. E sem eles perecemos no caminho. Diga que tentamos receber e dar amor, mas nos perdemos no caminho. Diga que não nos esqueçam e que continuamos a cintilar na escuridão. Tente esclarecer como podemos sair. E onde fica aquela terra prometida."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre Israel ele diz:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Durante o dia Israel faz um imenso esforço para parecer uma sociedade determinada, valente, pronta a reagir. [...] De noite Israel é um campo de refugiados, com mais pesadelos por metro quadrado do que qualquer outro lugar do mundo, eu acho. Ali quase todo mundo já viu o diabo."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A descrição que Amós Oz faz de Israel poderia ser perfeitamente aplicada à quase todos nós. Não é exclusividade dos israelenses, ver o diabo. De minha parte, penso que a literatura não faz promessas. Pode salvar, mas não há do que acusá-la se não o fizer.  Na Bíblia há sacrifícios que não podiam ser oferecidos em público. Apenas determinados sacerdotes podiam ofertá-los no interior do templo. Em um dos tornozelos era amarrada uma corda, pela qual deveriam ser puxados, caso fossem fulminados pela presença divina, implacável em sua justiça, intolerante a qualquer impureza. A literatura acolhe tais profetas.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-116555773115200220?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/116555773115200220/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=116555773115200220' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/116555773115200220'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/116555773115200220'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/12/sobre-ams-oz-israel-os-que-se-perdem-e.html' title='Sobre Amós Oz, Israel, os que se perdem e os profetas. E sobre literatura.'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-116550215504562959</id><published>2006-12-07T12:33:00.000-02:00</published><updated>2007-11-03T20:35:16.367-02:00</updated><title type='text'>a sagração</title><content type='html'>Já havia acumulado na carne as cicatrizes que me renderiam a fama de velha sábia e devota, quando vi pela primeira vez a sombra naquele olhar: o cansaço de gerações num par de olhos de menino, diáfanos como as madrugadas frias nas quais se sentava sozinho na varanda. Uma vez deitou em meu colo, tinha já doze anos, e suspirou fundo como se de suas costas arrancassem uma faca outrora cravada com fúria: “Os anos vão voar, Vovó, os anos vão voar, eu sei”. E enquanto se juntava a mim, molhando-me o vestido, eu pensava que era hora de começar meu rosário, de tecer o conjunto de preces que completariam a sacralidade daquela marcha, a busca ritualística pela mão de Deus que, mesmo ela, não poderia manter inteiro o coração envenenado de uma criança como aquela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Era eu a velha que havia visto tudo e era eu o único lugar em que poderia aguardar quieto o florescer do mal que trazia dentro de si – jacarandá majestoso, cujas raízes profundas lhe drenavam a alma e cuja seiva lhe conferia a turvez do olhar. Os anos voariam, os anos voariam. E em mim não havia vestígios de uma salvação possível, apenas o esboço de uma morte tranquila ou um repouso modesto. O amava demais para tentar salvá-lo, ele sabia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Queria que tivesse visto as outras faces da fúria, das quais poderia dispor, talvez, para erguer uma vida qualquer, um amor ou uma vingança quaisquer que lhe permitissem escapar daquele destino aparentemente inexorável. Que tivesse conseguido ver a mentira daquele fatalismo – porque talvez fosse uma mentira a necessidade daquele &lt;em&gt;réquiem&lt;/em&gt; como a única música possível até o fim dos tempos! Mas não sabíamos a verdade. E não seria eu a pessoa indicada para lhe abrir os olhos. Eu que havia encontrado a posição mais confortável para se morrer em paz, e que aguardava resignada e gigante o fim chegar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi ele infante, mais que ninguém, quem me fez entender a estranha reverência que depositam sobre os velhos aqueles cujos anos são poucos. Pois foi a ele quem dei a esterilidade da minha benção. Apenas porque entendi que era assim que deveria ser, eram essas as cores exatas, esse o arranjo do nosso desespero, a forma como dispusemos nossos medos e nossos sonhos de modo a se redimirem ilusoriamente numa imagem qualquer, porém belíssima. Acima de tudo precisamos de imagens cuja beleza descanse nossos olhos e porque entendi isso o abençoei manhã após manhã e até o último dia. O fazia com singeleza. Dizia “Deus te abençoe, meu filho” e pensava que era lindíssimo dizer aquilo assim. E me sentia bela.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhava aquele menino e era como se fitasse o rosto furioso da vida, um recado de Deus, uma profecia encarnada. E era estranho, porque eu o olhava e era o meu menino, e eu acariciava os cabelos colados à testa cheia de suor das noites quentes e os beijava já bem depois do sono lhe aquietar, e deixava o tempo passar, descontava as horas, não pensava na mãe, não pensava na surpresa generalizada que haveria, no susto, no estupor que tomaria a todos, eu só pensava que estava diante de uma coisa sagrada, de um milagre, e entendi que há feridas que salvam e milagres que matam.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi com essa solenidade que, no último dia, beijei seus lábios inertes e fiz sobre sua testa o sinal da cruz após cheirar seus cabelos negros. Há mortos em cujo semblante imaginamos notar certos humores; eu sempre achei terrível essa idéia. Em seu rosto não se notava nada. Isso me aliviava.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando adoeceu eu me postava ao pé do leito, olhava e olhava, as mãos sempre à sua disposição. Às vezes ele as tomava, estava sempre a engolir em seco. Dizer não dizia nada, nunca mais disse. E eu percebia que todos julgavam ser eu a melhor pessoa para ocupar aquele lugar. Diziam que eu tinha a calma necessária, que eu não o oprimia com minha aflição, como o faria a mãe, que vagava pelos corredores do hospital feito um zumbi, as mãos junto à boca. Os médicos fizeram tudo, pareciam comovidos. Mas morreu numa manhã e nunca souberam dizer do quê. Acordei de um cochilo e não respirava mais. No laudo há uma descrição complicada que nunca fiz questão de entender, mas parte da família vive num embate jurídico com o hospital. De minha parte, pouco importa. A mim basta a lembrança do seu silêncio nos últimos dias, a calma com que morria, a calma, a calma com que se ia, com que se apartava de nós, aquela calma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No último dia, dizem, meu semblante era sereno e lavado de lágrimas. Chegaria a hora de gemer, de grunhir feito um animal a perda do bendito fruto pueril. Mas ali, no último dia, enquanto todos procuravam o semblante correto, as palavras corretas para a mãe desfalecida na cadeira ao lado do caixão, naquele dia eu era uma sacerdotisa. Era eu o cordeiro em cujo corpo o desespero de todos era expiado. Era eu a calma de que ninguém era capaz. E oferecia a Deus o espetáculo da minha resignação. Havia me despojado das altas exigências que me ardiam na infância e cultivado um coração modesto, envolto no cansaço redentor que me protege da amargura e me confere a brandura do olhar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A última oferta, posta no altar daquele culto, foi a dança demente da mãe que, vendo o caixão descer à terra, não se pôs a gemer ou prantear. Não. Fez outra coisa. Naquele fim de tarde escuro, sob um céu que, ironicamente, teimava em manter-se aberto, luminoso, a mãe se livrou do mal: pôs-se a dançar, levíssima. Já era uma senhora, mas dançava de modo leve e delicado, como se não tivesse feito na vida outra coisa qualquer. E dançou até que, amparada, quedou-se numa cadeira posta à beira da cova. O baque surdo das primeiras porções de terra e o sorriso calmo que nunca mais lhe deixou o rosto. A dor havia lhe despedaçado o espírito, e não parava de sorrir. Nunca mais.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;ao som de Mogwai, Explosions in the Sky e&lt;/em&gt; &lt;em&gt;Deftones.&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-116550215504562959?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/116550215504562959/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=116550215504562959' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/116550215504562959'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/116550215504562959'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/12/sagrao.html' title='a sagração'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-116318442684619890</id><published>2006-11-10T15:58:00.000-02:00</published><updated>2006-11-11T12:49:09.360-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Quem me conhece um pouco sabe de minha paixão pela obra do escritor italiano Alessandro Baricco, autor do livro que dá nome a esse blog. O conheci em 2002 e nunca mais deixei de reler seus livros. É difícil descrever o impacto de sua obra em minha vida mas me parece lícito dizer que, em certo sentido, esse livros me salvaram. Me atingiram como um tiro e essa ferida, felizmente, nunca se fechou. E é bonito pensar que há feridas que salvam. Segue um dos meus trechos favoritos, a prece do Padre Pluche, em &lt;em&gt;Oceano Mar,&lt;/em&gt; segundo romance de Baricco. Nesse livro todo mundo faz alguma coisa estranha. Ele, Padre Pluche, reza. E o faz por escrito. Espero que gostem.&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;Oração para alguém que se perdeu, e portanto, a bem da verdade, oração para mim.&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;Senhor Bom Deus&lt;br /&gt;tenha paciência&lt;br /&gt;sou eu outra vez.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então, aqui as coisas&lt;br /&gt;vão bem,&lt;br /&gt;quem mais, quem menos,&lt;br /&gt;vamos nos arranjando,&lt;br /&gt;na prática,&lt;br /&gt;no fim sempre se acha um jeito,&lt;br /&gt;um jeito de virar-se,&lt;br /&gt;o senhor me entende,&lt;br /&gt;enfim, o problema não é este.&lt;br /&gt;O problema seria outro,&lt;br /&gt;se tiver a paciência de ouvir&lt;br /&gt;de ouvir-me&lt;br /&gt;de.&lt;br /&gt;O problema é este caminho&lt;br /&gt;belo caminho&lt;br /&gt;este caminho que corre e escorre&lt;br /&gt;e socorre&lt;br /&gt;mas não corre direito&lt;br /&gt;como poderia&lt;br /&gt;e tampouco torto&lt;br /&gt;como saberia&lt;br /&gt;não.&lt;br /&gt;Curiosamente,&lt;br /&gt;se desfaz.&lt;br /&gt;Acredite&lt;br /&gt;(por uma vez acredite o Senhor em mim)&lt;br /&gt;se desfaz.&lt;br /&gt;Tendo de resumir,&lt;br /&gt;ele vai&lt;br /&gt;um pouco por aqui&lt;br /&gt;e um pouco por ali&lt;br /&gt;tomado&lt;br /&gt;de improvisa&lt;br /&gt;liberdade.&lt;br /&gt;Quem sabe.&lt;br /&gt;Agora, sem querer apoucá-lo, mas eu teria de explicar-lhe essa coisa, que é coisa de homens, e não é coisa de Deus, de quando o caminho que se tem pela frente se desfaz, s eperde, se arregala, se eclipsa, não sei se faz idéia, mas é fácil que não faça idéia, é uma coisa de homens, em geral, perder-se. Não é coisa sua. É preciso que tenha paciência e me deixe explicar. Coisa rápida, leva um instante. Antes de mais nada não se deve deixar despistar pelo fato de que, tecnicamente falando, não se pode negar, este caminho que corre e escorre e socorre, debaixo das rodas dessa carruagem, de fato, querendo ater-se aos fatos, não se desfaz nem um pouco. &lt;em&gt;Tecnicamente&lt;/em&gt; falando. Continua direto, sem hesitações, nem sequer uma tímida bifurcação, nada. Direto como um fuso. Posso ver por mim mesmo. Mas o problema, deixe-me dizer, não é este. Não é deste caminho, feito de terra e pó e pedras, que estamos falando. O caminho em questão é outro. E corre não &lt;em&gt;fora&lt;/em&gt; mas &lt;em&gt;dentro.&lt;/em&gt; Aqui dentro. Não sei se faz idéia: o meu caminho. Todos têm um, o senhor também deve saber disso, porque, aliás, não é estranho ao projeto dessa máquina que somos, todos nós, cada qual ao seu modo. Um caminho dentro, todos o têm, coisa que facilita, na maioria dos casos, a incumbência desta nossa viagem, e só raramente, complica-a. Agora é um daqueles momentos em que a complica. Querendo resumir querendo, é &lt;em&gt;aquele &lt;/em&gt;caminho, aquele dentro, que se desfaz, bendito, não existe mais. Acontece. E não é coisa agradável.&lt;br /&gt;Não. Assim agora, querendo resumir querendo, o problema é este, que tenho tantos caminhos ao redor e nenhum dentro. (...) Como vê não é que eu não tenha as idéias claras, tenho-as claríssimas, mas só até certa altura da questão. Sei perfeitamente qual é a pergunta. É a resposta que me falta. Corre, esta carruagem, e eu não sei para onde. Penso a resposta e minha mebte torna-se escuridão.&lt;br /&gt;Assim&lt;br /&gt;esta escuridão&lt;br /&gt;eu a pego&lt;br /&gt;e a ponho&lt;br /&gt;em suas&lt;br /&gt;mãos.&lt;br /&gt;E peço-lhe&lt;br /&gt;Senhor Bom Deus&lt;br /&gt;que fique com ela&lt;br /&gt;uma hora somente&lt;br /&gt;fique com ela em suas mãos&lt;br /&gt;o tanto que basta&lt;br /&gt;para desmanchar-lhe o negro&lt;br /&gt;para desmanchar-lhe o mal&lt;br /&gt;que faz à cabeça&lt;br /&gt;aquela escuridão&lt;br /&gt;e aquele negro&lt;br /&gt;ao coração,&lt;br /&gt;quer?&lt;br /&gt;O senhor poderia&lt;br /&gt;mesmo somente&lt;br /&gt;dobrar-se&lt;br /&gt;olhá-la&lt;br /&gt;sorrir dela,&lt;br /&gt;abri-la&lt;br /&gt;roubar-lhe&lt;br /&gt;uma luze&lt;br /&gt;e deixá-la cair&lt;br /&gt;que afinal&lt;br /&gt;de encontrá-la&lt;br /&gt;trato eu depois&lt;br /&gt;de ver&lt;br /&gt;onde está.&lt;br /&gt;Uma coisinha de nada&lt;br /&gt;para o senhor&lt;br /&gt;tão grande&lt;br /&gt;para mim.&lt;br /&gt;Está me ouvindo&lt;br /&gt;Senhor Bom Deus?&lt;br /&gt;Não é pedir muito&lt;br /&gt;pedir-lhe se.&lt;br /&gt;Não é ofensa esperar que o senhor.&lt;br /&gt;Não é tolo&lt;br /&gt;iludir-se que.&lt;br /&gt;E afinal é só uma oração,&lt;br /&gt;que é um modo de escrever&lt;br /&gt;o perfume da espera.&lt;br /&gt;Escreva o senhor,&lt;br /&gt;onde quiser,&lt;br /&gt;o caminho&lt;br /&gt;que eu perdi.&lt;br /&gt;Basta um sinal,&lt;br /&gt;um quê,&lt;br /&gt;um arranhão&lt;br /&gt;leve&lt;br /&gt;no vidro&lt;br /&gt;desses olhos&lt;br /&gt;que olham&lt;br /&gt;sem ver,&lt;br /&gt;eu o verei.&lt;br /&gt;Escreva&lt;br /&gt;no mundo&lt;br /&gt;uma só palavra&lt;br /&gt;escrita para mim&lt;br /&gt;a&lt;br /&gt;lerei.&lt;br /&gt;Renteie&lt;br /&gt;um instante&lt;br /&gt;deste silêncio&lt;br /&gt;eu ouvirei.&lt;br /&gt;Não tenha medo,&lt;br /&gt;eu não tenho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E que resvale distante&lt;br /&gt;esta oração&lt;br /&gt;com a força das palavras&lt;br /&gt;para além da gaiola do mundo&lt;br /&gt;até sabe-se lá onde.&lt;br /&gt;Amém.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-116318442684619890?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/116318442684619890/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=116318442684619890' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/116318442684619890'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/116318442684619890'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/11/quem-me-conhece-um-pouco-sabe-de-minha.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-116252645736979409</id><published>2006-11-03T01:53:00.000-02:00</published><updated>2006-12-07T12:37:35.056-02:00</updated><title type='text'>a calma das terras devastadas</title><content type='html'>Não seria eu quem a condenaria a uma vida que não sabia mais como viver. Não é coisa que se explique facilmente, mas o fato é que havia perdido o fio da meada. Não era força de vontade o que lhe faltava. Na verdade, o vigor lhe permanecia intacto, os olhos vivos e brilhantes. Apenas se moviam menos. Permaneciam longos instantes absolutamente estáticos. Alguma coisa ali havia se partido em tantos pedaços que não Deus poderia contar. Sabia o que tinha de fazer e o faria. E sabia que eu não a impediria, por isso nunca falou a respeito. Seguiu sua vida como se naquela engrenagem outrora tão sincronizada não houvesse peça alguma fora do lugar. Mas eu sabia que estava dando um passo depois do outro, e pra onde. É de impressionar que se leve tanto tempo para se meter uma bala no ouvido, coisa que se faz em um segundo. Ela levou anos e no último instante, tenho certeza, seus olhos ainda brilhavam, estáticos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na última noite sentou na cama e na forma como a descobriu eu soube que faríamos amor, e que seria a última vez. Estava calma e desprovida do fardo de aliviar-me da culpa que, ela bem sabia, eu carregaria por todos os anos adiante. E não era injusta essa sua calma. Eu não soube salvá-la, e ninguém no mundo saberia. O fato é que sua perdição se tornou a minha, a secura de sua língua nas noites de natal se tornou o deserto da minha boca, as vozes que silenciaram em sua cabeça durante os últimos anos, fazendo com que o último instante fosse envolto no mais absoluto silêncio, violado apenas pelo estalido seco de um tiro aguardado por anos a fio, aquelas vozes eu as rejeitei e na minha cabeça passou a se ouvir, até o dia de hoje e enquanto houver dias, uma única canção. E se me perguntassem eu diria, simplesmente, que se todas as coisas que de algum modo se salvam produzissem um som, a soma desses sons seria exatamente essa música.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Da última noite o que se mantém mais vivo e ardente em mim não é tanto a lembrança do meu sexo a penetrá-la ou tampouco a fúria com que o engolia ou as lágrimas que escorreram dos seus olhos até que o sono chegasse. Era uma despedida aquilo. O que não me deixa, na verdade, é a lembrança de sua cabeça junto ao meio peito após o ritual solene da perdição dos corpos. E uma pergunta, impiedosa e ressonante, que eu não seria capaz de responder nem em mil vidas: por que não dormimos daquele modo, sua cabeça sobre meu peito e eu, olhos cravados no teto, lutando pra não perder nada daquele espetáculo, resistindo ao sono que, no entanto, chegaria balsâmico e irremediável?&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Teria sido um belo despertar para uma última manhã.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pensava nisso quando pela manhã saí para o trabalho deixando-a ainda dormindo, os cabelos banhando a testa em graça. A sensação era a de que, desde sempre, desde o mais remoto instante no qual se formaram os mais singelos e elementares anseios, desde aquele instante inefável onde se produziu, de algum modo, a primeira carência e a primeira alegria, tudo, absolutamente tudo, achava-se na exata disposição presente. A visão de seus belos olhos cerrados - escuros, escuros, olhos escuríssimos - e a certeza de que nunca mais os veria de outro modo pareciam suspender o tempo. E talvez por tê-lo assim, suspenso, sequer notei o intervalo que separou aquele estalido do silêncio lúgubre que agora começa a me envolver - ao fundo, e cada vez mais baixa, a canção que escolhi em detrimento de todas as outras. E é uma calma difícil de entender, essa, porque começa no exato instante em que a dor nos explode por dentro. Em algum lugar já se deve ter dito que os tímpanos estouram para que os ruídos do mundo não tenham tempo de chegar ao coração de forma devastadora. Assim, em sentido oposto, essa é a calma das terras devastadas, de cujo solo estéril não brota mais que uma fumaça branda, que se espalha pelo ar e pela imensidão que cresce em todas direções, vazia. Deve ser assim no mais alto céu e nos corações que cessam de bater, exaustos. No entanto, o que não me sai da cabeça, nem ao menos por um dia, é por que, por que não dormimos daquele modo. E essa dúvida será o último vestígio de vida, gravado em fogo sobre o tecido fino do meu silêncio, quando ele chegar. Mas a isso não se chamará mais dor. A isso não se chamará.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;ao som de &lt;/em&gt;Sorglega, &lt;em&gt;do&lt;/em&gt; Sigur Rós, &lt;em&gt;claro.&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-116252645736979409?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/116252645736979409/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=116252645736979409' title='8 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/116252645736979409'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/116252645736979409'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/11/calma-das-terras-devastadas.html' title='a calma das terras devastadas'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>8</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-116053417330058659</id><published>2006-10-11T00:31:00.000-02:00</published><updated>2006-10-11T12:13:23.246-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Quando nos casamos ela me disse, com um sorriso estrategicamente posto sobre os lábios para amenizar a gravidade do que dizia, que sabia, desde o início, o risco que estava correndo. Sabia que estava edificando sua casa sobre a areia. E não precisou me lembrar da parábola bíblica na qual sábio é o homem que constrói sua casa sobre a rocha. Definitivamente, eu não era uma rocha. E aquela foi a mais profunda declaração de amor que já recebi. Não importava eu. Importava, sim, a fé que ela tinha. “No meu coração há mais fé e mais esperança do que no coração de Deus”, dizia, e sorria um sorriso leve, como se estivesse a ironizar os trajes de uma mulher que se crê irresistível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E tinha isso de dizer as coisas uma só vez. Uma calma com as palavras que era uma coisa de constranger. Dizia algo gravíssimo, algo que normalmente ratificamos, explicamos, dizemos novamente de várias outras formas, como quem violenta a linguagem para que nela caiba a gravidade do que se pretende dizer. Ela dizia uma só vez. Aos prantos ou sorrindo, em angústia ou em completa serenidade, não importava: nunca repetia algo que considerasse realmente grave. Tratava-se de algo como um pudor no uso da linguagem, como se já fosse o bastante ter lançado ao mundo aquelas sentenças. Pois que ficassem lá agora, sob os olhos de todos, como criaturas estranhas, malditas, bastardas, mas, por Deus, que não fosse necessário repeti-las. Não conseguia compreender que fosse necessário submeter os ouvidos de alguém a uma tragédia que tendo penetrado na alma através da audição já tenha por si só a característica de se multiplicar, obsessivamente. Uma sentença realmente importante repetida, uma vez que fosse, lhe parecia tão absurda quanto uma vida vivida duas vezes. Por isso nunca ouvi de novo o que ela disse certa vez, quando apagamos as luzes para dormir.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;“Você não precisa morrer disso”. Fez um instante de silêncio e seguiu dizendo as coisas com o rigor e a firmeza de quem martela pregos um atrás do outro, em linha reta até sabe-se lá onde . “Porque não é possível que não possa escolher. Com tanta vida, não é possível que no final você tenha mesmo que morrer assim, de forma tão lenta e poética, mas ainda assim morrer, só porque o mundo é enorme e porque a vida é uma sandice. Pelo amor de Deus, não é possível que seja assim. E só porque penso isso é que cheguei até aqui, só porque não creio na necessidade de uma morte tão tola é que me resignei a ver os seus olhos desse jeito. Olhe pra esses seus olhos! São ocos! Quando já tivermos anos atrás de nós e de repente você...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;por Deus, eu não me surpreenderia...”&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nunca terminou de dizer e eu, atendendo ao recato, nunca mais toquei no assunto. Queria dizer a ela que as coisas mudariam, que já estavam a mudar! Queria falar a respeito da nova virilidade do meu espírito, do precário e provisório vigor sobre o qual eu estava erguendo uma vida simpática e suficiente. Queria dizer a ela que a minha vida estava mudando e ficando cada vez mais parecida com a modesta cozinha do nosso apartamento.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E foi com certo alívio que notei, com o passar do tempo, que ela me sorria enternecida pelos meus progressos, orgulhosa daquele meu silêncio que decerto supunha ter algo em comum com a segurança que ela sentia nas palavras silenciadas. Sorria como que dizendo o quanto apreciava os meus novos olhos. Podiam melhorar, mas estavam indo tão bem! E além disso ela nunca exigiu de mim que eu tivesse olhos bons – tinha uma mania de contrariar os conselhos bíblicos -, deles queria apenas que fossem vivos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Cheguei a entender que seus silêncios eram o fruto de um coração traspassado pela vida, vinculado a esse a esse chão, ao pó da terra, por mil fios inquebrantáveis. Nada a ver com alheiamento. Hoje, quando me protejo da vida abdicando de dizê-la até à exaustão, seu sorriso sempre me vem à memória. Naquele silêncio, com o qual ela domava a amplitude do mundo, o verbo se fez carne e foi redimido.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-116053417330058659?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/116053417330058659/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=116053417330058659' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/116053417330058659'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/116053417330058659'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/10/quando-nos-casamos-ela-me-disse-com-um.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-115994216621367768</id><published>2006-10-04T01:51:00.000-02:00</published><updated>2006-10-07T00:18:53.366-02:00</updated><title type='text'>Sobreviver no silêncio</title><content type='html'>Eu tenho um problema com o silêncio. Não com o silêncio em geral, afinal moro sozinho, não gosto de lugares muito barulhentos e não guardo muita simpatia por gente falastrona - digo aquele tipo de gente que não consegue conferir à sua verborragia algo que a torne mais que um fim em si mesma; que esse "substrato" seja um encadeamento de argumentos inteligentes, uma tonalidade de voz agradável ou um par de olhos verdes, pouco importa. É a um tipo específico de silêncio que me refiro: aquele que é o índice claro de uma distância. Pensei um pouco sobre isso e não me parece que todo silêncio possa ser assim descrito. Há silêncios que, ao contrário, indicam uma proximidade. O silêncio, às vezes, é o único fio capaz de ligar dois pontos aparentemente inassociáveis dentro de nós ou entre nós e o outro - entre nós e o mundo. Há, portanto, silêncios que são repouso e silêncios que são tormenta. Tanto a plenitude quanto a alienação mais aguda podem ser silenciosas, imagino.