30 junho 2007

Pra voltar: sobre Caio Fernando Abreu.

Eu devia estar fazendo a faxina do meu ap. Minha mãe chega amanhã - Deus do céu, que saudade! - e eu deveria dar o melhor de mim hoje pra, amanhã cedinho, quando abrir a porta, ouvir enternecido sua queixa mais tradicional: "esse apartamento está um lixo". Sempre que minha mãe avisa "vou tal dia" eu limpo o ap pra deixa-lo no ponto ideal a partir do qual... ela começará a faxina dela! Acho fantástico.
No entanto, estou aqui, numa lan house, com um copão de coca-cola e um livro do Caio Fernando Abreu à minha frente. É que ontem, depois de horas sem conseguir largar o livro, noite adentro, senti com clareza cristalina aquilo que já vinha resmungando para alguns amigos: tô tão cansado de não escrever...
A data do meu último post indica que há três meses não publico nada aqui, porque meu pc esturricou e, como sempre, eu torrei toda minha grana com comida, livros e cerveja. Uma beleza. O fato é que não pude esperar até a semana que vem, quando minha geringonça voltará do concerto e cá estou, no ambiente menos literário possível, menos propício ao essa tentativa de se desafogar - "desabrochar", dizia Clarice - que a escrita sempre representa para aqueles que dela dependem. Difícil é imaginar ambiente menos rico em potencialidades liíricas - o sujeito ao meu lado está no bate-papo do uol com o nick "homem sedutor 34", bisbilhotei sem querer antes de me sentar.
Mas isso aprende-se com Walter Benjamin, e com o Caio: do extremo, arrancar o seu oposto. E ontem deixei de lado algumas coisas bastante interessantes e urgentes sobre Romantismo, estética, Filosofia da História, etc, para passar a noite colhendo os cacos com que Caio Fernando Abreu se faz e se desfaz, chegando sempre a um mosaico lindo, lindo de doer, que mal você o fitou por um instante, já se desmanchou de novo. Depois disso, evidentemente, o que era um acúmulo de dias, transbordou. E cá estou eu.
É que há no Caio uma coisa que me pega pelo pescoço. Aliás, há várias, mas não conheço autor brasileiro que tenha posto tão a nu o desconforto amorfo, tipicamente moderno, de quem, em meio a um mundo que vive sob a ditadura do " sempre novo" e tem a auto-destruição como seu modo característico de auto-contrução, sente na pele o caráter fugidio de toda experiência, a precariedade intrínsceca a tudo em quê se pode por os olhos. Caio exacerba essa dialética no interior da qual o homem se deslumbra, se encanta com o movimento, a plasticidade, o ludismo da vida moderna, mas também sente na carne se implacável poder de desagregação. E há, principalmebte, a lucidez triste e cortante de quem já descobriu o óbvio, que se pode constatar em toda a produção cultural do século XIX e XX, culminando no tipo de autocrítica do Ocidente que costumou-se chamar de "pós-moderna": essa coisa, essa que buscamos sem cessar em meio ao trubilhão, sem nunca alcançá-la, essa coisa não tem mesmo nome, embora sobre ela debrucem sempre essa ou aquela palavra - Deus, felicidade, plenitude - como uma toalha sobre um objeto que, embaixo dela, mantem sua forma original, sempre ali.
E o que há de moderno não é propriamente essa fissura, essa fome - basta lembrar do entediado autor do Livro de Eclesiastes, o Rei Salomão, dizem, que no mais profundo cansaço dizia que felizes eram os que não haviam nascido. O que há de essencialmente moderno é a resignação com que se assume, até as últimas consequências, que a melhor forma de entender essa fome não é pensando-a em termos de "uma fome de", mas simplesmente como Fome, nome próprio, que aponta sempre pra si mesmo e se resolve em si mesmo.
É que nós não temos saída, clichê por clichê, fiquemos com esse: ninguém nos curará de nós - e tem aquela grana que você tem gastado com seu psicanalista...
Por hora o que me ecoa na cabeça é aquele trecho no qual diz o Caio: "A única coisa que posso fazer é escrever - essa é a certeza que te envio, se conseguir passar essa carta para além dos muros. Escuta bem, vou repetir no teu ouvido, muitas vezes: a única coisa que posso fazer é escrever, a única coisa que posso fazer é escrever".
