25 março 2007

Fiat Lux

Havia muita coisa que não sabíamos, naquele tempo. E não é que a vida tenha se feito clara agora, mas aprendemos a distinguir com tamanha precisão alguns dos vultos que rondavam aqueles instantes que, por vezes, nos damos ao luxo de cerrar os olhos enquanto o vento corre alucinado pela casa, desfazendo as formas de tantas coisas que outrora tememos tanto, trazendo aos nossos pés, como que virgens, fios de tear a muito esquecidos. Nós, que por vezes descremos do vento e da força e da nobreza, quando nossas palavras explodiam como cristais estilhaçados por ondas sonoras, agora ousamos fechar os olhos com o mundo a nossa volta

Minha avó, com sua língua pesada de estrangeira, tomava-me no colo e susurrava uma canção numa língua que já se perdia no sangue da família. Eu mal respirava. Ouvia, e via, e então ela tocava minha testa com os lábios e sussurava: ata tihi'e hazak. Eu não procurava entender. Apenas gostava do estrangeirismo daquelas palavras, de como soavam solenes, como a invocação de um encantamento. E aguçava os sentidos na expectativa de saber qual magia elas desencadeariam. Traziam consigo a gravidade da vida e da morte, eu viria saber. Então retomava a mesma canção, agora num tom vivaz, quase alegre, uma alegria tão difícil, aquela. E ainda surpreende-me que naquele tempo não me confundisse a soma de seu sorriso com os olhos marejados. Cantava, e cantava, e cantava, até que eu mesmo estivesse a pular pelo quintal, os braços como asas sobre a cabeça, e eu entendia, hoje sei que, de algum modo, eu entendia a força daquele coração. E entendia que, nele, amor e morte haviam se prometido fidelidade. Foi ela, minha avó, quem me ensinou que era preciso ter coração amplo e desafiado e que era preciso saber descer ao mais escuro de si quando não há luz que que se possa ver com facilidade. Em lugar algum vi tantos medos dormindo como naqueles olhos.

Pois bem. Desde então foram os seus olhos os únicos capazes de trazer de volta aquela sensação de iluminação. Você, ainda tão despida dos anos, tão leve em seus movimentos e em cujas mãos não havia, ainda, os rios profundos que nas mãos de minha avó teciam caminhos nos quais eu me perdia por horas, a ponta do dedo seguindo o curso impreciso, avançando cautelosa, oscilando numa bifurcação, até que o sono pusesse fim à minha incursão. Não é, portanto, coisa que se explique, o que havia no bojo de nossas primeiras palavras, na chuva que te banhava enquanto você recuava para recolher a sandália que havia se desprendido do pé. Já naqueles anos eu pensava no clichê em que se resumia toda aquela cena. E já me sabia indefeso, jovialmente indefeso ao mundo que via em você.

Agora que seus olhos se foram é a lembrança dessa luz o que permanece gravado a fogo no centro de mim. Quando se foram, seus olhos, meus faróis, tudo se fez escuro, mas chegou um tempo em que vi brotar de mim fagulhas de luz que reconheci de imediato: eram os restos de você em mim. Que essa luz, essa fagulha que apenas somada a outras tantas, de fontes tão diversas, pode lançar uma claridade modesta sobre os meus passos, que essa luz seja algo de precário não é tanto coisa que constranja. Quando você partiu, e levou consigo os seus olhos, acabei por reaprender a última lição que tomei de minha avó, ela já quieta, coberta de flores no último dia. Têm disso os olhos: a certa altura, fecham-se.

O que tive que lembrar é que luz e beleza armazenam-se.
E porque o fiz é que digo agora como ainda te carrego no corpo; como devo a ti parte da claridade que há em mim. Porque o fiz te conto agora o que seus ouvidos não ouvem mais.

1 Comments:

At 12:12 AM, Anonymous Ana said...

quero mais.

 

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