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A questão se colocou a mim, entre a fumaça do cigarro e os fragmentos poéticos de Walter Benjamin, sob o prisma da escolha. O silêncio que agora me ronda tem cheiro de distância e me levou a lugares mais graves, talvez mais abstratos e problemáticos do que aqueles do qual partiu. E justamente por isso me traz à mente um outro (tenho descoberto que são vários, talvez incontáveis): o silêncio-distância que é imposto seja lá por que força irremediável. Parece-me que uma tal mudez geralmente conduz a um sofrimento exorbitante, no seio do qual, muito provavelmente, há de haver um grito lancinante... e surdo. A constatação aterradora de que seja possível um tal grito pode constituir uma escala que funcione para medir a dor e o sofrimento. No entanto, se pudéssemos ter em mãos tal escala - na forma de uma fita métrica? - talvez não corrêssemos a debruçá-la sobre algum episódio específico, particularmente doloroso. Talvez buscássemos identificar, mais que qualquer outra coisa, os "números" assinalados nos dois extremos da escala. Mas aqui minha metáfora se auto-implode. O que procuraríamos a todo custo não seria tanto o limite superior da escala. Nele, não é difícil supor, não há qualquer algarismo, e sim uma imagem: a da caveira com ossos cruzados. O que buscamos é o número que jaz exatamente abaixo desse algarismo: o nosso limite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas o silêncio do qual agora me ocupo - com tantas palavras - é aquele cuja extinção podemos buscar promover como numa aposta com razoável possibilidade de sucesso. Caso não se consiga rompê-lo paga-se com algum constrangimento, com algum desconcerto e com a ansiedade sobre a possibilidade de que ele se perpetue, assuma outras formas, mais nocivas, cuja não-extinção haveria de culminar no referido grito lancinante. É o silêncio que aflige, por exemplo, os amantes quando suspeitam pairar sobre o amor algo de sombrio sem que se possa confiar plenamente nos juízos - ou na honestidade - que uma e outra parte possam ter do fenômeno que, ademais, pode conter um sem-número de mal-entendidos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O que me chama a atenção é o possível caráter pedagógico desse silêncio-distância, mais prosaico e corriqueiro. Talvez ele tenha algo a nos dizer sobre aquele outro que nos leva ao grito lancinante, ao limite de nossas forças ou para além dele e de tudo o mais. Porque tanto é intensa a nossa necessidade de conferir forma à nossa existência, de conferir ordem e &lt;em&gt;sentido&lt;/em&gt; à experiência, quanto nos é urgente a capacidade de guardar silêncio quando toda palavra nos é vetada pela dor, pelo absurdo e pela solidão. E talvez o termo &lt;em&gt;pedagógico&lt;/em&gt; se mostre aqui um excesso. Porque o que daqui se apreende não é tanto uma lição quanto uma descrição: quando a vida, num momento extremo, nos privar de toda e qualquer palavra o que nos restará se não a capacidade de guardar silêncio sem desabar? Não seria isso o que Nietzsche tinha em mente quando forjou o conceito de &lt;em&gt;força plástica&lt;/em&gt;? O termo &lt;em&gt;resignação&lt;/em&gt; parece pertinente para expressar a matéria desse silêncio, mas não o esgota. Sua fórmula exata, sua essência, assim como a receita para obtê-lo, nos permanece inacessível. Nos resta, portanto, apontar para as pistas que temos com dedos trêmulos nesse procedimento alquímico e quixotesco que é a busca por algo que possa encher de sentido essa palavra que tantas vezes nos parece vazia: &lt;em&gt;força&lt;/em&gt;. De minha parte suspeito que seja saudável treinar. Treinar o silêncio para o dia em que ficaremos mudos. E assim, talvez, tenhamos força para aguardar que as palavras retornem pouco a pouco.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não se pode exigir de ninguém que suporte o silêncio irremediável, que saiba calar, que saiba cultivar, na tormenta, a surdez que compõe um par apaziguado com o silêncio que nos é ifligido. Mas dessa aposta não se pode abdicar: no limite, sobreviver é saber calar.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-115994216621367768?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/115994216621367768/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=115994216621367768' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/115994216621367768'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/115994216621367768'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/10/sobreviver-no-silncio.html' title='Sobreviver no silêncio'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-115758261191888461</id><published>2006-09-06T20:41:00.000-02:00</published><updated>2006-09-16T17:10:11.370-02:00</updated><title type='text'>A Santa Ceia</title><content type='html'>Não era fácil ser o único ali a ter olhos para vê-la. Os outros não sabiam de nada, não mediam os espaços vazios, não sabiam daquela imprecisão toda, do inferno que era aquilo. Era penoso não odiar aquela gente. Dar a todos o perdão que ademais deviam merecer, por toda aquela ignorância. Não podiam mesmo saber. Era um desencontro de corações aquilo. E ela morria sob aqueles olhos cheios de certezas. Ainda tinham a vida domesticada sob as mãos, haviam se ferido pouco. Ou tanto que não podiam fazer outra coisa que não escolher inconscientemente uma mentira qualquer que tornasse a vida possível. Eram inevitavelmente desonestos com suas feridas. De minha parte, nunca consegui manter um coração homogêneo ante a visão daquela gente que nos visitava cheia de juízos, cheia de salvações na ponta da língua. Nunca consegui me livrar da piedade que senti por todos desde a primeira vez que os vi. E nunca pude deixar de sentir asco. É uma gente que sofre, que anda num deserto de décadas como o povo sob a égide de Moisés. E, como aqueles, crêem que o Messias os guarda e provê um sentido último para tanta miséria e mediocridade. Por isso são altivos. A visão de um Deus lhes feriu os olhos com uma fúria redentora, tão precisa, tão meticulosa que nunca mais souberam o que era de fato indignidade. Perderam a vergonha. Porque para toda aquela merda, para todo aquele monumento de fracasso havia uma redenção absoluta. O Deus que eles tentavam esfregar na cara de Ana e de quem mais julgassem necessário, com aquela polidez de dar nojo, esse Deus era o lastro no qual encontravam licença para viver. Todos muito bem educados. Pudesse eu, daria minha vida para que fossem salvos. Que fosse eu o bendito Messias!, mas que não fosse uma verdade assim tão inegociável o fracasso de uma geração apodrecendo mascarada e ferida, sufocada e temente a Deus.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Certa vez estávamos à mesa, aniversário de Ana no segundo ano de casamento. Estavam todos, o Pai, a Mãe e os irmãos mais novos, Lucio e a pequena Clara. Ana estava contente, havia acabado de entrar no jornal, o salário não era mal, os pais estavam orgulhosos. Comemoravam as bençãos de Deus sobre ela. O Pai pediu um minuto, quando todos haviam acabado de se servir e fez um breve silêncio, como se quisesse apreciar a ansiedade que todos deviam demonstrar pelas solenes palavras que estavam por vir. Falou sobre como era importante aquele dia no qual comemorávamos a vigésima terceira primavera da nossa querida Ana. Queria repetir o quanto amava a filha que com tanto esforço e dedicação foi criada. Havia sido ensinada nos bons caminhos, enquanto era jovem, para que deles não se afastasse jamais! Havia recebido o melhor daqueles pais que não sabiam muita coisa – e o disse esboçando um sorriso modesto – mas que entendiam de amar. E isso, filha, isso eu e sua mãe fizemos com todas as nossas forças. E é com coração jubiloso que estamos aqui hoje pra te dizer: Sê feliz, minha filha, sê feliz! E não se esqueça, nunca, que a paz, a força, o verdadeiro vigor e a verdadeira felicidade estão aos pés do Deus altíssimo que te conhece desde o ventre materno, que te modelou com cuidado e amor e que não se esqueceu de ti. Um dia, Ana, vc voltará a ele. Nós cremos nisso, e de ante-mão celebramos. Viva nossa Ana! E todos romperam em palmas, a Mãe tremia os lábios e fitava Ana com uma alegria sofrida, com um par de olhos que parecia temer mais que qualquer coisa a infelicidade daquela menina, que havia crescido daquele modo, que estava casada, com emprego e tudo. No olhar da mãe havia o temor de que nada daquilo fosse o bastante,  de que no fundo a pequena Ana não houvesse crescido,  de que não houvesse nela força o bastante. A Mãe, tão mais modesta em suas ambições, temia a visão dos cacos de Ana como talvez temesse o inferno. E batia palmas com as mãozinhas pequenas, parando às vezes pra enxugar rapidamente as lágrimas que empatavam a visão. Por fim, diante daquilo tudo, pus-me a chorar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não podia suportar mais nem um minuto toda aquela miséria, toda aquela dignidade forjada, aquele esforço que fazia o Pai para ser digno, para ser grande, aquele fracasso, aquela mesquinharia que se insinuava em cada gesto. E aquele amor, que matava aquela gente, que lhes roubaria a vida ante a visão da degenerescência de seu fruto amado, a bela e desviada Ana. A maneira como usavam o termo sem sequer pensar, a forma como diziam sabemos que você não será pra sempre uma desvida, filha; a inconsciência que tinham do poder devastador daquele termo - DESVIADA! E a própria Ana que tomava as mãos da mãe por sobre a mesa, como que numa promessa, como se quisesse fazê-la saber que viveria. O esforço que fazia para respeitar aquele mundo para o qual havia dado as costas sem remorsos, para dissimular a distância irreparável que a separava deles. Foi, portanto, natural que a certa altura as lágrimas me tomassem os olhos. E todos me olharam com surpresa, principalmente Ana. Não esperavam de mim muito apreço pelas palavras do Pai, que eu recebia sempre com educada indiferença. Não podendo deixar transparecer a agonia que me acometia fitei a todos, meio atônito. E quando as palmas  já haviam cessado soltei o meu brado de Viva a nossa Ana! E minhas palmas! E todos me acompanharam e o jubilo se fez enorme e a Mãe e o Pai sorriam surpresos.Também sorriu Ana, com olhos absolutamente aflitos. Nunca diria uma palavra sobre aquilo, como que numa demonstração de respeito à minha vergonha. E talvez fosse uma forma de agradecer, porque sabia que não era fácil ser o único ali a ter olhos para vê-la.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-115758261191888461?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/115758261191888461/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=115758261191888461' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/115758261191888461'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/115758261191888461'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/09/santa-ceia.html' title='A Santa Ceia'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-115515563071775114</id><published>2006-08-09T17:39:00.000-02:00</published><updated>2006-12-30T01:44:10.860-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;em&gt;O c.m.i. (centro de mídia independente) tem um slogan muito bacana: "Odeia a mídia? Torne-se a mídia!" Eu acho que a tortura de inocentes e a literatura de auto-ajuda são duas das coisas mais abomináveis que já se inventaram. Pois bem. Eu decidi fazer minhas próprias considerações no sentido de ajudar o meu próximo a encontrar o caminho pra uma vida mais leve, mais bonita, mais rosa e com uma música do Kenny G. ao fundo. Tá aqui o meu primeiro texto de auto-ajuda. Sejam felizes! &lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;&lt;/em&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;div align="center"&gt;&lt;em&gt;***&lt;/em&gt;&lt;/div&gt;&lt;br /&gt;Eu moro sozinho, mas mesmo assim costumo passar as tardes numa biblioteca. Não é que eu não goste do meu ap à tarde. Ele é tão cúmplice, como não amá-lo? Mas é que eu preciso de silêncio pra ler. Não havendo eu leio mesmo assim, mas se poss0 escolher fujo do barulho dos carros em direção à biblioteca. Morar sozinho é uma coisa deliciosa, mas pode mexer muito com a sua personalidade, ou com seu humor. Eu, por exemplo, ando cada vez mais sistemático e reservado. Mas é bom. É uma auto-delimitação bastante confortável.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois então: hoje foi dia de comprar livros. E são sempre tão simpáticos e festivos os dias de comprar livros! Comprei Weber, Ana Cristina Cesar e Amós Oz (um romancista israelense, radicalmente anti-sionista, que está há algum tempo na lista dos meus favoritos). E fui pra biblioteca.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ai, a A.C.C. é de uma sensualidade tão dolorida! Tão sensível e ao mesmo tempo de vínculos tão frágeis com a vida... Pois estava eu a ler uma carta dela quando me pus a pensar que há, basicamente, três modos de viver a vida. Um deles é traçar planos, metas existenciais, acerca daquilo que se quer viver, daquilo que se quer ser, e persegui-las com fúria e método. Na minha humilde opinião esse caminho conduz à loucura. Pode até ser uma loucura mansa, mas há de enlouquecer quem encasquetar de atender à risca a um ideal de vida, de si mesmo, de morte que seja, há de enlouqucer alguém assim. É simplificar demais a si mesmo e à vida. Um outro jeito, que se localiza no extremo oposto, é viver sempre imerso na inquietude de não conseguir se delimitar minimamente, de nunca saber o que se quer, de estar sempre perdido em si mesmo. Nada mais recorrente. Mas isso, a certa altura, também enlouquece. Os vínculos com o mundo vão ficando cada vez mais frágeis, uma vez que cada vez mais desprovidos de sentido. Sofre-se horrores. Mas há um terceiro modo, que se situa entre ambos, pelo qual passei a nutrir certa simpatia. Exige certa resignação, certa modéstia da alma, mas também certa disciplina contra a crueldade. Cultivar sonhos menos precisos, ser mais generoso com as contigências e, em certo sentido, endurecer um pouco o coração. Aprender a cultivar um paladar menos melindroso. A disciplina tem a ver com o fato de que uma vida assim talvez exija um pé sempre um pouco atrás e isso pode deixar a gente amargo. E daí é muito fácil nos tornarmos cruéis. Talvez corações cançados tenham uma ligeira propensão à crueldade... O fato é que poucas coisas me assustam tanto quanto a nossa capacidade de ser cruéis.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que essa minha fórmula é uma receita de como se proteger dos efeitos nefastos da frustração, é óbvio. Que seu alcance é bastante limitado deve ser igualmente óbvio. Mas ainda assim me parece a melhor opção. É se entregar um pouco mais à vida e, talvez, tornar-se um pouco mais generoso com os outros e consigo mesmo. Como conseguir isso é o que não ouso prescrever. Imagino que a constituição psicológica e emocional de cada um impõe sérias limitações ao tipo de vida que se quer viver. Mas minha esperança é que isso nos torne mais aptos não apenas à beleza, mas também à miséira. Porque nós chegaremos lá, isso é certo. E eu não consigo pensar na vida sem essa preocupação: quero me proteger da crueldade. Quando a dor chegar, horrenda e inegociável, embaralhando o fôlego e os pensamentos, gostaria de me preservar. Mas não sendo possível, que ao menos eu destrua poucas coisas ao meu redor. Uma porção de resignação, sempre. Pra proteger o coração. No limite, resignação é força, é uma forma de ser cruel com nossas próprias carências, com o desejo por vezes imprudente de que a vida seja outra. Ou você imagina algo mais capaz de nos proteger do desespero? Eu não.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-115515563071775114?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/115515563071775114/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=115515563071775114' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/115515563071775114'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/115515563071775114'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/08/o-c.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-115214505747390335</id><published>2006-07-05T22:16:00.000-02:00</published><updated>2006-07-11T13:33:38.476-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;p&gt;&lt;strong&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;O chão que se move&lt;/span&gt;&lt;/strong&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aquilo era constatação. Instante duro que vem e que fica, inóspito. É preciso imagnar o que seja um instante inóspito, um minuto no qual não se pode estar, não há lugar. Naquele fragmento de tempo em que não se pode viver e no qual o coração lhe deseja boa sorte, naquele tempo suspenso e inadjetivável, ela era constatação. Um monumento de certeza o vento havia depositado aos seus pés.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E temia, temia como um animal as distâncias que haviam se instituído dentro de si. Estava bem e não tinha dúvida, responderia a quem quer que lhe perguntasse! Que perguntassem! Estava bem pra caralho mas não se aquietava. Ela feito um demôniozinho obcecado pela busca de uma certeza e no fundo da cabeça uma voz que diz “it takes dedication, it takes dedication”. Porra nenhuma que as coisas se salvariam por si só. Tinha limpado o céu, tinha apagado Deus daquele trono de merda. E tinha apagado o trono. E aquela dor só mudou de nome, uma faca d’outro corte.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Nada errado com o céu vazio. Era assim que se encontraria só e nua diante de si. Lúcida. Feito um demônio de olhos abertos. Descia porque sabia que não dava pra se acovardar agora. Descia e já não olhava pra cima. Era hora de chafurdar e ser honesta. Que fosse imaginação não importava, que fosse um sonho aquilo, um pesadelo voluntariamente vivido, tanto melhor. Seria grande e boa. E boa. No fim diriam que foi sábia, ou sã, ou terna. Porque se não fugia mais de si, não haveria nada que pudesse dar errado. Tinha de funcionar assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O problema é que demandava tanto fôlego aquilo. Alargar os limites de um instante pra fazer caber nele um pedaço maior da vida. Pedir dos instantes com olhar de mágoa que sejam maiores! Que sejam algo mais elástico e vital, algo mais que essa merdinha que se vai e se vai. E que não me envergonhem assim. Pedir dos instantes uma sandice dessas, quanta injustiça.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque o tempo não pertencia ao demônio. Antes fosse e sentiria violada, vilipendiada, usurpada sob as mãos daquele que veio pra roubar, matar e destruir! A porra do capeta mal pra caralho que lhe serviria de álibe, que lhe pouparia da acusação de fracasso, o merda do capeta era uma farsinha xoxa. E de uma cafonice sem fim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque como é que não percebiam que acreditar no capeta é de um mal-gosto sem fim? A pequena Ângela acreditara. E o fizera com tanto vigor, com tanta fúria, com tanta resignação que até hoje o demônio lhe roubou a alma, no fundo é nisso que acredita. Ou a vida, as circunstâncias, os outros, os amores, a merda dos amorezinhos de merda que ela emporcalhou com aquela mão trêmula. Foram sempre os demônios mas nunca ela!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E agora era toda constatação. Interrompera o movimento descendente e respirara fundo. E os olhos ficaram tão cheios e comprimidos por dentro, como se fossem saltar da cavidade, que não fora capaz de tecer juízo. O tempo não era outra coisa que não o tempo, simples e objetivo. Não era de bom tom adorná-lo com tantas explicações. E como lhe doía, nas vísceras, a certeza de que era uma máquina de confeccionar mitologias. Sagas inteiras. Um espírito faminto, grosseiro, deseducado, que quer engolir a vida feito um morto de fome, um indigente, um ninguém-sem-nada. Engolir a vida numa ansiedade, numa euforia de dar nojo. A porra toda era uma questão de gosto, afinal. E se pegava sentindo-se culpada por essa fome doida de viver. Achava elegante saber morrer. Se contentar com a vida sem grandes escândalos, sem chamar a atenção de deus e o mundo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E quando sentia que era vaidade aquela finessem toda o chão punha-se a mover de novo de sob os seus pés. E ela franzia a testa esboçando coragem, como o garoto que quer provar que a picada não lhe ofende tanto assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De repente, pifava. Era de uma vez e parava. Agora não havia mais instante nem nada. Uma impaciência quieta, não por causa do ponteiro imóvel na parede ou devido ao ar invariável da sala velha. Impaciência pelo coração que já vai começar a beter, e que comece logo, que não faça cena. Parar com essa coisa e voltar pois o que de mais digno e imortal há em nós se levantou. Aquela certeza, nova constatação sempre repetida, que vem e diz cala a boca e respiara fundo criança, não chore agora e economize esse ar que a vida vem lá.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então no fundo do peito ouvia-se um barulho como de engrenagem. Quando pela primeira vez era de dar aflição, não se sabia se a coisa ia pegar. Mas ela velha no alto de sua certeza não esboçava receio ou tristeza. E de repente fazia-se apenas um ruído aveludado e regular, acompanhado da batida do coração que retomara prumo e seguia feito potro sarado.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Subia degrau por degrau e preparava os olhos para a luz que viria quente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mordia os lábios com calma dignidade. A superfície era seu destino e quando lá chegasse expiraria o ar que guardara sob recomendação e seria dia e haveria chuva ao entardecer. Nas ruas as pessoas. E ela já não mencionava nada que estivesse fora do lugar. Tudo certo como antes. Sorria quieta o dia num sorriso veloz. Os olhos não doíam e não havia nada que se parecesse com medo. Era forte como um carvalho. Não temia a terra seca sob os seus pés.&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-115214505747390335?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/115214505747390335/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=115214505747390335' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/115214505747390335'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/115214505747390335'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/07/o-cho-que-se-move-aquilo-era-constatao.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-115206074900116891</id><published>2006-07-04T22:51:00.000-02:00</published><updated>2006-10-04T04:22:55.826-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Aquele silêncio era uma prece e aquele apertar de olhos uma súplica e aquele ranger de dentes a expectativa paralisada de que alguma coisa sobrasse da fúria com que aquela vida lhe atravessava. Porque dois olhos e dois ouvidos, um corpo e um pensar, eram pouco pra uma vida tão exuberante e invasiva. Ou foi o coração que perdeu a conta dos instantes e a medida das paixões e ficou assim tão tolo, sempre aquém ou além da vida - sempre com menos do que precisa ou mais do que pode suportar. No meio daquele terror, subjugada por aquela beleza insuportável e sem nome, rogava por misericórdia com o corpo trêmulo e imerso na consciência dos próprios limites. Uma consciência que, de tão aguda, levava o nome de ausência. Misericórdia! Que alguma coisa restasse. E que entre essas coisas uma delas tivesse o seu próprio nome. E que fosse ela, viva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;ao som de Godspeed You Black Emperor&lt;/em&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-115206074900116891?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/115206074900116891/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=115206074900116891' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/115206074900116891'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/115206074900116891'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/07/aquele-silncio-era-uma-prece-e-aquele.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-115144981115421571</id><published>2006-06-27T21:09:00.000-02:00</published><updated>2006-10-04T04:20:47.203-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Eu dizia que é preciso saber viver em todos os cômodos da casa. Eu me perguntava quanto de mim teria que perder até achar a medida certa do silêncio. Calar-me sem sentir o gelo a me envolver. E nunca consegui dizer se era pavor ou arrogância o que me fazia querer encontrar a pergunta certa. Eu dizia que era justo e sábio visitar de vez em quando o velho quarto onde três gerações sacrificaram crenças e paixões. E achava-me disposto a perdoar-me caso a justiça e a sabedoria não se dobrassem em graça sobre mim. Eu me daria o perdão merecido caso a vida não aprovasse minhas tentativas de ser forte. Eu dizia e pensava que é um deserto quando a única indulgência com que se pode contar é o sua própria - porque perdoar a si mesmo é sempre uma guerra ingrata. &lt;?xml:namespace prefix = o /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;E eu me gabava de ter desistido um pouco da vida, daquela vida absoluta e salva, e agradecia a Deus por ter colocado em meu coração a modéstia que faz os cegos chorarem gratos por cada mísero som que lhes chega ao ouvido. Porque eu era pavor e os meus olhos estouravam a cada manhã Deus untou minha fronte com a lentidão e essa ausência de pressa tornou-se um novo sacramento para corações debilitados. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Ele me ensinou a ser doente e expulsou de mim sete demônios que me faziam almejar a santidade. E disse-me que era pecado querer ser são. