03 agosto 2007

O Jardim*

“Em seguida vieram o tempo, a distância, a poeira soprando. Mas eu trouxe de lá a memória de qualquer coisa macia que tem me alimentado nestes dias seguintes de ausência e fome. Sobretudo à noite e aos domingos. Recuperei um jeito de fumar olhando para trás das janelas, vendo o que ninguém veria. Atrás das janelas, retomo esse momento de mel e sangue que Deus colocou tão rápido, e com tanta delicadeza, frente aos meus olhos há tanto tempo incapazes de ver: uma possibilidade de amor. Curvo a cabeça, agradecido. (...) E quase paro de sentir fome”

Caio Fernando Abreu, Pequenas Epifanias.


Em meu apartamento quase não há móveis. É que minhas economias são rigorosamente gastas em livros, comida, bebidas e cigarros. Com saúde apenas vez ou outra, que milagrosamente as coisas não vão de todo mal com esse meu corpinho sedentário e envenenado de nicotina.

Estive pensando: muita vida passou por aqui nesses quase dois anos. Há espalhadas nas cinco prateleiras de minha estante quatro gerações de amores, abrangendo os últimos oito anos de minha vida. Assim também meu ap está infestado de marcas e vultos. Não apenas das namoradas e não apenas lembranças tristes, mas muita coisa amada deixou por aqui suas marcas.

Não que tenham sido fáceis, os meus dias aqui. Foram por demais intensos, tingidos com gravidade, como quase tudo em mim – os olhos, o problema são os olhos! Foram, por vezes, mesquinhos até à exaustão. Mas, não raro, surpreendentemente nobres, generosos, deliciosamente fraternos.

Em breve, por razões diversas, talvez eu precise de alguém para dividir isso aqui – há alguém que neste momento está em algum lugar sobre a América, voando pra Seattle, e que deveria estar aqui. Mas, por ora, apenas me ocorre que, daqui não muito tempo, talvez menos do que os dias que já passei aqui, eu devo partir. Não sei exatamente pra onde, e pode ser mesmo que eu esteja enganado, mas creio que não: eu devo ir embora.

E tem estado cada vez mais claro pra mim que, em grande medida, é disso que se trata a vida: de ir embora. Há também as nossas indispensáveis apostas de permanência, em lugares, em pessoas, em partes de nós mesmos – porque também é preciso saber ir embora de si –, apostas sem as quais não viveríamos. Mas algo tem estado cada vez mais claro em mim, e isso aprendi com Nietzsche, com Walter Benjamin; com Caio Fernando Abreu e Clarice Lispector; com o tempo, antes de mais nada: é preciso saber partir, assim como é necessário aceitar “a continuidade da vida e das pessoas” (o bravo Caio). Dá vergonha dizer – não me confundam com o oceano de merda que é toda essa literatura de auto-ajuda – mas é nesses termos que tenho pensado: é preciso saber morrer um pouco a cada dia e entender que isso é viver. E que pode ser algo belíssimo ou não, mas irremediável sempre. A vida não faz acordos.

Andei relendo Nietzsche. Muito me espanta que com ele tanta gente aprenda a ser estúpida e vaidosa. Em sua obra vejo, entre outras coisas que reprovo (sua teoria política, principalmente), muita generosidade e lealdade para com a vida. Trata-se de não mais ver o tempo e a morte como inimigos, mas sim chamá-los para si, aceita-los na carne e no espírito, o que não é fácil. Com Nietzsche, parece-me, aprendemos mais que qualquer coisa a ser fortes, com uma força perigosa, precária, improvável, que talvez guarde alguma semelhança com aquela “frágil força messiânica” sobre a qual falava Walter Benjamin. Tanto em Benjamin quanto em Nietzsche há uma espécie de religiosidade sem Deus. Trata-se de um vitalismo e tem a ver com aquilo que alguns chamaram de Teologia Negativa.

Eu mesmo, que tampouco creio no Altíssimo (não me é dado ver nada além desse mundo e dessa vida), estou cada vez mais convicto: o cerne da vida é um fogo cultual e todas as questões vitais são, em última instância, questões religiosas. Apenas é preciso ter em mente o ligeiro imprevisto de que, até prova em contrário – prova essa que não chegará jamais, sabemos bem – estamos sós. O céu está vazio, ou melhor: nossos olhos jamais enxergam os céus. Somos auto-deserdados e sobre isso, como sempre teve claro o piedoso Wittgenstein, não é bom se estender: “O místico existe e é inexprimível”, ou ainda seu clássico aforismo, já no fim do Tractatus Lógico-Philosophicus: “Sobre aquilo que não se pode falar, deve-se calar”.

Enfim, deveria haver em meu apartamento agora um daqueles ventos que seguem brandos as coisas que se vão. Porque uma ausência há, firme e delicada – além de tantas outras. Vento não há. É que toda poesia disponível na matéria de minha casa é dura, é áspera, tem os olhos arregalados como os de um animal em fuga, e eu aceito: uma terra assim é que a beleza revolve com destroçadas mãos de santa.

