27 março 2007

Cessar-fogo.

Queríamos agora um acordo, uma trégua, porque ao fim, é isso o que acontece: os soldados não se lembram mais da razão pela qual foram parar ali. Sabem apenas que é uma questão de tempo, e que o tempo virá, e que é preciso ser forte, forte até as últimas consequências e agora. Ter um corpo tão rígido que despedace tudo aquilo em que tocar. E porque não há corpo que seja assim é que a loucura chega com o cessar-fogo.

Creio haver aqueles que enlouquecem ao som da primeiríssima explosão, enquanto verificavam pela última vez o carregamento de munição. Assim, de uma vez: o primeiro som de uma explosão, bem ali ao lado, e o pânico que lhes envolve como uma mão fria e se assenta no mais íntimo de seus seres e não se vai nunca, nunca mais. Mesmo quando retornam vivos, mesmo quando estão à mesa de jantar com suas esposas e filhos. Não conhecem outra forma de sentir o mundo e a si mesmos: o pânico é o demônio que lhes roubou espírito e olhos.

Mas há também a loucura mansa que pousa sobre exércitos inteiros, mas que não os impede de voltar às suas cidades, às suas esposas e filhos, não os impede sequer de receber as honrarias todas, as medalhas, aplausos e tudo aquilo que o mundo os oferece como indenização pelo que é sabido de todos: estão para sempre enlouquecidos.

A essa loucura poderia se chamar apenas: calma. A resignação oceânica que faz com que vivam a vida incapazes de se aterrorizar com a idéia de perdê-la: fizeram as pazes com o pânico e a morte, lá, no centro mais escuro da vida e de si, onde não podiam parar nem um instante, mesmo quando o medo fazia a urina lhes correr pelas pernas. Sentiram de perto o cheiro de sangue e fezes, e disso fizeram a calma com que observam sorridentes nossa implacável sede de vida.

3 Comments:

At 10:18 AM, Anonymous Polysbela said...

“Será possível orientar o desenvolvimento psíquico do homem de modo a fazê-lo superar a psicose do ódio e da destruição?”
(Einstein, em carta a Freud. Jul/1932)


“Conflitos de interesse entre os homens são resolvidos, em princípio, pelo emprego da força, (...) quer na força dos músculos quer na do intelecto. (...)
Creio que a principal razão pela qual nos revoltamos contra a guerra é que não temos outra escolha. Somos pacifistas porque temos de sê-lo por razões orgânicas. (...)
A guerra vai enfaticamente contra o ajustamento psíquico imposto a nós pelo processo cultural [do qual são fenômenos o fortalecimento do intelecto, que tende a comandar a vida pulsional, e a introversão da tendência agressiva, com todos os seus conseqüentes benefícios e perigos]; é por isso que necessariamente nos opomos a ela e a consideramos totalmente intolerável. Para pacifistas como nós, não se trata apenas de uma aversão intelectual ou afetiva, mas de uma intolerância constitucional, uma idiossincrasia do tipo mais radical. E também parece que esta repugnância é causada quase tanto pelas indignidades estéticas da guerra quanto por suas atrocidades.”
(Freud, em resposta. Set/1932)

 
At 1:25 PM, Anonymous Lyanna Carvalho said...

Olha... acho que isso é um não, rs.

 
At 3:18 AM, Anonymous Anônimo said...

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