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Desde então o velho quarto permanece de portas destrancadas. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;E Deus desapareceu.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-115144981115421571?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/115144981115421571/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=115144981115421571' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/115144981115421571'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/115144981115421571'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/06/eu-dizia-que-preciso-saber-viver-em.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-115023773478446263</id><published>2006-06-13T20:22:00.000-02:00</published><updated>2006-06-14T12:09:55.020-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;1.&lt;/span&gt; Ela só queria saber como um par de olhos pode prometer tantas vidas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;2.&lt;/span&gt; Descobriu que viver era um trabalho de alquimista: encontrar a fórmula exata de uma matéria indestrutível.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;3.&lt;/span&gt; Ouviu que a indestrutibilidade é a imagem de desejo com que Lúcifer embalou os sonhos de todas as gerações.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;4.&lt;/span&gt; Boa parte de tudo aquilo que se pode chamar de "patético" é uma tentativa obstinada de não morrer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;5.&lt;/span&gt; É preciso saber morrer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;6.&lt;/span&gt; Mais delicadeza. Porque é preciso certa feminilidade no viver.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-115023773478446263?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/115023773478446263/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=115023773478446263' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/115023773478446263'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/115023773478446263'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/06/1.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-114888691384681989</id><published>2006-05-29T04:16:00.000-02:00</published><updated>2006-05-29T23:55:41.546-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;De como escrever aquela música que você gostaria de ter escrito mas que, infelizmente, já existe&lt;/span&gt; ou &lt;span style="font-style: italic;"&gt;De como fazer especulações estético-ontológicas feito um zumbi até às 04:15 da manhã.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1913 morreu Cyrus Jones, que havia feito seus bisnetos acreditarem que era possível viver até os 103. Mas quando se é uma criança 103 anos são uma eternidade. Portanto Cyrus Jones, que havia nascido em 1810, viveu por toda a eternidade.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1903 nasceu Muriel Stonewall, que perdeu os dois filhos na Segunda Guerra. Agora, veja bem, ninguém deveria ver os próprios filhos estirados no chão, digo, ninguém deveria enterrar seus únicos dois filhos de uma vez. Muriel Stonewall morreu em 1954.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em 1967 nasceu o pequeno Mikey Carson, que correu feito o diabo em sua bicicleta ate o dia em que morreu, em 1975. Quando crescer quer ser o Sr. "Vertigo" em seu trapézio voador.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que seja rasa a minha cova. Para que eu possa sentir a chuva.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Esse texto consiste numa tradução livre (e diletante) que fiz da música &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Gravedigger&lt;/span&gt;, do álbum &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Some Devil&lt;/span&gt;, do (genial) Dave Matthews. Nunca havia realmente prestado atenção nela, apesar de conhecer a música há bastante tempo. Apenas uma frase sempre me chamou muito a atenção, de modo que a guardei na memória: "she lost both of her babies in the second great war". Hoje decidi lê-la inteira.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu não sei com vocês, mas comigo acontece, às vezes, de uma música não me deixar dormir. Eu, que não tenho insônia, fiquei horas envolvido pelo teor altamente imagético da canção, mesmo enquanto fazia outras coisas que não examinar obsessivamente a letra destrinchando seu desenvolvimento, sua mobilidade e dramaticidade crescentes. Percebi logo que seria um desperdício uma tradução literal, então adaptei algumas coisas, limitando-me ao aspecto formal, evidentemente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Essas histórias curtíssimas, até certo ponto ordinárias, foram algumas das coisas mais bonitas que li nos último tempos. Eu poderia até explicar o porquê. E vocês poderiam até entender. Mas não ia adiantar. Trata-se dessa experiência que parece trazer em si a marca indelével da modernidade: o prazer estético - remetendo o termo aqui especificamente à arte - envolto nesse tipo peculiar de solidão que é a solidão urbana, à qual estamos todos condenados em alguma medida. O êxtase artístico deve mesmo ser algo mais modesto para nós do que para aquelas gerações que não tinham outra alternativa para gozar a Nona de Bethoven que não se dirigir ao concerto mais próximo, ou seja, a um evento essencialmente coletivo - se é que há, nesse sentido, eventos individuais. Mas nessa modéstia parece residir também certa glória que talvez não caiba a outras gerações: é que para nós, os filhos do tempo que se vai, o prazer estético parece situar-se sempre num ponto de convergência entre o que entendemos como mais sublime e o que sabemos ser o mais ordinário, como se esses dois "níveis" se condenassem e se redimissem incessantemente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Talvez no fim, digo, na cabeça de cada um que se encontrar diante do próprio fim com tempo o bastante pra pensar na vida que se vai, um desses níveis há de prevalecer. A resposta à pergunta sobre qual seria no caso de cada um de nós equivale à resposta a uma outra pergunta, sobre se conseguiremos ou não morrer em paz. Embora acabe de me ocorrer que não deve ter havido sorte que tenha excedido uma síntese desse dois níveis: o sublime e o ordinário se iluminando mutuamente. A mesma lógica que agora a pouco eu atribuí à vida. Porque se nos ativermos ao aspecto essencialmente orgânico da morte não podemos supor que o sublime possa triunfar isoladamente. A "paz na morte" deve ser algo como a sensação de uma precariedade redimida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Por Deus, eu preciso dormir.&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-114888691384681989?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/114888691384681989/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=114888691384681989' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114888691384681989'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114888691384681989'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/05/de-como-escrever-aquela-msica-que-voc.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-114887276364146386</id><published>2006-05-29T01:14:00.000-02:00</published><updated>2006-05-31T00:52:58.800-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Era dos que gostam de se aproximar das pessoas escolhendo descontraídamente as palavras, como quem salta sobre pedras na travessia de um riacho, com um olhar no qual coexistem divertimento e tensão, afinal, tem-se em conta a água que corre e corre, ruidosamente, como um alerta.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-114887276364146386?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/114887276364146386/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=114887276364146386' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114887276364146386'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114887276364146386'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/05/era-dos-que-gostam-de-se-aproximar-das.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-114870148314358531</id><published>2006-05-27T01:44:00.000-02:00</published><updated>2006-05-27T11:28:57.410-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="FONT-WEIGHT: bold"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;IV.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Se me contassem eu não acreditaria, tamanha a obviedade. Porque para além da angústia, da estupidez, da pobreza dessa cena, há, antes de tudo e em cada detalhe, certa obviedade. Cada fôlego é um clichê e é com profunda vergonha que me percebo imerso nesses pensamentos. Aliás, talvez seja esse o único elemento sempre novo, sempre renovado e inédito: a vergonha que dissimulo em mil outras formas. Porque para cada constrangimento que me acomete sem que as pessoas a minha volta possam notar eu tenho uma expressão correspondente, um sorriso, um gesto, um franzir de testa. Tudo absolutamente falso e de uma eficácia a toda prova. E se outrora esse dom me pareceu um desvio de caráter hoje me alegro no fato de que aprendi a me esconder um pouco do mundo, na medida certa. Aprendi o tempo, o tempo certo do meu recolher. Não costuma falhar e quando falha corro em meu próprio socorro, deslizo os dedos sobre meu semblante inacreditavelmente jovem – foi um piscar de olhos o tempo, foi uma dança rápida, e ninguém poderá nos culpar por não termos nos atentado às exortações daquela gente cheia de cicatrizes – deslizo os dedos por meu próprio rosto e me perdôo. E quando o perdão não vem, quando não consigo fabricá-lo em mim, aquieto-me, encolho-me e espero o tempo passar. Assim deitado, vendo o tempo que se vai, tempo furacão, lembro-me dela, Senhora segura em seus ditados, força erigida com a montanha dos anos, sabedoria, sabedoria, mesmo quando equivocada, força e beleza naquelas rugas, estaria sempre certa, mesmo contra todo o mundo, e me dizia pra não me deixar levar assim, pra não deixar o coração em paz quando começasse a bater devagar. Dizia “é preciso anima-lo meu bem, é preciso ensiná-lo a não dormir, porque não se engane meu bem, um coração que dorme não acorda jamais”. E quando é que eu vou entender como ela pôde acreditar que seu coração permaneceu sempre desperto? O que sabia ela sobre o sono? Ela, aquele monumento. No fundo eu sabia, era sobre minha mãe que falava. Aquele coração que adormecera exausto. Porque não há agora desespero nem nada, porque me deito para ver o tempo passar e prometo-me levantar, apenas me deixem reposuar sim?, por Deus, um minuto, porque não há agora nada que me mova sonharei com calma um ritmo adequado para os meus pés, ritmo que não desfaça o coração sonolento, que não desmantele meus mecanismos de proteção, que não me faça esquecer as mentiras que inventei para me proteger da solidão e da vergonha. Assim, sobre mim pesa apenas o pecado de caricaturizar o indizível, essa blasfêmia logocêntrica. Mas não há quem me condene. Estão todos zonzos demais e eu posso sorrir em paz vendo essa dor que se vai como veio: do nada. Tudo de uma obviedade desconcertante.&lt;?xml:namespace prefix = o /&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="FONT-WEIGHT: bold"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-114870148314358531?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/114870148314358531/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=114870148314358531' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114870148314358531'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114870148314358531'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/05/iv.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-114826627650586508</id><published>2006-05-22T00:50:00.000-02:00</published><updated>2006-05-26T00:10:38.656-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;strong&gt;Considerações sobre a arte e o abismo&lt;/strong&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Há de fato algo de indizível, algo de inefável, algo que nos envolve e nos escapa. Há tempos que penso que a única obra de arte que vale a pena é aquela que nos aproxima desse silêncio, não para dizê-lo, mas para arriscar-lhe uma interpretação. Acho que um dos méritos da arte é, além de nos situar no mundo, nos livrando do deserto da incomunicabilidade, nos tornar mais destros no manuseio dos apetrechos que inventamos para tornar a vida possível. Porque se boa parte da dignidade da vida reside no fato de que a inventamos como que brincando em torno de um poço no fundo do qual todas as questões referentes ao ser jazem insolúveis, então muito da beleza da arte talvez esteja no fato de que ela pode ser, em última instância, um modo de viver assim, à beira do abismo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-114826627650586508?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/114826627650586508/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=114826627650586508' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114826627650586508'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114826627650586508'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/05/consideraes-sobre-arte-e-o-abismo-h-de.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-114825198956285525</id><published>2006-05-21T20:46:00.001-02:00</published><updated>2006-05-24T14:37:21.256-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;font-size:130%;" &gt;III.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;Nada a ver com destreza, isso descobrira. Nada a ver com a habilidade em manusear os pedaços de mundo que lhe caiam nas mãos. O que faltava era gênio, uma forma fabulosa de conectar dois ou três pedaços da vida de um jeito tal que alguém diria: “como diabos essa menina fez isso”? Queria compensar todo o desarranjo com a criação de uma beleza irrevogável, resistente a tudo, e que a tudo infectasse, uma beleza que fosse violência e vingança, o último lastro de dignidade para quem foi feita em pedaços.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Porque isso eu já sei: estou feita aos pedaços e apenas meus olhos permanecem inteiros. Com eles vejo os cacos de todos e encontro minha paz. A paz modesta de quem aquietou um monsto dentro de si. Aquelas canções que minha mãe me ofertava no seu culto de mãe enquanto, olhando-me nos olhos esquecia que o mundo era mundo, aquelas canções que se grudaram dentro de mim como uma profecia indecifrável – profecia de quê Deus meu? –, elas me salvaram quando eu, o fôlego ausente, me pus a cantar como quem se dispede. E eis que se cumpria a profecia, e tudo se revelava certo entre o caos, e aquele monsto lentamente se aninhava dentro de mim, sentindo nas patas o chão da minha alma, adormecendo enfim exausto. Depois de tudo, só restavam os meus olhos, que lentamente se fechavam sob a voz onipotente de minha mãe. Os meus olhos ainda inteiros, novamente sobreviventes, e aquela voz que me abençoava o sono e me garantia, mesmo sem poder, que não havia nada no mundo maior que aquele amor. Ela acabava por me salvar, mesmo eu sabendo que tanto amor era ela a se salvar também.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Mas esse sentimento que me cerca é a culpa por não ter sido fiel à vida até as últimas consequências? Porque quem foi que me incutiu na alma essa culpa por buscar a calma de que preciso? E quem me convenceu de que era ser infiel? Essa vaidade é o monstro que vou embalar com as velhas canções de minha mãe quando, recém-desperta do sono que se avizinha, me achar novamente inquieta e convicta de que é uma questão de gênio: sobreviver a mim mesma e extrair do ventre profundo da vida a seiva e o ouro que tornam possível o humano. Isso serei eu desperta: os olhos abertos e aquelas canções a me correr pelo corpo.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Eu, que me protejo do infinito cultivando esse meu coração laico, ouço vir de algum lugar de mim uma palavra que, surpreendentemente, se mostra insubstituível...&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;                  amém&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt; &lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-114825198956285525?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/114825198956285525/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=114825198956285525' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114825198956285525'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114825198956285525'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/05/iii.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-114614517969036890</id><published>2006-04-27T11:38:00.000-02:00</published><updated>2006-05-14T21:31:46.636-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;p class="MsoBodyText"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;II.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoBodyText"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt; Era uma enferma, tal qual a mãe o fora, e sabia disso. Se insistia acrescentando nós à corrente de sua história – que sentia como parte de uma teia outrora despedaçada –&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;era tão somente porque se recusava a deixar-se afogar no oceano de vergonha que o nome de sua mãe lhe representava; ela que, ao fim, rastejava como um animal ferido sob o olhar agudo da infante Angela, como se desde o ventre materno, tivesse sido adestrada para ser outra coisa que não uma&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;mulher, em outro lugar que não o mundo – como que sabotada, educada para a morte, com o sádico rigor de mãos onipotentes. Isso pensava sob a égide de sua religiosidade confusa: o Deus a quem ofertava preces de auto-humilhação devia ser um porco, um infame, mil vezes imundo. Mas um porco onipotente. A certa altura, no entanto, suas palavras perdiam a força e seus insultos se tranformavam em súplicas de perdão e de esclarecimento: porquê deixara sucumbir daquele modo um mulher que só queria viver? Sem muito mais, no fundo era só disso que se tratava,&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;de não enlouquecer, instante após instante era isso que carregava em suas preces. Que humor doentio achou que valesse a pena criar um mundo de criaturas perdidas a se devorar umas as outras com a sacrossanta missão de manter-se capazes de louvar o nome do Deus altíssimo enquanto a derrota lhes escorria pelas pernas?&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mas eram preces curtas essas. Logo se mostravam um excesso. Logo sua linguagem se mostrava tola e cheia de afetações denunciadoras de sua fraqueza de espírito. Terminava por concluir que até diante de Deus era preciso ter certo estilo, certa elegância no sofrer.&lt;/span&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Acima de tudo, em confronto com os seus limites, queria saber se aqueles olhos, os últimos olhos de sua mãe, se eram uma profecia ou uma exortação. Perguntava-se a que distância estava daquela imagem patética e agonizante, do supremo fracasso que fora aquela que lhe trouxera ao mundo. Não haveria de ter sido apenas para a perpetuação do horror. Ângela queria ter a certeza que seria ela a por fim àquele mal, que talvez corresse no sangue da família há séculos. Da mãe ouvira que a avó era uma morta-viva, chorando pelos cantos a viuvez e a perda do primogênito, morto de febre antes mesmo de falar.&lt;/span&gt;&lt;/div&gt; &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt;  &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt;  &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt;    &lt;div style="text-align: justify;"&gt;   &lt;/div&gt; &lt;p style="text-align: justify;" class="MsoBodyText"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt; Que a visão de um mundo de concreto a lhe envolver, com luzes inebriantes e promessas mil de gozo, guerra e ternura; com olhos infinitos e infinitas mãos, que se insinuam e se recolhem, que um mundo assim, no qual um olhar apressado vê o rosto moribundo de tudo aquilo que se pretendia &lt;i&gt;história&lt;/i&gt;, que justamente esse cenário febril seja o habitat de um espírito atormentado por fantasmas familiares, sempre a temer do espelho que este seja um portal para o inferno, seria de causar surpresa. Mas um ouvido atento que, colado ao asfalto da rua de Ângela, espere por estáticas indecifráveis, vindas das profundezas do silêncio noturno, será recompensado para além de qualquer expectativa. Porque ali, e em cada centímetro da cidade arquejante, há um emaranhado de vozes murmurantes que, se dissecadas com minúncia, hão de revelar o espírito assustado com que essa festa de concreto teme, até a medula, os espíritos mal esconjurados que assombraram seus antepassados. O mal do trabalho incessante do relógio, no entanto, é que seu ruído regular traz não apenas esses antigos pavores, nem sempre perceptíveis ao nosso olhar febril; há também o rosto de nossos pais, que de olhos arregalados pedem-nos sabe-se lá que providência, que justiça, que consolo afinal. E aquele que for fraco o bastante para enxergar tanto, deve necessariamente enterrar juntos todos os fantasmas – os consanguíneos e aqueles que os assombravam. Sob pena de fazer-se em tantos pedaços que nem o todo poderoso, para sempre infinito e honrado, poderia contar em sua eternidade misericordiosa. Tudo isso pensava Ângela enquanto buscava livrar-se do peso daqueles olhos, os últimos olhos de sua mãe, que a fitavam dia e noite. Que Deus a cegasse então, mas que a livrasse daquele olhar de louca moribunda. Que a fizesse para sempre orfã e bastarda, mas aninhada na doce ignorância de sua história. Um milagre. Que honrasse uma vez na vida seu supremo lugar no cosmos e, estendesse sua mão salvadora, tocasse seus olhaos, e a tornase cega – Tu, oh Deus altíssimo, dai cegueira aos que vêem, dai-nos a paz de suportar tua ausência infinita sem que tenhamos que contemplar o horror. Céga-nos, Deus, céga-nos. E com os olhos arregaladaos, o vestido florido apertado contra o peito, Angela repetia com uma voz cada vez mais baixa, cada vez mais impossível, "amém, amém, amém..."&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-114614517969036890?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/114614517969036890/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=114614517969036890' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114614517969036890'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114614517969036890'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/04/ii.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-114521924794394073</id><published>2006-04-16T17:11:00.000-02:00</published><updated>2006-04-17T12:40:59.353-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Meu feriado em Ipanema&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Aconteceu.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger/1763/1645/1600/tom%20charuto.4.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 0pt 10px 10px; float: right; cursor: pointer;" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/1763/1645/200/tom%20charuto.2.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;Não, eu não fui ao Rio. Pelo menos não em "corpo presente". O que aconteceu é que alguma coisa me fez passar um dia inteiro sem ouvir Sigur Rós. Aliás, um não, três! Essa coisa? O velho Tom.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ano passado eu tinha tomado conhecimento de um álbum entitulado "Tom Jobim Inédito". A bem da verdade, de inéditas as canções não tinham nada, mas o título é devido ao fato de Tom tê-las regravado todas, especialmente para esse álbum. Trata-se de uma coletãnea em comemoração aos 60 anos de Tom, gravada em 1987 e lançada somente em 1995, contendo sucessos seus e clássicos do samba e da bossa nova. Eu que nunca fui de muitos chamegos com a clássica MPB (embora guardasse sempre aquele respeito que qualquer músico minimamente inteligente sabe necessário, e flertasse sempre com a dita "nova MPB") fiquei boquiaberto e ouvi o cd à exaustão naqueles dias. Pois Essa semana me lembrei do disco e o baixei. Resultado: fazem três dias que praticamente não escuto outra coisa (salvo duas exceções: o último da Maria Rita, que passou por aqui bem umas três vezes, e o infernal &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Reinventing the Steel&lt;/span&gt;, do Pantera, que foi trilha sonora de uma arrumação no ap)&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Exagero meu? Experimente ouvir então. O disco começa com as clássicas &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Wave&lt;/span&gt; e &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Chega de Saudad&lt;/span&gt;e. Ou seja, samba gostoso, do tipo que aplaca qualquer briga de boteco. Experimente: quando vir dois sujeitos se atracando num boteco qualquer corra e coloque qualquer uma dessas pra tocar. Aposto que param na hora. Não há como ser agressivo ao som de uma coisa dessas! É coisa de fazer vascaíno dar tapinha nas costas de flamenguista - ou vilanovense pagar uma cerva pra esmeraldino!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Depois vem &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Sabiá&lt;/span&gt;, triste, nostálgica, com aquele ar sábio e sofrido. Mas logo &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Samba do Avião&lt;/span&gt; e &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Garota de Ipanema&lt;/span&gt; te colocam pra dançar de novo (vocês, digo, pq a mim a natureza proibiu - como dizem, "esse engoliu um cabo de vassoura"). A coisa muda mesmo é com &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Retrato em Preto e Branco&lt;/span&gt;, doída de tão triste. Daí em diante o álbum é de uma melancolia à toda prova. Quer dizer, "à toda prova" é muita coisa porque, ao final, vem &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Águas de&lt;/span&gt; &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Março&lt;/span&gt;, seguida de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Samba de Uma Nota Só&lt;/span&gt;, que te deixam com aquela "promessa de vida no coração" e te arrancam um sorriso desse tamanho, daqueles de quem sabe que o mundo acaba mas não é hoje não.