E não suponham aqui mais bravura do que realmente há: é claro que tenho medo, todo o tempo. Mas com isso aprende-se a conviver, afinal, qual a alternativa? Nem mesmo os olhos de Deus sobre mim, nem mesmo aquele sol incessante, aquele calor incendiário, nem mesmo Ele me curaria do pavor. Em seu íntimo, parece-me, foram sempre apavorados os espíritos mais piedosos. Mesmo os profetas, ou principalmente eles. Pois a terra não é lugar de redenções.

Assim é que agora, sentindo claramente a ausência de quem aprendi a chamar de Flor, fito quieto em minha imaginação os instrumentos de jardinagem. E lembro-me, mais uma vez, de Nietzsche: “E não esqueçam o jardim, o jardim com grades douradas! E tenham pessoas à sua volta, que sejam como um jardim – ou como música sobre as águas, à hora do entardecer, quando o dia já se torna lembrança: – escolham a boa solidão, a solidão livre, animosa e leve, que também lhes dá direito de continuar bons em algum sentido!” Deveria eu fazer alguma coisa? Ainda não sei, creio que não.

É que nunca fui muito bom com jardins, tampouco com solidões, embora ache ambos belíssimos. Acabo deixando intocados na imaginação os instrumentos de jardinagem: um pequeno rastelo, uma pazinha qualquer com cabo verde fluorescente – comprada em algum shoping, no mesmo dia que um livro da Hilda Hilst – e o simpático regador azul no qual há, adesivada, uma frase outrora concebida em amor (como se diz dos recém-nascidos): “Até o céu, sempre!”. E essa frase ecoa, como um bramido do mar, como o murmúrio de alguma fera infinitamente sagrada e adorada, milenar: “Até o céu, sempre! Até o céu, sempre!”.

Sorrio um sorriso singelo, pequeno – sorriso “rs” como ela o apelidou – e reconheço satisfeito em meio à tristeza branda: não há amargura. Apenas saudade e gratidão infinita.

E a certeza de que devo fazer um adesivo com aquela frase que um dia, vinda sabe-se lá de ontem, caiu em minha cabeça feito pedra e nunca mais se foi. Quero-a gravada em minha lápide, assim: Ternura é força.

Por ora vou colocá-la na guitarra.

Até o céu, claro.
Para todo o sempre.


* Este texto é dedicado a uma pá de gente querida que, de um modo ou de outro, constitui uma boa parte daquilo que sou.

Aos de casa: minha avó, que se foi, e minha mãe, que é imensa. Também ao Batista, que sempre facilitou as coisas. Obrigado.

À Luciana, Paulo André, Josias, Luiz Felipe, Balta e Polyana, meus amores.

Ao Marcelo e à Maressa (o melhor de mim). Com eles tenho um pacto: como queria Clarice Lispector, nos prometemos não morrer jamais. São pessoas que sabem dizer amém. Ninguém duvide que conseguiremos.

Aos seres actêmicos (particularmente ao Reginaldo), com quem me fiz música.

Ao Onésimo, pela honestidade de nunca ter sabido o que fazer comigo.

À Suene, que sempre foi, em mim, um silêncio. Hoje compreendo: era um eco, nem por isso menos convincente.

À Pespia, que se foi (sem ressentimentos, fico feliz por ti), e à Ká, que tá vindo qualquer hora dessas.

Ao Sérgio, mestre excêntrico que me ensinou coisas que apenas tempos depois fui entender. (E não falo de teoria). A ele todo meu respeito e admiração.

E, por último, mas principalmente, à Lyanna (Frô), que nunca acreditou poder chamar-se felicidade esse lento e vigoroso desvanecer.

Queria ser capaz de inventar para ela o Deus em quem não creio (embora anseie em diligente recusa) e cuja falta nos queima. Somente para que fossem incessantemente guardados os seus passos que, por ora, não sei aonde vão. Para que, ao fim, fosse ela toda luz. Mas devo desculpar-me, isso não sei fazer. Não há quem saiba. O que sei é desejar, com todas as minhas forças, com toda a fúria do meu amor, que ela seja clara e leve, viva como a falta que faz. Bem-vinda será sempre.

São esses, em sua maioria, aqueles que melhor conhecem os ares e as sombras de mim ou de minha casa.

Quando, no futuro, me lembrar desse apartamento e desses dias, seus rostos me serão claros. Assim como quando chegar a dor que cessa palavras e se fizer noite e não houver para onde ir. De um modo ou de outro, me serão sempre claros.

A eles força, graça e amor. E uma morte serena.

2 Comments:

At 4:01 PM, Anonymous Eduardo said...

Muito bonito!

 
At 2:32 PM, Anonymous Maressa ( o melhor dele) said...

Meu querido garoto...voce engoliu o vento e está leve que só...

ME fez chorar aquelas lágrimas sem sentido mas com todo ser... vc conhece bem como é isso em mim...

Espero ver-te em breve... que tal domingo?

Beijos todos...

 

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