Caio parecia ter uma constante preocupação de que sua obra não soasse afetada, o que ele sabia ser um risco real. Mas disso soube cuidar bem, e o que se vê é um tratamento delicado, elegante, muitas vezes desesperado, porém não ressentido. Terno ao extremo, porém não piegas. Ou melhor: sofisticado e lúcido, até quando piegas.
Sua literatura tem um acento pop, mas nada a ver com a pseudo transgressão de gente como Nick Hornby e toda essa laia pueril que pretende ser ultra-pós-tudo não passando, porém, de uma chatice estéril e superficial: literatura de brinquedo. Caio não. Caio é sério, até as últimas consequências. Purpurinado, escandaloso - "não sei ser se não pessoal, impudico" - de um humor envenenado, ora vociferando contra a vida, ferido, cançado; ora reverente, agradecido com uma gratidão religiosa, embora despida da presença de Deus. Acima de tudo grave, grave, grave.
E a maior gravidade de sua obra, em minha opinião, está na disciplina com que ele molda o próprio olhar, aquele olhar saturnino, melancólico, sempre frustrado e encantado ao mesmo tempo. Sua auto-disciplina no olhar parece coisa de quem tem em mente o versículo no qual Jesus diz que "se forem bons os teus olhos, todo teu corpo será luminoso". Porque se prestarmos atenção lá no fundo veremos a cidade inteira, sua sujeira, suas sub-culturas mutuamente hostis, as tensões do sub-mundo gay e a hipersensibilidade de um romântico extemporãneo. Mas veremos também cores para além do cinza urbano - por exemplo, o amarelo imperioso dos ajoncs, flores que ladeavam a estrada numa de suas viagens pela França, encantando-o - e, principalmente, a disciplina com que ele forjava uma aquarela capenga feito um quarto de hotel fodido.
De tudo, talvez o que mais me impressione seja isso: a disciplina na busca da ternura - "não se tornar uma Naja" -, a graça com que se entregou à vida sabendo que isso era uma morte, mas que o resto não valia a pena ou, pra ser mais honesto, que não saberia fazer diferente.
Enfim, haveria muito mais a dizer, principalmente se levarmos em conta que tenho visto Caio Fernando Abreu um pouco à luz de Walter Benjamin, com quem tenho andado bastante ocupado. Disso deve sair um artigo ou coisa que o valha, e eu coloco aqui.
Por hora o que eu queria era deixar vazar, de qualquer jeito, a saudade de escrever, essa administração precária de si, que é um caminho no escuro, que é um jeito de digerir o mundo e que se dá na correria da cidade, entre cigarros, comida gordurosa e mil tarefas e pepinos sempre por se resolver - nada demais, nada de muito grandiloquente, mas que faz uma falta dos diabos.
Entre a doçura e a violência que há nisso tudo mal cabe a ponta de um dedo que, diga-se, tem exatamente a dimensão de uma tecla.
Disso Caio Fernando Abreu sabia como ninguém, e eu lhe sou grato.

2 Comments:

At 2:41 AM, Blogger Renato Mendes Rocha said...

Gostei da idéia do "ambiente literário".

Acho que já fui afetado por algo semelhante, e também já senti o desconforto que é tentar escrever em um ambiente público com acesso a internet.

 
At 3:04 PM, Blogger mundosdevidro said...

Estive pensando, expressei-me mal. Não é que uma lan house seja um ambiente de "baixa potencialidade literária" (isso pareceu aquelas descrições que vêm em rótulo de refrigerante). Aliás, creio que toda boa literatura contemporãnea tem o mérito de arrancar elementos poéticos do que há de mais cru, mais frio e bruto à nossa volta, memso que isso signifique uma espécie de "despoetização". É o tipo de auto-consciência que faz com que uma obra sintetize as energias espirituais (culturais) de seu tempo. No caso da lan house, simplesmente era um ambiente bastante incoerente com o estado da minha sensibilidade naquele momento.

 

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