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pra quem é músico a coisa fica ainda mais divertida. Eu fiquei mais de três horas em cima de &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Chega de Saudade&lt;/span&gt; pra conseguir tocá-la com esse meu braço duro de roqueiro. Como gostei do negócio já tô pensando num jeito de obter da família Jobim (detentora dos direitos legais da obra de Tom), o financiamento de uma fisioterapia, que certamente se mostrará necessária, devido àqueles acordes cabulosos. Uma verdadeira aula de harmonia.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Um último comentário deve caber à voz de Tom. Como suas obras sempre foram interpretadas por vários artistas diferentes, eu não estava acostumado a ouvir o próprio Tom cantando suas canções, com aquela voz calma e pesada. Pode-se ouvir o fôlego inconstante, parecendo cansado e, com um pouco de imaginação, sentir o cheiro de charuto e uísque pelo ar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, um álbum comovente. Daqueles que você ouve e pensa: a vida é melhor por causa dessas coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PS: Pra quem quiser saber mais há o excelente site oficial, com discografia, vídeos, entrevistas, biografia e outras guloseimas. &lt;a href="http://www.tomjobim.com.br"&gt;&lt;span style="color: rgb(204, 0, 0);"&gt;www.tomjobim.com.br&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;PS2: Um amigo meu, o Marcelo, me disse ter visto a foto que usei pra ilustrar esse texto numa revista e, segundo ele, a legenda dizia que Tom estava a examinar uma partitura de Stravinsky.&lt;br /&gt;&lt;a href="www.tomjobim.com.br"&gt;&lt;span style="color: rgb(153, 0, 0);"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-114521924794394073?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/114521924794394073/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=114521924794394073' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114521924794394073'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114521924794394073'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/04/meu-feriado-em-ipanema-aconteceu.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-114497384747971999</id><published>2006-04-13T22:14:00.000-02:00</published><updated>2006-04-29T01:31:35.153-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;p class="MsoBodyText"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;I.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Era impressionante como a vida podia jazer toda ali, num vestido de seda surrada. Cada linha, cada detalhe da costura parecia guardar um pedaço daquela história, e devia haver muito mais que não se enxergava a olho nu, em cada detalhe daquelas pequenas e infinitas rosinhas vermelhas, devia haver coisas que nunca chegou a saber, e respostas, todas elas, por cuja falta trazia o fôlego pesado, o olhar cansado e as mãos que nunca cessavam de tremer.&lt;/span&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Não era raro: entrava no apartamento, batia a porta atrás de si e, sem acender as luzes, ia direto para o guarda-roupas preto, antiquísimo, onde achava-se o vestido bege, coberto de minúsculas flores multicoloridas, que a mãe costumava vestir em casa. Abria a gaveta, fitava-o por alguns instantes, e então, trazendo-o junto ao peito, se deitava por horas e horas, desperta, olhos arregalados como um animal em fuga.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Um dia parou à entrada do quarto, tinha onze anos e viu a mãe nua, o rosto entre as mãos. Estava de costas, sentada na cama, trêmula por causa do choro compulsivo, daqueles que não fazem ruído algum, chora-se em silêncio e não faz-se outra coisa que não chorar, nem se respira, o corpo inteiro é apenas choro e nada mais, olhando parece que todos os ossos vão se despedaçar sob o peso daquela tormenta. Diria-se tratar de uma tempestade, e não seria uma tolice, porque, se uma pessoa pode ter dentro de si uma tempestade, ela deve parecer-se com aquilo, aquele corpo violentado por um choro impiedoso, cruel, que pede dos olhos, do corpo e da alma, mais do que podem dar.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Angela ficou quieta. Tinha os olhos cravados naquela cena e assim permaneceu até toda agonia se converter num silêncio sombrio e sua mãe, como quem junta todas as forças de que dispõe, se levantar como uma enferma e a encontrar ali, apoiada na maçaneta, com aqueles olhos que não perguntavam nada, não temiam nada, apenas mediam, avaliavam, como quem se pergunta até onde uma pessoa pode chegar com uma dor que não se vai nunca.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;Era impiedosa, Angela. Não que quisesse fazê-la sofrer, mas, naqueles momentos, não lhe poupava do peso obsceno daquele olhar infantil – tão pesado quanto pode ser algo que venha de uma criança –, acompanhava todos os dias aquele inferno e sabia que sua mãe ouvia de seu silêncio uma pergunta perene, uma só, simples e clara: “Até quando? Até quando você vai aguentar, Mãe?” E devia mesmo ser um quê de crueldade aquilo, a pequena Angela com aqueles olhos diáfanos, distantes, no qual não se via vestígio de solidariedade e, para ser exato, nem mesmo de acusação. Era naquela indiferença que sua mãe via o juízo impiedoso de um criança nova demais pra entender do que se tratava, mas já lúcida o bastante para perceber que era um naufrágio aquilo. Sua mãe estava afundando, isso não era difícil perceber. Angela, a infante, assistia aquela derrota de camarote. &lt;/span&gt;  &lt;/p&gt; &lt;p class="MsoBodyTextIndent"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt; Às vezes acontecia de trancar a porta, quando queria sofrer quieta e livre do juízo da filha. Mas tão somente se recompunha e girava a tranca, econtrava Angela ali, de pé, sem uma palavra, ela que não era mais tímida que o normal, que não temia estranhos nem era dada a grandes silêncios mas que, ali, diante da mãe, apenas olhava, e deixava bem claro que sabia: ela, que outrora havia lhe socorrido de toda sorte de perigos imaginários, estava afundando como um barco velho irremediavelmente perdida. E esse não era papel de uma mãe, nisso criam ambas. Não é coisa de mãe, se perder quando a cria, ainda na tenra idade, carece da orientação que não pode criar para si. Que não fosse por mal, mas a alguém essa culpa devia cobrir. Que repousasse então sobre ela, enternamente - afinal era a mãe -, o juízo e o estigma: DESERTORA. Traria junto ao corpo essa marca, como gado queimado em brasa, e para sempre sua memória seria julgada, nisso criam ambas, para sempre sentenciada, a fraca, a egoísta, a desertora infame, mil vezes infame, para sempre derrotada, sob os olhos de todos humilhada e desistida de si. Disso Angela não se esqueceria – e por isso, no fundo, não se perdoaria: assistira a decadência e o fim da mãe, que sucumbiu com um par de olhos que trazia sempre aquele pedido miserável, sempre aquela rastejante súplica por perdão.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;  &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt; &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style=""&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-114497384747971999?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/114497384747971999/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=114497384747971999' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114497384747971999'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114497384747971999'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/04/i.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-114441704938180087</id><published>2006-04-07T11:20:00.000-02:00</published><updated>2006-04-07T11:37:29.406-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Infelizmente os dois últimos livros do Alessandro Baricco ainda não foram traduzidos no Brasil. Mas, como já disse em outro lugar, o penúltimo deles saiu em Portugal e a fofa da Giovanna trouxe pra mim. Chama-se "Sem Sangue". Uma pequena novela de 85 páginas. Belíssima. Abaixo segue um trecho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Então pensou que, por incompreensível que a vida seja, provavelmente a atravessamos com o único desejo de regressar ao inferno que nos gerou, e habitar ao lado de quem, uma vez, nos salvou desse inferno. Tentou perguntar a si mesma de onde vinha aquela absurda fidelidade ao horror, mas descobriu que não tinha respostas. Entendia apenas que nada é mais forte que esse instinto de voltarmos onde nos fizeram em pedaços, e de repetir esse instante ao longo dos anos. Pensando apenas que quem nos salvou uma vez o poderá depois fazer sempre. Num longo inferno indêntico àquele de onde viemos. Mas subitamente clemente. E sem sangue."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;De minha parte, custo a crer que o Messias venha  uma vez que seja. Que dirá duas. Mas não deixa de ser uma esperança belíssima. Mesmo que seja somente poesia. Um jeito bonito de tocar feridas antigas, sem diminuir o passo que avança, avança e avança, sem saber exatamente pra onde. Não era isso que imaginávamos, quando éramos ainda mais jovens que hoje, e usávamos a expressão "está tudo bem". Mas agora é. Temos corações mais modestos agora. Não estavam de todo enganados, os antigos, quando falavam sobre o poder do tempo.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-114441704938180087?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/114441704938180087/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=114441704938180087' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114441704938180087'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114441704938180087'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/04/infelizmente-os-dois-ltimos-livros-do.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-114408764174428386</id><published>2006-04-03T15:54:00.000-02:00</published><updated>2006-04-04T02:00:41.006-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;p class="MsoBodyText" style="line-height: normal; text-align: left;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;Um conto novo, sem nome, pra variar.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="line-height: normal; text-align: right;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;br /&gt;"Vamos não morrer em forma de protesto?"&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;Clarice Lispector&lt;span style="font-style: italic;"&gt;, Água-viva&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoBodyText" style="line-height: normal;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;Ele sempre soube que colocaria de novo as mãos naquela caixa um dia. Embalada em papel pardo, para ocultar as tantas fotos que a decoravam, nela havia uma série de coisas que, juntas, constituíam o inventário de uma tragédia, mil vezes temida e, por fim, vivida gota a gota. Porém belíssima. Não era fácil mexer naquelas coisas. &lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyText" style="text-indent: 36pt; line-height: normal;"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;No início o fazia como forma de avaliar sua saúde, sua tolerância àquela dor que parecia abrir crateras na alma, lançando nelas corpos com faces ainda coradas, com uma aparência tão sã que seria difícil acreditar que estivessem realmente mortos. Todos aqueles sonhos tornados em cadáveres, enterrados na alma, não lançados ao longe, como gostaria alguma consciência ingênua que, pouco experimentada nas nuances do humano, ignora não haver amputação de amores, nem exorcismo para esses fantasmas. O que resta é um cemitério bem no fundo do estômago, e a missão de enterrar em si a própria dor.&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;Por fim, tornou-se capaz de suportar a visão daquelas fotos e apetrechos sem fim – bilhetes, chaves, desenhos e uma série de outras coisas que não teriam a menor importância não tivessem vindo das mãos que as trouxeram. Decidiu: estava curado. Tinha um belíssimo aparelho digestivo e essa pontada, essa dor indelével, não devia ser indício de má saúde, aliás, devia ser bem compreensível afinal, nada com que se preocupar. Apenas um traço, uma cicatriz e, em certo sentido, um sinal de libertação. Tinha guiado seus pensamentos para longe daquela caixa, como se guia crianças doentes. Com o passar do tempo fabricou a indiferença de que precisava para se proteger, e isso era sobreviver. Temia menos a vida porque essa dor não o havia consumido. &lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;Dessa vez, no entanto, teria de ir além, como ainda não ousara.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;As fitas. Pegou-as, todas de uma vez, três ao todo. Pequenas, transparentes, escritas com aquela caligrafia miúda que outrora riscara sua pele sob a luz daquele sorriso, como se assinasse um contrato num teatro cúmplice. Cada uma trazia escrita o dia da gravação e uma breve descrição do evento. Tomou a que dizia “ad infinitum” e pôs no tocador.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;     &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;Primeiro alguns ruídos, como de movimentos, corpos se movendo ou algo assim e, depois de alguns instantes, sua própria voz, como que rendida: “ok, diga o que quer ouvir de mim, não posso inventar palavras do nada”. Depois de alguns instantes: “É claro que pode, você faz isso o tempo todo.” Era aquela voz. Imutável no tempo, aquela voz sólida, podia-se pegar, era o tempo aquilo. Colocou o tocador em cima da mesa, deu dois passsos para trás e sentou-se. Ouvia aquela voz e cerrava os dentes, resoluto, controlando o fôlego e piscando forte e regularmente.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 36pt;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;“Pois então eu te digo, Sr. Inacessível. Quero que diga por que cárgas d’água insiste em viver quando há tantas razões para se morrer”. Ouviu o próprio riso e as palavras que o sucederam: “Não tente parecer mais pessimista do que realmente é, meu bem. Nós vivemos porque somos teimosos, porque vamos contruir uma rebeldia enorme, contra o tempo, contra a natureza. Porque nada, nunca, vai poder mudar o fato de que um dia nos amamos. E isso é o tempo um pouco humilhado. No final, nós sempre vencemos, criança, porque escolhemos a forma de ser derrotados. Seremos esmagados com nossas bandeiras erguidas, com a extravagância do nosso amor erigida como um baluarte sobre nossas sepulturas. Nisso reside nossa dignidade: amamos, e nosso amor foi um protesto. Amamos para insultar o tempo que nos esmagará no final.” E fez-se silêncio. Três minutos, mais ou menos. Então, a voz embargada, a voz, fez-se ouvir: “Viu? (...) Você sempre dá luz à um bocado de palavras, basta que a vida lhe cutuque um pouco (...) Eu poderia levá-las por toda parte (...) e ouvi-las mil vezes. Mas deixarei-as com você. É que, às vezes, elas me fazem levitar. E eu poderia não resistir à tentação de ouvi-las ao ar livre. Então, você me perderia para os céus, o que seria um absurdo, se você pensar bem.” E sorriu, ela, assim. Podia-se ouvi-la sorrindo.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoBodyTextIndent"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt; Não ouviu as fitas restantes. Aquilo bastava. Encaixotou-as novamente, guardou a caixa no mesmo lugar de antes e acendeu um cigarro enquanto se afundava na poltrona solitária que ficava no canto da sala, preta, uma espécie de confessionário laico para espíritos desprovidos do amparo de Deus e dos analistas. Pensou que se havia um nome para aquilo podia tanto ser “morte” quanto “vida”. A caixa estava lá, inteira, não destruída num ímpeto febril de auto-exorcismo. Havia uma calma conveniente naquilo tudo. Um homem fazendo as pazes com a morte.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-114408764174428386?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/114408764174428386/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=114408764174428386' title='14 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114408764174428386'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114408764174428386'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/04/um-conto-novo-sem-nome-pra-variar.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>14</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-114368423813776752</id><published>2006-03-29T23:42:00.000-02:00</published><updated>2006-11-04T12:54:28.643-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger/1763/1645/1600/sigur%20ros,%20capa.0.jpg"&gt;&lt;img style="FLOAT: right; MARGIN: 0pt 0pt 10px 10px; CURSOR: pointer" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/1763/1645/200/sigur%20ros%2C%20capa.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="FONT-WEIGHT: bold"&gt;Sobre Deus e Sigur Rós&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;div style="TEXT-ALIGN: left"&gt;&lt;a href="http://www.orkut.com/AlbumZoom.aspx?uid=&amp;amp;pid=5"&gt;&lt;/a&gt;Ouvir Sigur Rós pode causar a impressão de que há alguma "força superior" por trás do universo.&lt;br /&gt;Mas basta aguçar um pouco os ouvidos e você conclui: é só Beleza mesmo.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/div&gt;De qualquer forma, agora quando me perguntam se creio em Deus respondo: "só quando ouço Sigur Rós". Dei pra fazê-lo com o tornozelo amarrado ao pé da cama, pra não correr o risco de sair voando pela janela, que nem aqueles balões de parque de diversões.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Já imaginaram, eu subindo, subindo, passando por um anjo, dois, até dar de cara com o Todo-Poderoso? Feito o velinho Enoque. E o constrangimento? Eu tendo que explicar que não foi por mal que deixei de acreditar nele e ele, todo terno, tentando me deixar à vontade: "não faz mal, acontece". É que faz muito tempo que a gente não se fala, ficaríamos sem saber onde pôr as mãos, um desconcerto total.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu e Deus, quem diria. E tudo por causa de uma música do Sigur Rós.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Porque sempre que escuto acabo pensando: "eles o viram, têm de ter visto..." Aliás, não deve ser mal, esbarrar com Deus numa música qualquer. Há quem o encontre nos lugares mais inesperados. Mas pra mim, que não tenho fé, Deus é uma saudade distante. E música.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-114368423813776752?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/114368423813776752/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=114368423813776752' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114368423813776752'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114368423813776752'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/03/sobre-deus-e-sigur-rs-ouvir-sigur-rs.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-114346448324290827</id><published>2006-03-27T10:33:00.000-02:00</published><updated>2006-03-28T00:31:30.670-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Ontem eu escrevi um conto, ia postar aqui. Mas não vai dar. É que isso aqui não serve apenas para o exercício terapêutico de me desnudar. Serve também para me esconder. Creio que o mesmo vale para cada página escrita desde sempre. Às vezes é triste pensar que vivemos numa tensão entre dar-se e recolher-se, ocultar-se e anunciar-se. Mas é assim. Nos doamos pra nos proteger da solidão, que enrrudece a alma, que a torna árida e sombria. E nos retraímos pra nos proteger do mundo. O fato, e isso é inegociável, é que estamos sempre em fuga, como hamsters. E nesse caminho de pavor volta e meia somos supreendidos pela beleza e pela fúria, e contruímos a vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Sobre o conto cheguei a pensar que devia ser lido ao som de Sigur Rós, mas isso é uma besteira. Cada um sabe como constrói, dentro de si, o vínculo entre os sons e as palavras, assim como entre essas e as coisas. Mas é que Sigur Rós nunca me cansa, nunca deixa de me comover. Então as vezes me convenço de que se existe no mundo um som que seja paz e repouso e beleza diante de uma vida tão desnudada quanto possível e para além das palavras, isso seria Sigur Rós. Não seria exagero dizer, portanto, que essa banda faz minha vida melhor. É uma chuva abençoada sobre mim. Ela vem e, quando vai, meu coração é terra fértil. Não, não seria exagero dizer...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mais, tenho lido um bocado sobre a ditadura e tenho frequentado arquivos em busca de material sobre o período do governo Mauro Borges. O documentário vai ficar bonitão.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E pra não dizer que os deixei sem literatura hoje, aqui vai um trecho de Cortazar, que há tempos penso em postar aqui:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"O médico acaba de nos tranquilizar. Sua voz grave e cordial precede os remédios, cuja receita ele escreve agora, sentado à mesa. De vez em quando levanta a cabeça e sorri, animando-nos. Não é nada demais e daqui a uma semana estaremos passando bem. Nos refestelamos no sofá, felizes, e olhamos distraidamente em volta. De repente, na penumbra debaixo da mesa, vemos as pernas do médico. Ele arregaçou as calças até as coxas e veste meias de mulher".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Julio Cortazar, "História de Cronópios e Famas", ao som de Sigur Rós, "Sorglega", do álbum "Takk"&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-114346448324290827?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/114346448324290827/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=114346448324290827' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114346448324290827'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114346448324290827'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/03/ontem-eu-escrevi-um-conto-ia-postar.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-114254919957913914</id><published>2006-03-16T20:40:00.000-02:00</published><updated>2006-03-17T00:20:13.220-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-weight: bold;"&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;Um conto antigo&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu já escrevi com mais frequência. Mas cresci um pouco e me tornei mais seletivo, daí escrevo menos. Mas às vezes acho um texto antigo que me arranca um sorriso cúmplice. O conto que segue abaixo foi escrito num dia de reveillon há mais de 3 anos. Está cheio de coisas que eliminei da minha escrita, principalmente aquele olhar excessivamente melancólico, imbuído de um pessimismo juvenil que se mostrou, com o passar do tempo, um elemento suicida e, em geral, uma manifestação de afetação e mau-gosto. Mas é um texto honesto e, creio eu, bem escrito. Então achei que valia a pena. Taí, sem título, como a maioria dos meus textos. Chame-o como quiserem.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;Está certo, está certo...&lt;span style=""&gt;  &lt;/span&gt;Talvez você tenha mesmo razão e esta seja a última canção. É que, você há de me perdoar, não é fácil acreditar nisso de uma canção depois da qual não se ouvirá mais nenhum acorde. Nossos corações não estão preparados para isso. O meu não está. No fundo obrigamo-nos a acreditar em outra coisa, não importa quão absurda seja. Ouvimos aquele chiar de cordas velhas, de um piano que já não é afinado como antes e de um bandolim ao som do qual moças e rapazes dançaram outrora ébrios da mais simples e ingênua alegria, a de sentir-se amigos das possibilidades, e percebemos a mudança de timbre. Mas escondemos nossos medos atrás de sorrisos agonizantes, como num pacto.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;Porque houve um tempo, e parece que foi ontem, em que os dias eram nossos, em que crianças olhavam para o alto, boquiabertas, enquanto os fogos bordavam no céu uma seqüência de quatro números, e as pessoas gritavam em êxtase, desejando felicidade uns aos outros, esperando uma vida um pouco melhor neste ano novo que se insinuava. Enquanto isso o mundo rodava e tudo, absolutamente tudo, acontecia ao som destas cordas agora frágeis e sem brilho. Eram acordes que não acabavam mais. E durante todo esse tempo nós não paramos de dançar, nem por um segundo, mesmo enquanto nossos ossos doíam, mesmo quando cortaram nossas pernas, nós continuamos a agitar os braços ou apenas a tamborilar os dedos, para que ficasse claro que aquela música ainda era nossa, que ainda estávamos no baile e a noite nos pertencia. Não nos expulsariam assim do nosso próprio mundo sem que sequer lutássemos, sem que nossa humilhação alcançasse os céus, um abismo de indignidade a nos separar dos mais caros de nossos desejos.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;“Feliz ano novo!” e o estalo de um beijo no rosto. E qualquer um se espantaria com o brilho dos próprios olhos diante do espelho ao perceber o emaranhado de vísceras e palavras e alma e tudo o que há de bonito nessa vida e de todo o medo e sede de amor, tudo contido nessas palavras: “Feliz ano novo!” Mas talvez&lt;span style=""&gt; &lt;/span&gt;você tenha razão. Talvez esta escacês de acordes seja o fim chegando. E quando não houver mais ruídos sobre nossa vergonha, quando ela se mostrar nua e transparente, quando nossas palavras se revelarem de um tolice oceânica e a nossa culpa for visível à toda terra, então...&lt;/span&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-114254919957913914?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/114254919957913914/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=114254919957913914' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114254919957913914'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114254919957913914'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/03/um-conto-antigo-eu-j-escrevi-com-mais.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-114230391707325879</id><published>2006-03-14T00:33:00.000-02:00</published><updated>2006-03-14T00:40:28.766-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Uma informação do interesse de todos: hoje comprei o meu clássico desodorante nívea, entrei no site e me cadastrei na promoção. Tô concorrendo a uma das 60 viagens para assistir a copa do mundo e morrer com os miolos explodidos num atentado terrorista. Com acompanhante. Muito chique.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-114230391707325879?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/114230391707325879/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=114230391707325879' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114230391707325879'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114230391707325879'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/03/uma-informao-do-interesse-de-todos.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-114230324837035113</id><published>2006-03-14T00:08:00.000-02:00</published><updated>2006-03-14T00:31:16.590-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-weight: bold;font-size:130%;" &gt;Mais Baricco no cinema&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, quem me conhece sabe da minha paixão pela obra do romancista italiano Alessandro Baricco, pouco conhecido no Brasil, até onde sei. Como já disse num dos primeiros posts desse blog, conheci Baricco através do filme &lt;span style="font-style: italic;"&gt;A Lenda do Pianista do Mar&lt;/span&gt;, de Giuseppe Tornatore, que também dirigiu &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Cinema Paradiso&lt;/span&gt;. &lt;span style="font-style: italic;"&gt; A Lenda&lt;/span&gt; é a adaptação de um monólogo de Baricco chamado &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Novecento. &lt;/span&gt;Depois disso fiz bem uma dúzia de prosélitos, dos quais me orgulho muito.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Foi então com imensa alegria que descobri há alguns dias que outros dois livros de Baricco estão sendo filmados: &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Seda&lt;/span&gt; (excelente, muito celebrado, mas na minha opinião o mais fraco de seus cinco livros publicados no Brasil) e &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Sem Sangue&lt;/span&gt; devem entrar em cartaz esse ano. Pensa em alguém feito uma criança na estréia... ou na locadora mais próxima, pq não duvido nada de não entrarem em cartaz nos cinemas daqui.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mais, se tudo der certo, a fofa da Giovanna vai trazer &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Sem Sangue&lt;/span&gt;, (o penúltimo de seus livros) de Portgual pra mim. Aí só vai ficar faltando o último, &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Questa Estoria, &lt;/span&gt;que ainda não existe em português. Já deve estar saindo em inglês, mas não é a mesma coisa. Por ter lido e relido os livros trocentas vezes eu acabei fazendo uma ligação entre o Baricco e a língua portuguesa. Estranho se pensármos que ele escreve no idioma da Velha Bota, mas é assim. Bem, agora é cruzar os dedos e esperar, sonhando com o dia em que vão filmar &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Mundos de Vidro&lt;/span&gt; e &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Oceano Mar.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-114230324837035113?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/114230324837035113/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=114230324837035113' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114230324837035113'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114230324837035113'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/03/mais-baricco-no-cinema-bem-quem-me.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-114226105169164772</id><published>2006-03-13T12:41:00.000-02:00</published><updated>2006-03-16T01:34:43.436-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;p class="MsoBodyText"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;span style="font-weight: bold;font-size:130%;" &gt;Ensaio sobre auto-piedade&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoBodyText"&gt;&lt;span lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;No fundo da pia branca meus pelos pousam dispersos. Há quem acredite ser possível prever o futuro através das marcas deixadas pela borra de café no fundo de uma xícara vazia. Então talvez seja possível também com fios de barba no fundo de uma pia. Mas eu sou cético demais para essas coisas. Sou cético até pra acreditar no mal que o reflexo dos meus olhos parece anunciar. Aqueles olhos baixos e opacos refletidos no espelho são os meus olhos. Portanto, se prevejo uma ruína inevitável para mim é, ao contrário, de forma puramente racional, medindo à exaustão todas às evidências que coleto no exercício desgatante de auto-análise ao qual me submeto todo o tempo. Não há dúvidas: eu estou enlouquecendo. E não há nada de lúdico nisso. A pergunta é: como é possível que eu tenha pelos na cara e ainda não tenha aprendido? Como é possível que a vida me doa hoje como se fosse a primeira vez? E que o torpor que tantas vezes me acomete, como uma neblina mil vezes odiada, seja uma vergonha tão intensa que nem mesmo a visão dos meus inúmeros companheiros de fracasso pode aplacar? E talvez a cena toda fique ainda mais intragável por causa dessa insistência entorpecida, esse caminhar de zumbi, essa esperança velada de ainda ter algum auto-controle, de acreditar minimamente no futuro.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Desfiro um golpe contra o espelho e conto os cacos que se grudam aos meus dedos, meu punho ainda cerrado, o sangue a escorrer. Há cacos que permanecem lá, ainda presos ao todo. Não é uma manifestação de solidariedade e desespero? Enquanto alguns foram apartados do todo do qual outrora fizeram parte, condenados, restando-lhes apenas a ridícula missão de fazer brotar sangue dos meus dedos, outros permanecem lá, cacos, mas juntos ao todo. Não é isso que deve ansiar a alma de um homem afogado nessa festa de concreto? Encontrar alguma dignidade, alguma viabilidade existencial na sua natureza de caco. Que o ínfimo fragmento tenha o direito de existir sem se encerrar numa infinita insignificância é o que reivindicamos, nós espíritos desprovidos de solidariedade. Nós, espíritos isolados.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;E essa vergonha? Sob que chão enterrar esse vexame? Porque é preciso admitir: toda essa lamúria, essa paralisia, essa vida que cessa, está suspensa, presa apenas pelo frágil fio de uma auto-piedade mesquinha e ressentida. Porque nós, os inválidos do espírito, nós odiamos todo aquele que consegue fazer do mundo algo que se pareça com uma vida. Nós odiamos os corpos que se movem desenvoltos, nós odiamos a destreza com que suportam a dor, odiamos a lucidez quando ela os torna dignos e a estupidez quando lhes protege a alma.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Os meus pelos no fundo da pia não podem me dizer nada de pior do que aquilo que calculo a partir do tremor das minhas mãos. E, em último caso, há o reflexo fragmentado de meus olhos no espelho. Esse suposto diagnóstico da minha falência.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;    &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;&lt;span style=""&gt;            &lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-114226105169164772?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/114226105169164772/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=114226105169164772' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114226105169164772'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114226105169164772'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/03/ensaio-sobre-auto-piedade-no-fundo-da.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-114222352172158392</id><published>2006-03-13T02:02:00.000-02:00</published><updated>2006-03-14T00:43:48.870-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Viram como isso aqui tá bonitão? Coisa da Nayara. (obrigado pela enésima vez baby, uma vodka geladinha te espera) Além de escrever muito bem (&lt;a href="http://www.versaoaovivo.blogger.com.br"&gt;www.versaoaovivo.blogger.com.br&lt;/a&gt;)&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;/span&gt; a moça é cobra nesse lance de templates.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Uma novidade bacana: agora faço parte de uma equipe que está produzindo um documentário sobre Mauro Borges (governador de Goiás durante a ditadura). Eu adorei. O documentário é o pretexto que eu precisava pra estudar mais atentamente o período e dar uma passeada pelos arquivos. Assim me isento da acusação de que Teoria da História é coisa pra historiador alérgico, que não pode por a mão em arquivos rssssss Além do prazer de estar mexendo com cinema pela primeira vez. Bem bacana. No mais as aulas do mestrado começam essa semana e eu sigo lendo Nietzsche e Thomas Mann, regados a muito Massive Atack. Estudar muito, escrever demais. Tô adorando esse negócio.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-114222352172158392?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/114222352172158392/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=114222352172158392' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114222352172158392'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114222352172158392'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/03/viram-como-isso-aqui-t-bonito-coisa-da.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-114072930251699839</id><published>2006-02-23T19:05:00.000-02:00</published><updated>2006-02-24T12:01:00.606-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Eu não devia postar isso aqui. Eu sei que é trapacear com a solidão (essa solidão boa). Mas poucas coisas me angustiam tanto quanto um prazer estético não compartilhado. Preciso por pra fora.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Enfim, às vezes acontece de eu ouvir uma música umas 100 vezes no mesmo dia. Hoje isso aconteceu com uma música do saudoso &lt;span style="FONT-STYLE: italic"&gt;Sunny Day Real Estate.&lt;/span&gt; Eu ouço e dou um sorriso como se tivesse visto a coisa mais linda do mundo. Certa vez eu disse que era uma jovem senil, de olhos cansados e mãos trêmulas (sim, os tremores se foram). E que havia um sorriso, quando eu sentia a vida como uma imensa possibilidade, que era a coisa mais bonita que havia em mim. Pois bem. É esse sorriso que essa música desperta em mim. A canção se chama &lt;span style="FONT-STYLE: italic"&gt;Guitar and Video Games&lt;/span&gt;, do álbum, &lt;span style="FONT-STYLE: italic"&gt;How It Feels To Be Something On.&lt;/span&gt; O disco é todo lindo, mas essa, a faixa título e &lt;span style="FONT-STYLE: italic"&gt;Days Were Golden &lt;/span&gt;são de matar. A letra:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;how is it you feel?&lt;br /&gt;I remember you at the top of my room&lt;br /&gt;all these things we wondered how to hide&lt;br /&gt;see how it works when&lt;br /&gt;all the day long in a bottle of mud&lt;br /&gt;all these fears we wondered how to hide our love&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;how is it you feel when you run?&lt;br /&gt;ships won't come in in a bottle of mud&lt;br /&gt;all this time looking for love and&lt;br /&gt;you want to find peace&lt;br /&gt;but you find me&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mandrary fields where we run&lt;br /&gt;see how it works with a bottle of rum&lt;br /&gt;all this time hiding from death&lt;br /&gt;and we want to be strong&lt;br /&gt;but we find the true story&lt;br /&gt;a tale&lt;br /&gt;writing itself as we sail&lt;br /&gt;a story&lt;br /&gt;a tale&lt;br /&gt;writing itself as we wail&lt;br /&gt;oh no&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;never again my dear&lt;br /&gt;shall we come dancing here&lt;br /&gt;we'll play guitar and video games&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;what if we refused to follow the rules of fashion?&lt;br /&gt;tell me something you'd tell a fool&lt;br /&gt;ways to refuse to follow the rules of fashion&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;how is it you feel when?&lt;br /&gt;remember you in the top of my room&lt;br /&gt;all these things remade me and caused&lt;br /&gt;to be something grand&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;never again shall we&lt;br /&gt;come dancing in the sea&lt;br /&gt;we'll play guitar for a new&lt;br /&gt;we'll play guitar and video games&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;"&gt;A segunda estrofe é particularmente bela. E a Priscilla tem o descaramento de me dizer que achou a música meio barulhenta! Um infinito de melodia fazendo plim-plim na alma. É que a Priscilla tem ouvidos de porcelana. A Priscilla é feita de porcelana.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;p&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;font-size:180%;"&gt;&lt;span style="font-family:Verdana;font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-114072930251699839?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/114072930251699839/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=114072930251699839' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114072930251699839'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114072930251699839'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/02/eu-no-devia-postar-isso-aqui.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-114064372959725394</id><published>2006-02-22T19:11:00.000-02:00</published><updated>2006-03-13T13:08:35.760-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-style: italic;"&gt;eu falei que ela se levantaria.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Vai saber que demônio se apossou daquele corpo e o lançou, a passos largos, escada a baixo, dois, três degraus por vez, até se precipitar na rua, numa chuva torrencial. Sob o céu rosado de uma noite recém-chegado, lavando  o gosto de whisky com a água da chuva, o cigarro se apagando em sua mão. Era como se o mundo fosse se acabar naquela chuva, como se até a terra sob aquele asfalto tão inexplicavelmente amado sorvesse aliviada aquela água por tantas décadas postergada. Porque isso é preciso dizer: há chuvas que não chegam nunca.&lt;br /&gt;Num fôlego profundo levou o queixo até o peito e mordeu de leve o lábio inferior. A vida estava toda ali: revelada. Aquele amontoado de lacunas, aquela inquietude perene, e a calma que brota da resignação diante de uma vida sempre incompleta. Dali vinha força, por mais estranho que parecesse.&lt;br /&gt;Olhou pro céu um instante, os olhos entre-abertos, se protegendo dos pingos ininteruptos, e pensou: Deus, como estou molhada. Devagar voltou para o hall do prédio e chamou o elevador.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-114064372959725394?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/114064372959725394/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=114064372959725394' title='7 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114064372959725394'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114064372959725394'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/02/eu-falei-que-ela-se-levantaria.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>7</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-114052853842195796</id><published>2006-02-21T11:01:00.000-02:00</published><updated>2006-02-21T11:38:42.106-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Tô de volta. Férias na casa da mamãe. Muito iogurte, comida de primeira, redução drástica dos cigarros, aquela devoção materna que nem me constrange mais (ela ama demais, aquela mulher, jesus!) um bocado de literatura (enfim Thomas Mann&lt;span style="font-style: italic;"&gt;, A Montanha Mágica&lt;/span&gt;) e um retorno a Nietzsche, que deve culminar num artigo nos próximos dias (pra consolidar de vez minha opinião de que toda aquela iconoclastia está a serviço de um conservadorismo radical, nada do grande libertário que alguns dos meus colegas anarquistas vêem).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A semana ficou marcada pela absolvição do coronel (acho q era coronel) que ordenou a invasão do Carandiru quando do massacre. A sentença rezava que ele agiu cumprindo ordens, portanto deveria ser inocentado. Assim, sem o menor constrangimento, na cara dura mesmo. Eles não precisavam se preocupar em apresentar desculpas bem pensadas, pq sabiam que contariam de ante-mão com o conservadorismo de certos setores da sociedade que repete salivante e com "sede de justiça" que "bandido bom é bandido morto".&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mais, tenho me sentido tanto mais honesto quanto menos me movo. Há um sorriso calmo nisso. Uma resignação reconciliadora. Aqui, ninguém está dançando, e está tudo muitísismo bem.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-114052853842195796?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/114052853842195796/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=114052853842195796' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114052853842195796'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/114052853842195796'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/02/t-de-volta.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-113944666465034584</id><published>2006-02-08T22:35:00.000-02:00</published><updated>2006-02-09T09:34:18.506-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Faz um punhado de dias que não escrevo aqui. É que eu andei muito ocupado com a monografia. E depois de mais de 2 semanas revisando leituras e escrevendo até oito horas diárias, foi com imenso alívio que entreguei uma cópia pro orientador, outra pra arguidora e soube a data da defesa. Sexta-feira, 8:30 da manhã, no FCHF-UFG.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O processo de redação foi meio corrido, cansativo, o branco do word ferindo os olhos, o garimpo dos meus livros rabiscados em busca da citação certa etc etc etc.. mas gostei do resultado. Acho que foi um bom balanço desse um ano e meio estudando Walter Benjamin. Agora é ver o q a banca vai achar.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Durante a redação pensei muito numa questão que sempre pula cabeluda na minha frente: o que significa exatamente a escolha de uma vida intelectual, do ponto de vista profissional e existencial? Olhar o mundo através das lentes da literatura e das artes em geral é uma coisa. E mesmo a filosofia e a história se prestam a olhares diletantes. Mas escolher ambas como um olhar que é, inevitavelmente, um olhar sobre a existência e, ao mesmo tempo, uma perspectiva profissional, bem, aí é outra coisa. Trata-se de algo que suscita questões que ainda estou começando a tocar. Isso pq a imagem do "intetelectual de gabinete", que produz texto após texto sem uma real conexão de espírito com a vida, me causa horror. Mas como não compartilho do pessimismo de muitos colegas a respeito da vida acadêmica (aquele olhar negativista que não consegue ver na universidade outra coisa que não uma instituição opressora calcada em princípios hierárquicos etc etc etc) não me furtei aos caminhos do saber instituicionalizado (o mestrado começa em março).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;É que acredito sinceramente que a teoria, a vida intelectual institucionalizada (a universidade) contêm um horizonte criativo, lúdico mesmo, que pode ser imensamente enriquecedor, apesar de toda a merda que nós já conhecemos, burocracia, jogo de favores, rixas idiotas etc etc etc&lt;br /&gt;As relações entre essas esferas, entre História, Filosofia, as artes em geral e a nossa vivência cotidiana é o que me causa mais interrogações. Sobre isso tenho várias perguntas que poderiam, se resumir, grosso modo, naquela que é um imenso clichê e que ainda suscita debates interessantíssimos: o que é ser um intelectual hoje?&lt;br /&gt;E mais: o que é ser um intelectual em formação? rs Estou sondando as raízes que esse tipo de olhar tem no chão da vida.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No mais ando cada vez mais calado e distante. E de saco cheio de msn e orkut.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ps: o termo "intelectual" é tomado muitas vezes de forma pejorativa em ambientes não acadêmicos (e até na universidade!). Aqui usei-o pra referir-me ao tipo de pessoa que, em certa medida, olha pra vida através das lentes das &lt;span style="font-style: italic;"&gt;humanidades&lt;/span&gt;, quase sempre vinculado profissionalmente a alguma instituição de ensino superior.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-113944666465034584?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/113944666465034584/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=113944666465034584' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113944666465034584'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113944666465034584'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/02/faz-um-punhado-de-dias-que-no-escrevo.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-113811793614519118</id><published>2006-01-24T13:46:00.000-02:00</published><updated>2006-02-08T23:34:19.233-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-size:100%;"&gt;O legista que atualmente cuida do caso da morte de Celso Daniel, ex-prefeito de Santo André, confirmou que ele foi torturado antes de ser assassinado. É o segundo legista a se ocupar do caso. O anterior foi encontrado morto em seu escritório. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;No laudo atual há as seguintes palavras: "expressão de terror".&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;br /&gt;Nesse domingo um homem deu 15 facadas na esposa com quem vivia a 3 anos. O casal tinha uma filha. Facadas no rosto, no peito e nos braços.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu aumento o som e me encolho num canto.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Que cansaço.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-113811793614519118?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/113811793614519118/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=113811793614519118' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113811793614519118'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113811793614519118'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/01/o-legista-que-atualmente-cuida-do-caso.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-113750794555187636</id><published>2006-01-17T12:11:00.000-02:00</published><updated>2006-02-08T23:34:49.266-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Eu vou escrever uma história urbana. É sobre uma mulher, uma jovem bonita e cheia de cicatrizes. Ia escrever um pouco hoje mas ela encasquetou de sentar numa poltrona na sala e não se levanta por nada nesse mundo. Qdo o telefone toca ela tomba a cabeça e fica olhando pro aparelho até ele parar. Eu devia deixa-la assim, secando a porra da garrafa de whisky e soprando fumaça pro alto. Ou posso começar da manhã do dia seguinte, qdo ela acordar. Às vezes é o que dá pra fazer qdo uma personagem se cansa assim. Mas nem ela se move nem eu paro de olha-la. Tão bonita, ela. E não vai morrer por agora, eu acho. Parece-me que ela passou da época de morrer assim, de cansaço. Ao menos por enqto. Pq esses tempos, às vezes, voltam. Mas não vai morrer de cansaço, eu acho. E não vai levantar por nada hoje.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;No fundo há um Portishead baixinho, que escorre pelo chão e sobe pelas paredes, tingindo a cena toda com um sarcasmo terapêutico. Uma espécie de formol para a alma.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-113750794555187636?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/113750794555187636/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=113750794555187636' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113750794555187636'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113750794555187636'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/01/eu-vou-escrever-uma-histria-urbana.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-113717332127238470</id><published>2006-01-13T14:52:00.000-02:00</published><updated>2006-02-08T23:35:16.016-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Eu tenho uma mania, um defeito talvez: eu violento a vida com palavras. Eu aperto, torço, amasso, quebro a vida se preciso, pra que fique do tamanho das minhas palavras. Mas é uma ilusão boba. No fim ela está mais ou menos como antes, e eu exausto de tentar messurá-la. Faz um tempo que isso começou a doer, daí mudei de plano: dei pra me entregar a vários silêncios. Deixo a vida passar calada, às vezes. Me parece sábio: sorver silêncios em grandes goles, pra que se acalme um pouco o inferno de palavras que nunca pára dentro de mim. Assumir os limites do dizível torna o dizer um pouco mais sereno, e me protege do desespero. Por isso esse texto é pequeno assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;ps: ontem assisti de novo &lt;span style="font-style: italic;"&gt;Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças &lt;/span&gt;(grato mocinhas...). E calei um mundo de palavras. Calei-as até de mim. E tudo permaneceu como antes: uma dorzinha quieta, um sorriso de quem vai indo devagar e sem pânico de viver. Numa palavra: &lt;span style="font-style: italic;"&gt;calma. &lt;/span&gt;Ou ainda: &lt;span style="font-style: italic;"&gt;adeus.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-113717332127238470?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/113717332127238470/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=113717332127238470' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113717332127238470'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113717332127238470'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/01/eu-tenho-uma-mania-um-defeito-talvez.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-113684602887565443</id><published>2006-01-09T20:03:00.000-02:00</published><updated>2006-02-22T19:43:44.710-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Sou um fiel adepto da alopatia. Adoro remédios. Eles são de diversas cores, vêm em vidros ou caixinhas, têm cheiros esquisitos e se eu quiser saber alguma coisa sobre eles tem um papelzinho que conta tudo. Não dá pra entender nada, mas é pq eu sou burro pra essas coisas. Que tá lá, tá. O simples fato de existirem bulas no mundo já é algo tranquilizador. Deve ser pq tomei remedios demais durante toda minha infância e adolescência. Bronquite alérgico crônico. E é meio engraçado pensar que talvez volte a tomar os mesmos no futuro, por causa do cigarro. Mas tô diminuindo bastante, sério.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fato é que esse apreço pelos medicamentos nem sempre corresponde ao que sinto pelos profissionais de saúde. Não me entendam mal. Eu os respeito profundamente. Eles facilitam a vida da gente. Mas é que pra isso precisam (não é por mal, eu sei) ser um tanto invasivos no trato do nosso corpo. Não vou listar aqui o que já sofri nesse sentido, na verdade não foi muita coisa, mas se vc quiser ter uma idéia procure saber no que consiste um exame chamado colonoscopia. Têm um tubinho, sabe? E na ponta dele uma câmera... enfim, eu não gosto de lembrar. O fato é que se há uma coisa que eu preso nas pessoas é simpatia e boa-educação. Tenho pouca paciência com gente grossa e antipática. Por isso, sempre que me dirigo à um profissional de saúde fico me perguntando se vai ser uma pessoa bacana. Ter que falar dos males que afligem o seu corpo a uma pessoa que te olha com cara de bosta e murmura coisas que vc não consegue ouvir é uma droga.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Pois bem. Hoje eu fui ao dentista. Envolto pela mesma expectativa de sempre acerca da simpatia do sujeito abri a porta da sala e fui recebido por um caloroso boa tarde. Sorrisão grande o dele, maior ainda o meu, aliviado. Que cara bacana. Me explicou tudo com uma atenção quase excessiva, chegando a ser redundante em alguns momentos. Até que pediu com gentileza que eu me deitasse num lugar que eu não sei como se chama. Faria um exame geral nos meus dentes. Foi qdo a coisa começou a engrossar. Na verdade, nada demais. Eu é que sou fraco demais pra dor (né Nayara?). Ou o artefato que ele manuseava é que era muito pontiagudo. O que eu sei é que ali, de olhos fechados, eu comecei a odiar aquele jovem simpático (não devia ter 40 anos...). A cada pontada meu corpo se contraía de maneira exagerada, dersproporcional. É que a dor, por mínima que seja, me faz ter medo de sentir mais dor.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não deixo de rir qdo penso no recurso que minha cabeça encontrou pra se defender naquele momento: a cada golpe (exagero, muito exagero) desferido contra minha linda e sensível gengiva eu me imaginava dando-lhe um cascudo, um soco, um pontapé. O fato é que finalizado o exame dos meus dentes o Dr. mancava de uma perna, tinha um braço quebrado, todos os dedos torcidos e um olho que pendia da cavidade ocular. Não, dentes ele não tinha perdido nenhum. Superego de merda.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Quando abri os olhos, lá estava o Dr. sorrindo cúmplice: "eu sei que incomoda". E a calma tomou conta de mim novamente, conduzida pela sensação de alívio pelo fim do espeta-espeta. Sentei diante de sua mesa por mais alguns minutos, combinamos o tratamento. Algumas sessões pra eliminar a hipersensibilidade dos dentes, e outra pra extração dos sisos. E eu fui embora pra casa me sentindo culpado por ter espancado assim um dentista tão legal.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-113684602887565443?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/113684602887565443/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=113684602887565443' title='15 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113684602887565443'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113684602887565443'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/01/sou-um-fiel-adepto-da-alopatia.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>15</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-113674494684284135</id><published>2006-01-08T16:28:00.000-02:00</published><updated>2006-03-13T22:22:51.130-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style=";font-size:100%;" lang="PT-BR" &gt;É pra se viver aos caquinhos, é meu bem? Então tá bom. Meu coração está calmo: um monte de monstrinhos adormecidos. Há tantas distâncias entre as coisas, entre eu e a vida... O mundo está entupido de coisas, e mesmo assim há um oceano de distância entre tudo... Passou a época de querer que isso mude. Por Deus, criança, é hora de aceitar isso! Vai doer menos do que vc imagina. Tá bom: talvez doa mais do que vc poderia suportar em dez vidas. Mas vc não tem alternativas. Tire essas mãos dos olhos um minuto, e arrume essa postura, vai ficar corcunda assim! É pra se viver aos caquinhos... Então vamos lá, eu pego na sua mão. Hoje eu vi uma senhora banguela. Uma coisa impressionante: não parava de rir a mulher! Eu sorrio toda vez que me lembro. Meus dentes, não devem ser eternos né? É preciso saber sorrir banguelo. É isso, um princípio filosófico, uma questão existencial, um imperativo de vida ou morte. Algum sábio já deve ter dito: “aprenda a sorrir e deixe pra lá essa conversa besta de dentes...”&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-113674494684284135?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/113674494684284135/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=113674494684284135' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113674494684284135'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113674494684284135'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/01/pra-se-viver-aos-caquinhos-meu-bem.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-113651464219836573</id><published>2006-01-06T00:16:00.000-02:00</published><updated>2006-03-13T22:23:41.643-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;Esse é um texto que escrevi há alguns meses... não sei exatamente quando. Hoje estava olhando os meus arquivos e o encontrei. Me pareceu bonito. Taí.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;&lt;br /&gt;Talvez o que mais me constrangesse nela fosse aquele sentimento de vergonha por ser infeliz, que eu notava em tantos dos seu gestos. E eu, que da fraqueza aprendi a tirar alguma ternura, tocava seus cabelos como quem acariciava uma doente terminal. Aquela vida escapando por entre os próprios dedos, aquele tempo selvagem e impiedoso. E eu pensava comigo que cabelos castanhos permanecem castanhos mesmo quando de nós sobram apenas os ossos.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;p class="MsoNormal"&gt;&lt;span style=";font-size:100%;" lang="PT-BR" &gt;Às vezes, quando eu chegava do trabalho antes dela, me sentava numa poltrona antiga que compramos juntos no começo, e me colocava exatamente na direção da porta. Queria que eu fosse a primeira coisa que ela visse, que meus olhos a pegassem desprevinida. Só assim ela me deixaria por a mão onde doía. E então eu estendia meus dedos, tocava aquela dor já tão antiga, e tudo permanecia igual. Apenas um ligeiro consolo se insinuava no ar. A esperança remota de uma vida ou de uma morte serena. Porque quem pode devolver à uma menina como aquela uma vida q se esvai assim? Quem pode curar alguém de um cansaço tão grande, desfazendo histórias, contando-as de uma maneira nova, que não doa tanto, que torne os braços mais leves? E se você é alguém que não acredita na idéia de vencer a si mesmo.. bem, aí é qvc não pode fazer outra coisa senão olhar aquilo tudo com uma tristeza que de tão grande te protege de todas as outras, porque te entorpece.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;   &lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Acabava por me pegar com os meus pensamentos em Jesus. Pensando que aquilo tudo, aquela promessa enorme, aquele gesto intenso de quem diz “levanta e anda!", que aquilo tudo tinha de ser verdade, ou que Deus, de alguma forma, tinha de ser verdade. Para que não fosse verdade a obscenidade de uma menina como aquela, a lançar de joelhos suas preces rumo à um céu vazio. Para que não houvesse sempre aquela voz trêmula e aquele olhar cansado, de quem se desculpa porque vai morrer.&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-113651464219836573?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/113651464219836573/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=113651464219836573' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113651464219836573'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113651464219836573'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/01/esse-um-texto-que-escrevi-h-alguns.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-113628626097397621</id><published>2006-01-03T09:01:00.000-02:00</published><updated>2006-01-04T10:09:45.416-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Eu acabei de apagar o último post. Era uma letra do meu querido Elliott Smith. Tinha um comentário, de uma pessoa muito querida. Um comentário muito convincente, diga-se. Realmente, o post era um lamento. E eu não quero cultivar lamentos, por isso, foi-se.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;can't stop movin&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-113628626097397621?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/113628626097397621/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=113628626097397621' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113628626097397621'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113628626097397621'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2006/01/eu-acabei-de-apagar-o-ltimo-post.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-113528819273383633</id><published>2005-12-22T19:31:00.000-02:00</published><updated>2007-03-11T15:50:30.064-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-size:85%;"&gt;É um barulhinho que quase não se nota, mas são pedaços de você caindo lá no fundo da sua almai, se desprendendo para sempre de você. E é por isso que essa dor gera um sorriso pouco maior que o da monalisa: é você morrendo um pouco, mas renascendo também. Por isso que seus olhos estão semicerrados e seu coração assiste a tudo imóvel, heróico.  É um pacto o que há entre vocês, não? Ele não cessa de bater e você faz sua parte: mantem firmes as pernas, os dentes rigorosamente firmes uns contra os outros.  Se prometeram não morrer, e você não vai se acovardar agora só porque há um mundo desabando. Você sabe, não é tão mal assim... Você tem dentro de si alguns vilarejos batsante simpáticos. Pois bem: vai caminhar lentamente até um deles e procurar por um recém-nascido. Quando o encontrar pedirá licença à mãe, o tomará em seus braços e o erguerá. Olhando  nos seus olhos ainda tão descansados, dirá: força! Sempre.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-113528819273383633?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/113528819273383633/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=113528819273383633' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113528819273383633'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113528819273383633'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2005/12/um-barulhinho-que-quase-no-se-nota-mas.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>11</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-113517005062948104</id><published>2005-12-21T10:33:00.000-02:00</published><updated>2005-12-22T17:00:57.360-02:00</updated><title type='text'>cores</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Algum tempo já se passou, mas as perguntas continuam basicamente as mesmas. Amadurecidas pelo tempo, é claro, e tingidas com novas cores. Mas as tonalidades são as mesmas: uma porção de cinzas, todas as cores frias que me trazem certa calma e a sensação de estar em casa. Mas hoje há muito mais branco do que antes. Creio que minha aquarela tornou-se mais leve, menos cansativa aos olhos. E eu deixei de odiar as cores que não são minhas. Quer saber? O vermelho e o amarelo ficam até bonitinhos aí pelo mundo. E tudo por causa do branco que dilui minhas cores e minhas tristezas.&lt;br /&gt;Em certo sentido acho que estive sempre certo: a vida é uma questão de força. E a certeza de que essa força não precisa ser bruta, de que, aliás, não há como ser, pois é precária do início ao fim, e ainda assim é a única força que nos resta, essa certeza é o branco da minha aquarela. O que mudou, talvez, tenha sido aquele ímpeto desesperado de ser maior que a vida, de se colocar, a qualquer preço, num lugar absolutamente seguro. Essa renúncia da vida...&lt;br /&gt;O jogo, me parece, será sempre o mesmo: a vida imensa e veloz, com a força de mil gigantes e, no meio dela, "o frágil e minúsculo corpo humano". E, ao meu ver, nosso único recurso, a única rebeldia possível, continua sendo esse gesto patético e belíssimo a que chamamos, de uma forma ou de outra, de amor.&lt;br /&gt;Eu não sei... é bem provável que sejamos destroçados ao longo do caminho (embora, felizmente, não seja certo). Mas o fato é que é bom vislumbrar o fim assim, de longe. E nesse ínterim sentir a possibilidade de uma vida. E perceber que, por fim, suas mãos não tremem mais.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-113517005062948104?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/113517005062948104/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=113517005062948104' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113517005062948104'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113517005062948104'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2005/12/cores.html' title='cores'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-113192342664420443</id><published>2005-11-13T20:57:00.000-02:00</published><updated>2005-11-14T11:37:40.806-02:00</updated><title type='text'>Passe bem.</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;span style=";font-family:&amp;quot;;"  lang="PT-BR"&gt;Um homem fecha a porta atrás de si, trêmulo, enfim em casa. Se despe das calças e deposita seu peso sobre uma filha que espera nua e calada, como ele mandou de manhãzinha antes de sair, enquanto lhe lambia o pescoço e jurava que a encontraria e a mataria se não estivesse ali ao entardecer, nua e sem se enxugar, após um banho frio com o sabonete que ele escolhera. Ela recebe o baque entre as pernas e a boca sobre os seios, tombando o rosto numa careta cheia de uma dor sem nome. Uma filha que morreu há anos e que é só dor e ódio por dentro... Ele termina afinal, urrando e gotejando suor; ele que havia prometido, mas começou de novo, primeiro uma vez, me perdoe, não vai acontecer de novo, depois outra e outra, sem mais se desculpar, e ela esperou todos estes dias até que ele voltasse, como se espera uma maldição desejada, para que fosse acumulada sobre ele a culpa que lhe daria a coragem necessária.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então deixava que ele a penetrasse e derramasse dentro dela o ódio que o mataria. Porque ela o mataria. Viveria somente para isso e o mataria. Cortaria-lhe os testículos, primeiro um, depois o outro, e o obrigaria a mastigá-los. Depois se mataria. Mas até lá, era preciso aceitá-lo dentro de si, para que seu ódio se renovasse e se convertesse na coragem sem a qual talvez lhe desse um tiro na cabeça, por misericórdia (não deveria haver misericórdia), não queria que o tempo e o cansaço, o desejo de ser curada, lhe amolecessem o coração com algum tipo de piedade (não deveria haver piedade).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ele se levanta, um sorriso confuso nos lábios, balbuciando coisas ininteligíveis (ele que também se odeia e que também quer morrer) enquanto ela se senta e, olha para o próprio sexo. Se levantar, se lavar e dormir. Precisa acordar cedo amanhã como a balconista competente que é. Bom dia senhora!, são quatro e cinqüenta, seu troco, obrigado senhor, passe bem.&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-113192342664420443?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/113192342664420443/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=113192342664420443' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113192342664420443'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113192342664420443'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2005/11/passe-bem.html' title='Passe bem.'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-113130383998947214</id><published>2005-11-06T16:36:00.000-02:00</published><updated>2005-11-06T17:04:00.003-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Acima de tudo, hoje, quero que a violência me dê um tempo pra respirar. Apenas o bastante para me livrar do gosto das palavras que mesmo odiando espalhei pelo ar... ou para perdoar minhas mãos por todo carinho contido. Olhos secos e um coração duro, sem auto-comiserações. Há um longo caminho que o amor tem que fazer até chegar às mãos. É esse caminho que não paro de investigar em mim. De quanto amor minhas mãos são capazes? É o que não paro de perguntar. Amor e mãos eu tenho.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-113130383998947214?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/113130383998947214/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=113130383998947214' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113130383998947214'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113130383998947214'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2005/11/acima-de-tudo-hoje-quero-que-violncia.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-113108575238669169</id><published>2005-11-04T04:20:00.000-02:00</published><updated>2005-11-04T04:29:12.413-02:00</updated><title type='text'>ultimo fragmento</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 14.4pt;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;Ana, quando eu a conheci, era uma menina que tinha lá suas reservas de ternura, tinha lá sua sensibilidade olfativa, pelo menos ao cheiro de merda que ela conhecia bem. Queria, como eu, se salvar. De si mesma e do absurdo de uma vida que ela se sabia completamente incapaz de amar. Mas no fim se tornou não mais que um feixe de raivas desordenadas. Tudo de um mal gosto imperdoável. Tinha um ponto fraco: a certa altura estava sempre querendo foder alguém, mas não sabia fazer isso sem se denunciar. Se ela te amarrasse numa cadeira e te espancasse com um taco de beisebol até a morte, ainda assim você poderia notar, sem grande esforço, o medo a  lhe saltar de cada poro. E não era só medo, mas vergonha também. E aquele cansaço, aquela porra de olhar sempre entreaberto.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 14.4pt;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/p&gt; &lt;span style="font-size:85%;"&gt;Pronto pessoas. Vou ver o que faço com o resto dessa tentativa de conto. Se o reformular publico aqui. &lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-113108575238669169?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/113108575238669169/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=113108575238669169' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113108575238669169'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113108575238669169'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2005/11/ultimo-fragmento.html' title='ultimo fragmento'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-113099425897734001</id><published>2005-11-03T02:52:00.000-02:00</published><updated>2005-11-03T03:04:18.990-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>Quieto meu filho, é só a noite lá fora.&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-113099425897734001?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/113099425897734001/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=113099425897734001' title='6 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113099425897734001'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113099425897734001'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2005/11/quieto-meu-filho-s-noite-l-fora.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>6</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-113087009602205884</id><published>2005-11-01T16:32:00.000-02:00</published><updated>2005-11-01T16:34:56.043-02:00</updated><title type='text'>mais um</title><content type='html'>&lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 14.4pt;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;Vou acabar publicando o conto inteiro assim rs... bem, taí.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;        Foi Ana quem me ensinou a suportar todos os nojos do mundo, tudo de sujo que se faz sob as narinas de Deus. Dizia: "um espelho e um pouco de bom senso aplaca qualquer indignação". Obviamente ela não conseguia viver de acordo com esse princípio, mas acabava sempre se perdoando. É inegável que conseguimos cultivar a maior parte da intimidade que havia entre nós através desse exercício de sistematizar a percepção dos fragmentos que captávamos um do outro num todo arbitrário que nos propiciava certa calma.&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 14.4pt;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Agora, diante do computador, me pego repetindo a mesma pergunta que já fiz tantas vezes: o que ela está tentando fazer a cada vez que me escreve, após longos intervalos, com este tom que pressupõe uma enorme e jamais perdida intimidade? Ana está tentando salvar alguma coisa, isso eu já entendi. Mas o quê exatamente? Não pode ser o amor, obviamente. Não pode ser.&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-113087009602205884?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/113087009602205884/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=113087009602205884' title='12 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113087009602205884'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113087009602205884'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2005/11/mais-um.html' title='mais um'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>12</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-113064336692232400</id><published>2005-10-30T01:11:00.000-02:00</published><updated>2005-10-30T01:36:06.936-02:00</updated><title type='text'>outro fragmento do mesmo conto</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:78%;"&gt;&lt;span style="font-size: 12pt; font-family: &amp;quot;Times New Roman&amp;quot;;" lang="PT-BR"&gt;"Decidimos morar juntos, e havia algo de ridículo nisso. Porque éramos lúcidos demais pra não nos constrangermos diante daquela nossa tentativa de ter fé no futuro. Apenas fazíamos a coisa da maneira errada. Quer dizer, que o sujeito queira ter fé no futuro é problema dele. Mas há um outro jeito de esperar o futuro que não seja exatamente confiando nele: pode-se apostar. Há uma porção sempre reservada de incredulidade numa aposta. No entanto o que fazíamos era justamente o contrário: nós que não tínhamos fé nem para acreditar que no domingo faria sol o bastante para secar a roupa de sábado, passamos a colecionar gestos, cacoetes, um monte de quinquilharias sentimentais que nos faziam agir como se acreditássemos no futuro, mesmo quando estávamos a sós. Como se fôssemos o tipo de casal apaixonado que acredita que a porra da conspiração cósmica está a seu favor, e com ela Deus, os patrões e os juros bancários. É vergonhoso dizer, mas uma vez falamos em ter filhos. E isso tudo em poucos meses. Dois ramsters fugindo da solidão. Que imagem anêmica era aquela."&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Fico relendo isso e pensando nesse sujeito, o narrador. Que tipo de figura é esse cara? Tão ressentido por não conseguir ser só, e por se tornar tão vulnerável quando movido por essa incapacidade... é o que me parece. Mas não o compreendo bem. Apenas acho que não era assim tão anêmica e patética aquela imagem. Quer dizer, era, mas não gosto de ouvi-lo dizendo assim. É que os gestos de dois ramsters em fuga não são apenas anêmicos e patéticos. São humilhantes também. E desproporcionais, e perigosos, e infantis e muitas vezes cruéis. Mas também infinitamente dignos e belos. Uma bela merda e, ao mesmo tempo, um espetáculo de rara beleza. Há em mim um sorriso terno e desconfortável para isso tudo.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-113064336692232400?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/113064336692232400/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=113064336692232400' title='10 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113064336692232400'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113064336692232400'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2005/10/outro-fragmento-do-mesmo-conto.html' title='outro fragmento do mesmo conto'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>10</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-113053394884141563</id><published>2005-10-28T19:02:00.000-02:00</published><updated>2005-10-28T19:27:41.596-02:00</updated><title type='text'>Alívio</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Ufa. Comprei meu ingresso pro show do Dream Thetaer hoje. Passei uma semana angustiante por causa disso rss. Primeiro veio a notícia, no começo da semana, de que os ingressos pra pista pra primeira data de SP tinham esgotado. E platéia superior é foda, fica lonjão... dizem q a do Credicard Hall é ainda pior. Já a segunda data não me interessa, uma vez que não tenho grana pra ir nas duas (no segundo dia em SP eles vão fazer cover de algum disco clássico, tudo indica que será o Dark Side of The Moon, vcs sabem de quem). Daí ontem vou comprar o ingresso pro show no Rio e descubro que não vendem meia pela internet, pqp. Até q consegui comprar em Brasília (obrigado Ricardo e Giovanna!!!). 9 de dezembro, pista, Claro Hall no Rio!!!!!  heheheheheh&lt;br /&gt;Os ingressos estão esgotando e o show ainda é em dezembro ( 9 no Rio e 10 e 11 em SP)!!!! Pensa em alguém que tá contando os dias... 42 no momento, se não me falha a cabeça. rssss&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;ps: Paulo, eu juro q deixo vc ver as fotos.&lt;br /&gt;credo como eu sou mal.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-113053394884141563?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/113053394884141563/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=113053394884141563' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113053394884141563'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113053394884141563'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2005/10/alvio.html' title='Alívio'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-113041513000594536</id><published>2005-10-27T10:09:00.000-02:00</published><updated>2005-10-27T14:52:45.256-02:00</updated><title type='text'>fragmentos de um conto</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Eu escrevi um conto chamado "Pombinhos de Rapina". Eu gosto do título. E gosto tb de algumas partes (são 4 laudas ao todo....). Mas não funciona como um todo. Decidi então desmembrá-lo e publicar aqui os trechos q acho interessantes. Aí vai a primeira dose.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt; &lt;p class="MsoNormal" style="text-align: justify; text-indent: 14.4pt;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Ana, pequena furiosa, o que você pretende salvar? Quando renúncia a todo sentido, quando murmura coisas sem significado em seus emails, quando me manda fotos de suas transas acompanhadas de outras de poodles e orquídeas. O que acontecerá quando eu responder um de seus emails, pequena? Sua cabeça explodirá e seus sonhos cruzarão o Atlântico num vôo lépido, surreal, e quando alcançarem as froteiras do nosso lar se tornarão bestas enormes, com dentes afiados, prontos a me decepar a cabeça, como um preço pela sua morte já tão antiga. Você que me ensinou que a vida era assim mesmo e que não havia nenhum remédio se não a beleza. Apenas sua beleza era frágil demais, toda aquela festa de cores, tudo aquilo que se despedaçou tão facilmente em meio a nossas dores e desejos. É inútil enviar-me seus monstros, eles não me assustam mais. Eu estou curado de você, da sua morte, do seu medo, das nossas dores. Porque você me ensinou, pequena: seremos sempre a dor na memória um do outro. No entanto, isso não significará a morte, nem de longe.&lt;/span&gt;&lt;o:p&gt;&lt;/o:p&gt;&lt;/span&gt;&lt;/p&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-113041513000594536?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/113041513000594536/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=113041513000594536' title='5 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113041513000594536'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113041513000594536'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2005/10/fragmentos-de-um-conto.html' title='fragmentos de um conto'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>5</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-113020087816068087</id><published>2005-10-24T21:53:00.000-02:00</published><updated>2005-10-24T22:50:41.966-02:00</updated><title type='text'>referendo</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Essas são as primeiras linhas que escrevo sobre o assunto. Não escrevi antes pq tava pensando e só de última hora consegui me decidir. No entanto, uma vez tomada minha decisão, não tenho dúvidas de ter feito a melhor escolha, ou pelo menos a mais coerente com o que penso. Eu pensei em votar não, movido pelo argumento de que o estado não é capaz de arcar com a segurança pública. Esse pensamento está fundamentado sobre um pessimismo que tenta a todos nós num país em que a violência é uma questão tão desastrosa. Mas por outro lado, desde o começo, achei que o sim representava um passo importante no esforço de criar uma nova mentalidade contra a violência. Desistir do papel do estado na administração da segurança pública e chamar essa responsabilidade para si cria um sério impasse: em todo estado democrático de direito está pressuposto que este é um papel do governo. Como deixar de confiar no estado nesse âmbito e continuar mantendo-o em todos os outros? Não se trata obviamente de confiança num sentido melodramático, mas sim formal, ou seja: ou atribuímos ao estado os papeis que lhe competem (portanto, confiemos nele) e o pressoinamos para que arque com essa responsabilidade ou desistamos de vez do estado e passemos a viver em coletivos ou cooperativas. Como não sou anarquista optei pela primeira opção e votei sim.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-113020087816068087?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/113020087816068087/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=113020087816068087' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113020087816068087'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/113020087816068087'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2005/10/referendo.html' title='referendo'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-112991780907320305</id><published>2005-10-21T15:51:00.000-02:00</published><updated>2005-11-14T12:33:31.516-02:00</updated><title type='text'>violência e abuso de autoridade da pm de Goiânia, mais uma vez</title><content type='html'>Ontem, sexta, 20 de outubro o professor e estudante Éveri Sirac (vocalista da minha banda, actemia) foi preso numa manifestação contra o aumento da tarifa de transporte coletico e pelo passe livre para estudantes aqui em Goiânia (aumentaram subitamente a passagem de 1,50 para 1,80). Nem precisa explicar muito o q aconteceu, todos que conhecem esse tipo de manifestação conseguem imaginar com grande margem de acerto o ocorrido. Uma série de estudantes caminharam até o setransp pacificamente para intregar uma carta de reivindicações e, na volta, promoveram o ato simbólico de saltar as catracas da plataforma leste bandeirantes. Foi o suficiente para que a pm aparecesse com armas em punho. É óbvio que prenderam o Éveri por ser o primeiro ao alcance da mão. Teriam prendido qualquer outro se não fosse ele, com a finalidade de coagir e "dar o exemplo" do que acontece com "baderneiros" desse tipo. Simplesmente lamentável. A seguir alguns links do site do CMI com o depoimento dele e com uma breve matéria sobre o ocorrido.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;a style="color: rgb(255, 0, 0);" href="http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2005/10/333013.shtml"&gt;http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2005/10/333013.shtml&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;a href="http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2005/10/333051.shtml"&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="color: rgb(255, 0, 0);"&gt;http://www.midiaindependente.org/pt/blue/2005/10/333051.shtml&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-112991780907320305?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/112991780907320305/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=112991780907320305' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/112991780907320305'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/112991780907320305'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2005/10/violncia-e-abuso-de-autoridade-da-pm.html' title='violência e abuso de autoridade da pm de Goiânia, mais uma vez'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-112977486793947454</id><published>2005-10-19T23:46:00.000-02:00</published><updated>2005-10-21T13:14:35.663-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Há sobre os meus olhos um cansaço indelével, e em todo o meu corpo um silêncio feito de escombros. Não é a ausência de palavras que me emudece, mas o fato de estarem todas aos pedaços. Um vento muito antigo faz tremer as minhas mãos enquanto, arrancando-os do peito, tento conferir a esses cacos uma unidade mínima, uma única imagem duradoura que seja. E quando cessa de soprar por um instante esse vento deixa atrás de si o desalento que se torna cada vez mais familiar (deixando, pouco a pouco de ser um obstáculo absoluto à alegria) : meu mosaico está cheio de falhas. Há cacos sobrepondo-se e vãos por onde pode-se passar um punho cerrado. E sempre a dor das palavras depedaçadas.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-112977486793947454?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/112977486793947454/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=112977486793947454' title='4 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/112977486793947454'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/112977486793947454'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2005/10/h-sobre-os-meus-olhos-um-cansao.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>4</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-112898387130949945</id><published>2005-10-10T20:03:00.000-02:00</published><updated>2005-10-11T15:51:35.853-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Uma coisa marcou a minha semana: vi um homem chorar pq não pode se mover ou sequer controlar o próprio fluxo urinário. Eu o vi prostrado numa cama, chorando e urinando. E me veio aquela sensação que nunca mais me deixou desde que me causou a primeira vertigem (embora eu esteja cada vez mais capaz de suportar essa vertigem): o fato óbvio de que a vida é muito maior que eu.  Me faz lembrar de uma frase de um conto que estou escrevendo (lentamente, como sempre): "como pode a vida me doer tanto como se fosse a primeira vez?" E cada vez mais me convenço de que essa dor não pode mais ser dita, apenas poetizada. Tem a ver com o que Walter Benjamin disse sobre o fato de que os soldados normalmente não retornam da guerra falastrões. Ao contrário, retornam emudecidos. Pela mesma razão Amos Oz, que foi combatente, se recusa a escrever sobre o assunto. Ele diz que memso Tolstoi fracassou na tentativa de dizer o indizível. A dor despedaça palavras. Por isso consegui escrever apenas uma frase naquele dia.  Se bem, que eu tenho a constante impressão de que, no fritar dos ovos, não é de outra coisa q se trata toda teoria da modernidade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, o final de semana foi legal. Meu aniversario e do Marcelo. Ele dia 8, eu dia 9. Antes de conhecê-lo eu não dava muita importância pra data, não sou ligado nessas coisas. Mas hoje valorizo muito essa coincidência assombrosa. Acho sempre muito bonito sair do aniversário dele e entrar no meu, organizar a comemoraçao juntos e tal.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;***&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tô aqui maravilhado ouvindo o novo do Sigur Rós&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-112898387130949945?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/112898387130949945/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=112898387130949945' title='9 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/112898387130949945'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/112898387130949945'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2005/10/uma-coisa-marcou-minha-semana-vi-um.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>9</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-112879984053626681</id><published>2005-10-08T17:09:00.000-02:00</published><updated>2005-10-10T22:11:15.496-02:00</updated><title type='text'></title><content type='html'>&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Que dor é essa que umidece colchões e desmancha sorrisos antes mesmo que eles se mostrem por inteiro?&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-112879984053626681?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/112879984053626681/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=112879984053626681' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/112879984053626681'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/112879984053626681'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2005/10/que-dor-essa-que-umidece-colches-e.html' title=''/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-112848000364638018</id><published>2005-10-05T00:33:00.000-02:00</published><updated>2005-10-08T00:50:36.570-02:00</updated><title type='text'>quisera eu ser pós-moderno</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;                        fragmentos fragmentos fragmentos fragmentos &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;fragmentos fragmentos fragmentos                         fragmentos &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;fragmentos fragmentos                         fragmentos fragmentos &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;fragmentos                         fragmentos fragmentos fragmentos &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;fragmentos fragmentos                          fragmentos fragmentos  &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt; fragmentos fragmentos fragmentos                         fragmentos &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;fragmentos fragmentos                         fragmentos fragmentos &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;                        fragmentos fragmentos fragmentos fragmentos &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;fragmentos                         fragmentos fragmentos fragmentos   &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;fragmentos fragmentos fragmentos                         fragmentos &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;fragmentos                         fragmentos fragmentos fragmentos &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt; fragmentos fragmentos                         fragmentos fragmentos &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;fragmentos fragmentos fragmentos fragmentos &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;fragmentos fragmentos fragmentos                         fragmentos &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;                        fragmentos fragmentos fragmentos fragmentos &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;fragmentos                         fragmentos fragmentos fragmentos &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;fragmentos fragmentos                         fragmentos fragmentos &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;                        fragmentos fragmentos fragmentos fragmentos&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;e a impossibilidade de qualquer totalidade&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;sempre a mesma e velha dor&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-112848000364638018?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/112848000364638018/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=112848000364638018' title='3 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/112848000364638018'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/112848000364638018'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2005/10/quisera-eu-ser-ps-moderno.html' title='quisera eu ser pós-moderno'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>3</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-112826487588642727</id><published>2005-10-02T11:46:00.000-02:00</published><updated>2005-10-03T15:08:39.036-02:00</updated><title type='text'>Evergrey em Goiânia</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Bem, o show do Evergrey foi sexta (30), mas ainda está em tempo de tecer algumas palavras. Em primeiro lugar a tristeza de saber que a turnê com o Pain of Salvation passou até por Limeira, SP, mas não veio pra Goiânia, Brasília ou BH. O sonho de ver o PoS ao vivo vai ter que esperar mais um pouco. Com esse espírito fomos eu e minha namorada pro Goiânia Arena ver o power/prog metal (mais power do que prog, convenhamos) dos suecos do Evergrey, sabendo que não íamos encontrar muita gente por lá: o Evegrey nunca foi das mais adoradas bandas de prog metal. Vanden Plas ou Superior, por exemplo, teriam levado mais público. E como ninguém faz evento pra tomar ré, ficou evidente o que todo mundo pode concluir sem refletir muito: os organizadores não sabiam onde estavam pisando, o que se confirmou já no primeiro momento da noite.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Para iniciar o evento subiu ao palco um sujeito da 97 fm com aquele papo de "boa noite galeraa, muito agito e rock and roooooooollllll, é isso aí, eu quero ouvir o barulho da galeraaaaaaaaaaa". E eu me pus a desejar sua morte no instante seguinte, o que infelizmente nao aconteceu: o sujeito voltou no intervalo de todas as bandas. Uma das vezes inclusive trazendo 4 garotas que queriam gritar de tão justas que estavam suas bermudas. Nada mais forçado. Sai a criatura do palco e entra a primeria atração: um figura chamado OZIELZINHO. Isso mesmo, Ozielzinho. Parece que é de Brasília, se não me engano. Depois verifiquei, o cara tem 3 comunidades dedicadas a ele no orkut, uma com mais de 6oo membros! A performance? Uma das coisas mais rdidículas que já presenciei. Gente que fala que o Dream Theater é masturbação musical precisava ver aquilo. O cara esgotou em 3 ou 4 faixas, não me lembro, todos os recursos técnicos aplicáveis à guitarra até onde os conheço. Um monstro realmente. Mas de uma chatice insuportável! Detalhe: o cara tocou acompanhada de um playback!&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Terminado o primeiro suplício subiram ao palco os veteranos do Khalice, banda que já teve como vocalista Mario Linhares, ex-Dark Avenger. Bem, houve uma época, até os meus 19 anos em que eu só ouvia metal. Prog metal e metal melódico em particular. Nessa época talvez o do show do Khalice me cativaria, afinal a banda exibiu uma performance impecável, técnica exuberante e com prsença de palco intensa. Mas tudo de uma redundância... O mal de toda banda de prog metal depois do Dream Theater é achar que basta vc quebrar o andamento inteiro e colocar alguns ruídos cacofônicos pra fazer o que de mais vanguardista há no metal. O melhor momento do show foi quando fecharam com Under a Glass Moon, do Dream Theater. Eu cheguei a dar um pulo na cadeira (sim, eu tava na arquibancada, sentadinho com minha namorada que cochilava de 5 em 5 minutos esperando o Evergrey). Execução perfeita. E eu so pensava "eu vou morrer no show do Dream"". Isso é sério, eu vou ter um infarto certeza.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Entre o Khalice e o Ata Darc houve uma demora imperdoável, denunciando o amadorismo de todo o evento. Alguém me responde o que a 97 tava fazendo organizando um show de metal? Eles não têm idéia do que seja metal!!! E dá-lhe o gordinho chato: "muito rock and roll aí galeraaaaaaaaa? Dauqi à pouco E-VER-GREY!!! Muito rock e muita paz!" E eu: morre, morre , morre. Subiu o Ata Darc. Heavy tradicional prato cheio pra quem curte Running Wild, Hammerfall e Acept, de quem aliás eles tocram um cover. Embora os músicos fossem fuderosos eu achei chato também. Mas que eu não curto muito heavy tradicional (um Iron, um Judas, no máximo) então, mais uma vez, sou suspeito. O show foi coeso, intenso e a maior parte do pessoal parecia estar adorando. Os melhores momento na minha opinião também foram os que rolaram covers, no caso do Gamma Ray (Rebellion) e do Judas Priest (Painkiller, é claro).&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Mais de de duas da manhã, eu já morrendo de sono e ainda teria que aguentar mais uma enrolação até entrar o Evergrey. Pra meu desespero a banda foi precedida pelo gordinho que dessa vez destilou a pérola "põe a mãozinha pro altoooo!!!!". O cara achava que tava no show do Chiclete com Banana... E subiu o Evergrey. Pra quem fez 5 shows com o Pain of Salvation, todos certamente lotados, deve ter sido meio desanimador tocar para um público que encheria no máximo o Cererê. Mas se foi o caso souberam disfarçar bem. Após uma introdução sampleada entraram com um peso descomunal, que aliás se manteve durante todo o show. O guitarrista e o baixista não paravam de bater cabeça um único segundo criando uma verdadeira usina de bases pesadíssimas. Nos telões rolavam imagens do dvd da banda. Aliás, outro furo da organização: durante o show das bandas de abertura eram exibidos clipes do Kamelot e Épica (que eles juram que vão trazer em dezembro...). Puta desrespeito, na minha opinião. Eu acho o Evergrey uma banda esquisita. Acho massa, mas esquisito. Talvez por isso eu os aproxime na minha cabeça de outras boas bandas de prog que também acho esquisitonas, tipo Eldrtich ou Superior. Mas essa esquisitice significa originalidade. Não sei se foi o sono, ou tudo de ruim que teve antes dos caras subirem ao palco, mas não me empolguei muito. Na minha cabeça eu não deixava de pensar que foda mesmo seria se o Vanden Plas tivesse abrido essa turnê do PoS... Fui pra casa com a desconfortável sensação de ter ido num evento amador e broxante. E todos os bons momentos do show do Evergrey me faziam pensar que poderia ter sido uma grande noite não fosse uma organização tão fudeba. De minha parte eu continu clamando aos céus pra ter Radiohead no Brasil, uma vez que minhas preces foram atendidas e o Dream Theater já ta confirmado...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-112826487588642727?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/112826487588642727/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=112826487588642727' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/112826487588642727'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/112826487588642727'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2005/10/evergrey-em-goinia.html' title='Evergrey em Goiânia'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-112805428312302791</id><published>2005-09-30T02:22:00.000-02:00</published><updated>2005-10-10T17:07:23.346-02:00</updated><title type='text'>mãos atadas</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Em minha casa há um inválido, e seu nome é Carlos.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_ Olha Carlos! Vamos vêr quem ganha! Eu aposto que hoje é a Fátima.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;A esposa triste aponta pra tv lembrando o velho jogo com o qual, ainda há pouco tempo, o casal se entretia todas as noites: adivinhar de quem seria a primeira fala no Jornal Nacional.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;_Tá vendo? Eu sempre ganho. Viu? Viu? Fala pra mim se você viu...&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Olhos espasmódicos num rosto inexpressivo acompanhados de um filete de saliva que nunca cessa de escorrer, não importa quantas vezes você o limpe.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu que não o amo (é parente distante de mim) sofro menos que toda a gente ao redor. Esposa, irmão, tio, cunhada. Mas a cena toda, o conjunto de rituais que se criam em torno do enfermo, as fraldas geriátricas, as preces que se acumulam ao longo do dia e aquela dança de suplicantes em torno de um corpo sem a mínima demonstração de consciência diante de todo aquele amor impotente, isso tudo às vezes me causa uma sensação muito singular, uma espécie de tédio no seu sentido mais espiritual. De repente você se vê d&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger/1763/1645/1600/paulina%20cuida%20doente2.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" src="http://photos1.blogger.com/blogger/1763/1645/320/paulina%20cuida%20doente2.jpg" alt="" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;iante de uma tal imagem de decadência, ali, bem debaixo do seu nariz... e sua vida não muda em nada. Isso é preciso dizer, esa sensação de mal estar, apenas raramente me atinge. Em geral levo minha vida como se nada estivesse acontecendo. E é justo que seja assim.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Na adolescência me lembro de provocar minha mãe falando de excrementos durante o jantar. Nada nunca foi capaz de me tirar o apetite, a não ser o sofrimento. Acaba que como sempre na sala. A cozinha é próxima ao quarto onde ele está. Mas às vezes ainda me chega às narinas o cheiro dos medicamentos. E aos ouvidos as perguntas sempre sem respostas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Não me entendam mal: não se trata de nenhum apego à uma certa estética nietzscheana que celebra, enebriada, a força e a saúde.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Trata-se de algo mais simples: é que é por demais decadente a visão de alguém que nem mesmo é capaz de se limpar, ou ao menos de expressar o que sente quanto a isso. Talvez nem mesmo de sentir... Essa se tornou uma das minhas formas de medir a vida: quero estar vivo apenas enquanto for capaz de me limpar.&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-112805428312302791?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/112805428312302791/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=112805428312302791' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/112805428312302791'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/112805428312302791'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2005/09/mos-atadas.html' title='mãos atadas'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-112801327114895542</id><published>2005-09-29T14:48:00.000-02:00</published><updated>2005-10-02T22:27:52.153-02:00</updated><title type='text'>msn</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Eu viro pra minha caríssima amiga Poly, em tom de brincadeira, obviamente, e digo que meu blog é o que de melhor está havendo na internet. Ela responde: "ter um blog é fenômeno não patológico, observável em espécies e mais espécies de internautas da sociedade hodierna. Considerar o "mundosdevidro" o melhor blog é atribuição sua sobre si mesmo... atestar-se para terceiros é anti-ético. Mais bom senso e naturalidade ao lidar c/ isso, senão vc, como habitualmente ocorre, enlouquece." Graciosa ela, não?&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:130%;"&gt;&lt;span style="" lang="PT-BR"&gt;&lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-112801327114895542?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/112801327114895542/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=112801327114895542' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/112801327114895542'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/112801327114895542'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2005/09/msn.html' title='msn'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-112800531047310723</id><published>2005-09-29T11:48:00.000-02:00</published><updated>2005-10-03T01:08:21.686-02:00</updated><title type='text'>amnésia, blogs e uma lembrança engraçada</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:85%;"&gt;Droga. Ontem antes de dormir me lembrei que tinha duas idéias interessantes pro blog. Como sempre fiquei com preguiça de levantar e anotar. Agora não faço idéia do que era. Mas há um monte de coisas em movimento na minha cabeça, aguardando certo trabalho formal. Acho que não vai faltar assunto pro blog nos próximos dias. Até eu enjoar. Pq eu sei que a certa altura vou enjoar. Pelo menos suponho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bem, depois que criei o blog passei a me interessar mais pelo assunto e a pesquisar outros. Tem uma pá de coisas interesantes e um mooooontee de lixo. Puta que pariu, como o povo escreve mal! ( lembrei de uma das idéias que tive ontem! é sobre a Clarah Averbuck, uma das mais consagradas blogueiras do país... depois, depois) Mas conheci dois blogs legais. Um é o da Leandra. Ela é jornalista e tem umas crônicas e poesias muito bacanas (embora eu não tenha autoridade alguma pra julgar, uma vez que sou pésismo leitor de poesia). O outro é o do Luiz Felipe, amigo de longa data, também jornalista, certamente uma das pessoas com quem mais ri na vida. Ótimas lembranças de segundo grau... Cronista de mão cheia, adorei o blog dele. E não pensem que eu vou ficar aqui indicando blog de quinta só pq conheço o caboco não. Os links: &lt;a href="http://lelevirtual.blogspot.com/"&gt;&lt;span style="color: rgb(204, 0, 0);"&gt;http://lelevirtual.blogspot.com&lt;/span&gt;&lt;/a&gt; e &lt;a href="http://www.alucine.blogger.com.br/"&gt;&lt;span style="color: rgb(204, 0, 0);"&gt;www.alucine.blogger.com.br&lt;/span&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Aliás, acabei de me lembrar de um episódio impagável do Luiz Felipe (entre tantos!). Estava eu fazendo aniversário e tramaram uma festinha surpresa pra mim. Não sei o que arrumaram que ele confundiu o horário, ou o povo atrasou, não sei. Sei que o Luiz, que raramente me visitava, me aparece todo engomadinho na minha casa, sete horas da noite: oi! Eu: e aí rapaz!, já sacando tudo e morrendo de dar risada. Entrou e a gente ficou curtindo um som como se ele não fizesse outra coisa na vida que não me aprontar visitas supresas. Hilário.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;span style="font-size:85%;"&gt;ao som de elliot smith, "figure 8&lt;/span&gt;"&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-112800531047310723?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/112800531047310723/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=112800531047310723' title='0 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/112800531047310723'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/112800531047310723'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2005/09/amnsia-blogs-e-uma-lembrana-engraada.html' title='amnésia, blogs e uma lembrança engraçada'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>0</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-112794604652773618</id><published>2005-09-28T20:17:00.000-02:00</published><updated>2006-03-13T13:16:45.036-02:00</updated><title type='text'>alegria</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Primeiro foi aquela mão suja que me agarrou deixando cinco marcas precisas no meu colarinho. É impressionante quanta desonra pode haver num colarinho amarrotado. Tratava-se de um moleque sujo e maltrapilho. Talvez tenha sido isso o que fez um homem indiscultivelmente fraco como eu (um sujeito de sangue quente e membros trêmulos) capaz de um gesto veemente como aquele. Num só movimento arranquei a mão que me agarrava e, quando esboçou uma tentativa de agarrar-me novamente, empurrei-lhe com toda força. Então ele sacou um canivete. Senti um frio percorrer todo o meu corpo e pensei que agora era correr ou ficar ali e enfrentá-lo. Ele decidiu por mim: a arma em punho, atirou-se em minha direção e teria mesmo me cortado a garganta não tivesse eu, num gesto cuja explicação até hoje me escapa, dominado seu pulso com firmeza e desferido-lhe um golpe certeiro. Aturdido, o sangue a lhe escorrer pelo nariz, recuou alguns passos enquanto eu, tão supreso quanto ele, olhava bestificado minhas mãos, agora firmemente cerradas. O canivete jazia no chão e meu alheamento era tamanho que, tivesse ele se recomposto a tempo, teria me aberto o crânio com uma pedra qualquer.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;O fato é que aquela tomada imprevisível de iniciativa da minha parte, aquela súbita expressão de força, vinda justamente de mim que não havia feito nada a vida toda a não ser conquistar esse emprego de merda que me entope de dinheiro, eu que não respondi nada quando ela me disse aos prantos, a voz esganiçada de desespero, "faz alguma coisa pelo amor de Deus, ela vai morrer" e me afundei no sofá com os olhos em todo aquele sangue sem conseguir pensar em outra coisa que não no fato de que, pela primeira vez, achava minha filha bonita, assim, calma e desistida do mundo ("ela já está morta Ângela, agora cala essa boca por favor"). Justamente eu havia feito aquilo, EU havia impedido que aquele moleque de merda me furasse a garganta, e havia lhe dado um belo de um soco, de arrancar sangue, um puta de um soco no meio da cara. Aquilo me subiu de repente pelo corpo, me aquecendo a alma, expulsando o frio covarde dos meus nervos. Era dignidade aquilo explodindo nos meus lábios na forma de um sorriso abundante. Dignidade. E eu me atirei sobre ele com outro golpe que o levou ao chão. Antes que pudesse esboçar a tentativa de se levantar, afundei o pé em suas costelas com uma violência que o fez urrar como um animal. O tempo que levou para se contorcer foi o que eu precisei pra montar sobre ele e lhe aplicar outro golpe, do lado esquerdo, à altura do ouvido, e não consegui deixar de pensar que aquela imagem, meu corpo sobre o dele, era uma caricatura daquela outra que todos os dia me voltava à memória: Ângela sentada sobre mim, nos primeiros meses, e eu lhe penetrando até às vísceras com seus grunhidos a me dignificar os ouvidos. Aquele monte de palavrões de médio porte que ela jamais diria sem que um pau estivesse a lhe arrancar os recalques. No fundo era uma puta.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Então percebi que um grupo se formava em torno de nós e, entre eles, a garota que eu havia apanhado em casa minutos antes me fitava de olhos arregalados, perplexa. Havíamos nos conhecido na internet, primeiro encontro. Meus planos eram levá-la para jantar e depois parar num motel qualquer para lhe comer o rabo e, no final, esguinchar minha porra na sua cara de vadia, a boca aberta e sorridente. O jantar seria japonês: comida leve e "elegante", pra acariciar a sensibilidade burguesa da moça e não pesar no meu estômago, porque trepar de barriga cheia é uma merda. No caminho paramos para comprar cigarros. Ela fumava, eu pagava. Foi quando apareceu o moleque. Agora ela me olhava e certamente via aquela ânsia nos meus olhos, o tremor dos meus punhos cerrados, o sangue do filho-da-puta nos meus dedos. Não treparia mais comigo. Já me julgava um troglodita, o completo oposto do rapaz sensível que se apresentava com o nick de "Pierrot" . (Porque de minha parte sempre houve certa pretensão de refinamento e inteligência que o meu ressentimento de homem pouco viril jamais me deixou efetivar.) Então lhe dei outro soco, e outro, e foram tantos... primeiro de lado, nos ouvidos, na cabeça, alternando os braços, depois bem no meio do cara, repetidas vezes, como uma máquina.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Ainda hoje, quando penso no que sentia enquanto desfigurava o rosto daquele moleque, só consigo encontrar uma palavra: Alegria. Uma alegria tão intensa e inebriante que eu o teria matado não tivessem me arrancado a força de sobre ele. Olhei as pessoas a minha volta, eram num número ligeiramente maior agora e a garota não se achava mais entre eles. Gente engraçada, pensei. Todos divididos entre o desejo que sentem de ver exterminada de uma vez por todas essa raça de mulambentos de cara suja sempre a ameaçar a segurança de suas vidinhas de classe média, e a violência da cena que presenciaram. Gente cheia de ódio, mas completamente incapaz de matar. O que querem afinal? Que essa escória toda seja presa de madrugada e lançada num caminhão de lixo da prefeitura para ser finalmente queimada em alguma área de propriedade do estado? Não seria um uso perfeito para a merda dos impostos que pagamos todos os dias? E ninguém sentiria mais do que o peso amorfo de culpa ao qual já estão acostumadas suas consciências pseudo-cristãs! Nada que não se resolvesse com uma doação pra alguma maratona televisiva destinada a angariar fundos para crianças fodidas em algum lugar do planeta. Essa gente fraca e limpinha é pior do que eu por uma única razão: eles não sabem a merda que são. Adoram se cheirar nos seus casamentos, missas e batizados, nas suas festas e barzinhos, ou na feira de artigos "indianos" onde compram cristais, incensos e tudo o mais que lhes garanta "bons fluídos" e "paz de espírito". Acima de tudo precisam estar sempre comprando alguma coisa. E ao final nem se trata de um pacto coletivo no sentido de suportar o mal cheiro em silêncio: o nariz dessa gente é que é doente mesmo. Simples. A miséria de espírito que rege suas vidas lhes entorpeceu os sentidos e agora olhavam pra mim com aquela cara estupefata. Pois que se fodessem. E que se fodesse também aquela putinha que teve nojo das minhas mãos sujas de sangue. O rabo dela é que perdeu. Pois eu sairia dali, apanharia uma prostitua fina e no outro dia, quando acordasse exausto de tanto foder, me levantaria, tomaria uma longa ducha e um excelente café da manhã. E sairia para o trabalho trinta minutos adiantado, a pé, torcendo para encontrar pelo caminho um daqueles profetas de rua, com aquela segurança característica desse tipo de sujeito e, antes mesmo que ele conseguisse articular uma palavra completa, quando de sua boca houvesse saído apenas "Jesus te a..." ou "o Senhor te diz..." ou ainda "o mundo hoje..." eu o faria sentir o choque violento do meu punho contra sua boca cuspenta. Talvez apenas um golpe, ou o suficiente para lhe afundar os dentes da frente.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;em&gt;esse conto será publicado na próxima edição do zine literário demo cognitio. ou não.&lt;/em&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-112794604652773618?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/112794604652773618/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=112794604652773618' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/112794604652773618'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/112794604652773618'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2005/09/alegria.html' title='alegria'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-112788666163137965</id><published>2005-09-28T03:50:00.000-02:00</published><updated>2006-03-13T13:15:45.326-02:00</updated><title type='text'>alessandro baricco e o homem precário</title><content type='html'>&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger/1763/1645/1600/baricco%202.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 10px 10px 0pt; float: left; cursor: pointer;" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/1763/1645/200/baricco%202.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;span style="font-style: italic;font-size:100%;" &gt;Mundos de Vidro&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; é o nome de um livro do escritor italiano Alessandro&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; Baricco. Embora ele seja considerávelmente &lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;font-size:100%;" &gt;pop &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;na Itália, no Brasil é ainda bastante desconhecido, apesar de praticamente todos os seus livros (exceto suas obras de ensaios e seu último romance &lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;font-size:100%;" &gt;Senza Sangue&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;) contarem com edições brasileiras.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Eu conheci Alessandro Baricco em 2002, num período de extrema angústia no qual não conseguia me concentrar em uma página sequer, fosse ela qual fosse. Foi com imensa surpresa que então me vi devorando página após página, obra após obra os livros desse autor que consegue de forma tão singular conciliar uma profunda melancolia e uma tristeza irrevogável ("inconsolável", para usar os seus termos) com uma atmosfera cômica que surge sempre de surpresa sem, no entanto, causar qualquer descompasso à narrativa. O homem incumbido da penosa missão de construir uma identidade minimamente coesa num mundo imenso e cada vez mais fragmentado é tema recorrente em sua obra (aliás, em boa parte da literatura moderna), daí o mar, presente em dois de seus livros como símbolo do incomensurável. Ou ainda estradas, longas viagens, uma locomotiva que desfigura o mundo aos olhos de quem olha pela janela e uma metrópole onde vive um garoto superdotado que mal consegue cumprimentar as pessoas. Sempre o homem frágil imerso na imensidão de um mundo incontrolável. Seja numa metrópole ou numa pequena cidade do século XVIII.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Tive contato com a obra de Baricco através do filme &lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;font-size:100%;" &gt;A Lenda do Pianista do Mar&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; (The Legend of 1900), do diretor italiano Giuseppe Tornatore, que havia ganhado o oscar de melhor filme estrangeiro por &lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;font-size:100%;" &gt;Cinema&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; &lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;font-size:100%;" &gt;Paradiso. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Até hoje não consigo entender como não olhei antes os créditos, para ver de quem era o roteiro e só fui descobrir depois, numa entrevista que ambos deram à revista Cult, que tratava-se da adaptação de um monólogo de Baricco. Fui voando às livrarias e comprei/ganhei tudo que achei dele em português: quatro romances e um monólogo, &lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;font-size:100%;" &gt;Novecentos &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;(Novecento). Este último trata-se da história de um bebê que é abandonado num transatlântico que faz América-Europa no entre guerras. O bebê é encontrado por um operário da casa de máquinas que o batiza de Danny Boodmann T.D. Lemon 1900. O seu próprio nome seguido das siglas T.D. (pq siglas no meio do nome conferem certo ar de importância), da palavra "lemom" aludindo à caixa de limões onde o bebê foi encontrado e, por fim, do ano em que viviam, 1900. O bebê cresce, aprende a tocar piano, ingressa na banda do navio (ficando conhecido como aquela que não toca sem ter o oceano sob o traseiro) e nele vive até alcançar a idade adulta, quando se pergunta se está perdendo alguma coisa por nunca ter pisado em terra firme. Abaixo um trecho a guisa de apresentação.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;"Não somos doidos quando encontramos a fórmula para nos salvar. Somos astutos como animais&lt;a onblur="try {parent.deselectBloggerImageGracefully();} catch(e) {}" href="http://photos1.blogger.com/blogger/1763/1645/1600/baricco2.jpg"&gt;&lt;img style="margin: 0pt 0pt 10px 10px; float: right; cursor: pointer;" alt="" src="http://photos1.blogger.com/blogger/1763/1645/200/baricco.jpg" border="0" /&gt;&lt;/a&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;famintos. &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Nada a ver com a loucura. É gênio, aquilo. É geometria. Perfeição. Os desejos estavam rasgando-me a alma. Podia vivê-los, mas não consegui.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;font-size:100%;" &gt; &lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Agora, eu os &lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;font-size:100%;" &gt;encantei.&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;br /&gt;E um a um eu os deixei atrás de mim. Geometria. Um trabalho perfeito. Todas as mulheres do mundo eu encantei tocando uma noite inteira para&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;font-size:100%;" &gt; uma&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; mulher, (...) quando se levantou não foi ela que saiu da minha vida, foram todas as mulheres do mundo. O pai que nunca serei encantei-o olhando um menino morrer, durante dias, sentado ao lado dele, sem perder nada daquele espetáculo tremendo e belíssimo, eu queria ser a última coisa que olhava no mundo, quando se foi, olhando-me nos olhos, não foi ele a ir-se mas todos os filhos que nunca tive. "&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Bibliografia em português:&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;mundos de vidro&lt;br /&gt;oceano mar&lt;br /&gt;novecentos&lt;br /&gt;seda&lt;br /&gt;city&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;font-size:100%;" &gt;ainda ao som de radiohead, "amnesiac"&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-112788666163137965?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/112788666163137965/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=112788666163137965' title='1 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/112788666163137965'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/112788666163137965'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2005/09/alessandro-baricco-e-o-homem-precrio.html' title='alessandro baricco e o homem precário'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>1</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-112784030496145233</id><published>2005-09-27T14:17:00.000-02:00</published><updated>2006-03-13T13:13:18.763-02:00</updated><title type='text'>considerações sobre o coeficiente de transparência do vidro</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:85%;"&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Me ocorreu que talvez o primeiro texto tenha soado por demais grandiloquente. Se foi o caso lamento, pq não consigo imaginar algo mais impróprio a um blog do que pretensões de grandiloquência. A característica indelével de qualquer blog é sua relativa insignificância, a forma como constitui uma ótima metáfora da nossa condição no mundo: a de afogados nesse oceano de informações, nutrindo ainda que de forma velada a esperança de sermos ouvidos, enquanto escutamos muito mal aquilo que nos chega aos ouvidos, e tentamos pracariamente reinterpretar, recodificar essas informações adaptando-as ao conjunto das nossas vivências. Mas ninguém precisa, à essa altura, de uma nova teoria da modernidade. Ou se isso se faz necessário não serei eu, obviamente, a fornecê-la. Portanto fico por aqui. Quero falar de outras coisas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;Em primeiro lugar gostaria de agradecer à todos que de alguma forma se interessam pelo blog, dizer-lhes que é um prazer tê-los por aqui. Sinceramente.&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Em segundo gostaria de falar do caráter geral do blog. Algumas pessoas já tinham me incentivado à criar um, mas como já disse, sempre achei algo meio constrangedor. Quando entrava (raramente) em determinados blogs quase chegava a ficar sem graça (rss), tamanha a exposição gratuita da vida íntima de quem o mantinha. Exposição essa que na maioria das vezes sequer soa convincente, o que torna a coisa duplamente patética. Então, isso é tudo o que eu &lt;/span&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;font-size:100%;" &gt;não quero&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt; fazer nesse blog. É óbvio que vou estar sempre me expondo, falando sobre coisas que amo ou odeio, dando minha opinião sobre o que me vier à cabeça e publicando contos que talvez não seriam publicados de outra forma (ou por serem ruins ou por excederem o espaço de que dispomos no zine Demo Cognitio rss). Não é esse o problema. O que vocês não encontrarão aqui é uma demonstração gratuita da minha intimidade, algo como um diário carregado de sucessivos desabafos. Primeiro pq isso só diz respeito à algumas pessoas, e segundo pq ninguém quer saber disso ora bolas. Às vezes é um saco ouvir alguém lançando sobre vc suas intimidades sem que haja entre vocês uma real intimidade correspondente. Pelo menos eu acho.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;font-size:100%;" &gt;ao som de radiohead, "amnesiac"&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-112784030496145233?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/112784030496145233/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=112784030496145233' title='2 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/112784030496145233'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/112784030496145233'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2005/09/consideraes-sobre-o-coeficiente-de.html' title='considerações sobre o coeficiente de transparência do vidro'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>2</thr:total></entry><entry><id>tag:blogger.com,1999:blog-17140091.post-112774437461634339</id><published>2005-09-26T12:19:00.000-02:00</published><updated>2006-03-13T13:11:09.890-02:00</updated><title type='text'>estáticas</title><content type='html'>&lt;span style="font-size:100%;"&gt;Mais um blog. E eu não consigo deixar de pensar que há algo de constrangedor nisso. Quando entro num blog presto sempre mais atenção no fato de ele existir do que em qualquer um de seus conteúdos particulares. Me parece sempre a tentativa de sanar um certo déficit comunicativo das sociedades urbanas, e isso me parece comovente. Trata-se de desferir mais um golpe contra a solidão e seu poder enlouquecedor. Não contra aquela solidão tantas vezes necessária, da qual sabemos poder escapar quando quisermos em direção à algum olhar familiar. Mas contra aquela que nos faz estar, contra a nossa vontade, a sós consigo mesmos esmurrando as paredes da nossa consciência completamente vulneráveis aos juízos obsessivos aos quais nos submetemos cotidianamente na tentativa de nos interpretar, de dar forma a essa coisa amorfa que aprendemos a chamar de "eu". Um blog significa colocar-se sob os olhos dos outros, para que eles traçem sobre os nossos corpos contornos que nos ajudem a nos reconhecer. Pq há um poder enorme no olhar alheio, nos reflexos que vislumbramos nos olhos que nos lêem. Não um poder de objetividade, mas um poder de narratividade. Os olhares aos quais somos submetidos são elementos indispensáveis à essa ficção que chamamos de nossa história, ou nossa personalidade. Somos narrativas vivas onde outras narrativas transitam, mas a sós não passamos de um amontoado de imagens conflitantes que se devoram sem com isso criar outras novas. Pq talvez seja essa a grande diferença. Nessa orgia de sentidos em que vivemos, nesse interfluxo às vezes enlouquecedor de vivências há sempre a possibilidade de criar algo de novo a partir das cinzas que não cessam de cair do céu, dos restos de tudo que foi amado e desfeito antes que pudesse envelhecer. Em nosso tempo, algo que tenha chegado a envelhecer é quase uma assombração. A vida se desfaz e se torna memória antes que tenhamos tempo de firmar nosos pés sobre ela. É por isso que há algo de patético em criar um blog: todos os gestos que empreendemos pra nos eternizar são inevitavelmente patéticos em sua precariedade e impotência, no entanto desapareceríamos se abríssemos mão deles. Só nos resta contar com uma eternidade mais modesta e pequena, que perpetua fragmentos relacionando-os uns aos outros, compondo um mosaico no qual talvez nos identifiquemos no final.&lt;br /&gt;Não sei por quanto tempo vou levar isso adiante mas, por hora, é este o espírito que me anima. O de travar essa luta quixotesca contra o tempo e contra a decadência de vidas que ainda não tive como viver e/ou amar.&lt;br /&gt;Escrevo para mim, para os que amo e para estranhos. E não consigo deixar de pensar que há algo de impressionante e, talvez, até de comovente nessa empreitada.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;                                                         *******&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;font-size:100%;" &gt;&lt;br /&gt;estática: ruído gerado pela eletricidade da atmosfera nas transmissões radiofônicas.&lt;br /&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;span style="font-style: italic;font-size:100%;" &gt;ao som de Mum,  "Finally we are no one"&lt;/span&gt;&lt;span style="font-size:100%;"&gt;&lt;br /&gt;&lt;/span&gt;&lt;br /&gt;&lt;span style="font-style: italic;"&gt;&lt;/span&gt;&lt;div class="blogger-post-footer"&gt;&lt;img width='1' height='1' src='https://blogger.googleusercontent.com/tracker/17140091-112774437461634339?l=mundosdevidro.blogspot.com' alt='' /&gt;&lt;/div&gt;</content><link rel='replies' type='application/atom+xml' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/feeds/112774437461634339/comments/default' title='Postar comentários'/><link rel='replies' type='text/html' href='http://www.blogger.com/comment.g?blogID=17140091&amp;postID=112774437461634339' title='11 Comentários'/><link rel='edit' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/112774437461634339'/><link rel='self' type='application/atom+xml' href='http://www.blogger.com/feeds/17140091/posts/default/112774437461634339'/><link rel='alternate' type='text/html' href='http://mundosdevidro.blogspot.com/2005/09/estticas.html' title='estáticas'/><author><name>mundosdevidro</name><uri>http://www.blogger.com/profile/06456948632285344111</uri><email>noreply@blogger.com</email><gd:image rel='http://schemas.google.com/g/2005#thumbnail' width='16' height='16' src='http://img2.blogblog.com/img/b16-rounded.gif'/></author><thr:total>11</thr:total></entry></feed>
